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SANTAS CASAS

O nome – Santa Casa de  Misericórdia – está fora de moda. O que haverá de mais antiquado do que ser santo nos dias de hoje? Santidade pressupõe renunciar às pompas e glórias do mundo, além de religiosidade e espiritualidade, no sentido de privilegiar as virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade. E - algo inimaginável -  dedicar-se à oração e à penitência; vivenciar a frugalidade, a castidade e a pureza; amar o próximo a ponto de socorrê-lo no infortúnio e nas doenças, mesmo as mais doloross e repugnantes.

Ensinam os dicionários que o vocábulo “misericórdia” tem origem latina e, em sentido estrito, significa “doar o coração a outrem”. Lato sensu, pode ser entendido como “doar a quem necessita”. Sendo que nessa doação incluem-se, além de bens materiais, a comiseração e o tempo despendido com os necessitados.

As Santas Casas de Misericórdia surgiram com tais objetivos. A primeira delas foi fundada em Lisboa (em 1498), por Frei Miguel Contreiras, apoiado pela Rainha D. Leonor de quem era confessor. Reconhecida como precursora das ONGs, por ser leiga e não governamental, a inovadora instituição orientava-se pelo Compromisso de Misericórdia de Lisboa, composto por sete obras “espirituais” e sete “corporais”. Vejamos algumas: visitar os enfermos e os presos, remir os cativos, dar de comer aos famintos e de beber aos sedentos, abrigar os viajantes, enterrar os mortos.

Era tal a popularidade e o prestígio das Santas Casas que – afirmava-se – mesmo nos mais remotos pontos do império, onde houvesse três portugueses uma delas seria fundada. Certo é que se multiplicaram, instituídas e mantidas por particulares, que as administravam sem qualquer salário ou pro labore.

A primeira Santa Casa fundada no Brasil data de 1543, em Santos (SP), onde  continua a funcionar. Ainda no século XVI, vieram as de Salvador, Rio de Janeiro e  São Paulo. No Império e na República, seguiram-se muitas outras. Nelas inspiraram-se os hospitais filantrópicos de diferentes credos e etnias, que hoje totalizam cerca de 2.100 estabelecimentos de saúde no Brasil.

Em nosso tempo, quando se diz que a atenção e o atendimento aos pobres e necessitados começou com os governos petistas, vale lembrar tais fatos. Até porque, recentemente, os holofotes da mídia estiveram focados na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, onde foi atendido emergencialmente o então candidato à presidência da República, esfaqueado em circunstâncias não inteiramente esclarecidas. Dispondo de instalações e equipamentos de primeira linha, competente equipe médico-cirúrgica  salvou-lhe a vida e evitou consequências mais dramáticas.

Paralelamente, ficou também evidenciada a situação falimentar das Santas Casas, disseminadas por todo o país - as quais não recebem as verbas que lhe são devidas pelo poder público, a despeito de atenderem multidões de indigentes e pacientes do SUS. Enquanto isso, o Congresso perdoa dívidas bilionárias, além de aprovar o aumento de salários para setores privilegiados do funcionalismo público. Isso sem falar no saco sem fundo da corrupção que se desvenda a cada dia.

Não resta a menor dúvida: a alternância do poder é condição indispensável para o bom funcionamento da democracia.