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DÍVIDA HISTÓRICA?

Creio que o Ano Novo jamais tenha sido anunciado assim, como um tempo de choro e ranger de dentes. Temores apocalípticos estariam a formar sombras sobre o Brasil e seu povo –  nós, cidadãos comuns, que clamamos por emprego, saúde, transporte, educação e segurança, em clima de paz e alegria. Pois que a vida é uma só e ninguém é de ferro!

Um breve olhar no mapa-mundi mostrará a posição geográfica do nosso país: ocupamos o centro e a região leste do subcontinente sul americano, formando imenso enclave português em um mundo onde predomina a língua castelhana, do sul dos Estados Unidos à Patagônia. O que nos aproxima é a herança colonial ibérica, a par da dificuldade de superá-la.

Ocorre-me reler o pronunciamento feito por Evo Morales, durante recente reunião de chefes de estado na Europa. Em texto primoroso – talvez redigido por Garcia Lineira, teórico da inteligentizia cocalera - o presidente do Estado Plurinacional da Bolívia identifica-se como representante dos povos que ali vivem há 40 mil anos e foram “descobertos” há 500 anos pelos espanhóis... Nos “irmãos europeus”, Morales afirma ter identificado a certeza de que “toda dívida se paga com bens ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros, sem pedir-lhes consentimento”. Mas sustenta: “Também posso reclamar pagamentos e também posso reclamar juros”.

Lembra que, no Arquivo de Índias, “papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura” comprovam que ao porto de San Lucas de Barrameda (no sudoeste espanhol) chegaram 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América, entre 1503 e 1660. Morales ironiza: jamais diria tratar-se de saque, nem de espoliação, nem de genocídio, pecados que os cristãos certamente não cometeriam; mas proclama que “o avanço do capitalismo e da atual civilização europeia se deve a [essa] inundação de metais preciosos!”

Entende ele que tal repasse de ouro e prata pode ser considerado como o primeiro de muitos “empréstimos amigáveis” feitos pela América com vistas ao desenvolvimento da Europa.  Lamentavelmente, porém, os beneficiários têm sido incapazes de aproveitar tal generosidade; pelo que “depois de uma moratória de 500 anos”, Morales vem reclamar-lhes “o pagamento do capital e os juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos para cobrar” . E resume a proposta: a simples devolução dos metais preciosos adiantados, “mais o módico juro fixo de 10 por cento ao ano, acumulado somente durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça”. O resultado desse cálculo levaria, a uma quantidade tão exorbitante de ouro e prata, que excederia o próprio peso do planeta Terra. Pelo que conclui o presidente boliviano: “Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam se calculados em sangue?”

Transpondo tal raciocínio para nossa própria realidade, dados publicados no Atlas Histórico do Brasil (FGV/CPDoc) informam que a produção brasileira somou 183,81 toneladas de ouro (de 1705 a 1799).  Das quais um quinto – ou seja, 20 por cento, perfazendo modestos 28 mil quilos de ouro – destinou-se a Portugal, de onde fluiu para financiar a Revolução Industrial inglesa e outras aplicações igualmente rentáveis (para eles).

Ainda que em valores ínfimos diante do que cobra Morales, que tal reclamarmos a nossa parte dessa dívida histórica da Europa para com suas ex-colônias sul-americanas?  Nada mal para amenizar as agruras do Ano Novo que se anuncia tão sombrio...

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 29 de dezembro de 2018)