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HONRADEZ E DECÊNCIA

Ano Novo, novo governo. Esperanças que se renovam. O cerne da democracia está na alternância do poder, até porque é com ela que se revezam as elites dirigentes. E é com ela que se escancaram virtudes e vícios de quem sai, ao mesmo tempo em que passam ao centro da atenção aqueles que chegam. 

Claro está que jamais se alcançará a perfeição. Como em toda realização humana, a democracia se exercita entre erros e acertos. Com o diferencial de que ela contém os instrumentos de sua própria renovação e consequente correção de rumos.

Em 2018, depois de uma campanha emocionalmente agitada, 57 milhões de brasileiros votaram a favor da alternância dos quadros dirigentes do país. Depois de cinco mandatos presidenciais e 20 anos de governos que se diziam “de esquerda”, a maioria optou pela liberal democracia. E ratificou o que seria a volta dos militares ao primeiro escalão do novo governo que se instalou a partir de 1º. de janeiro de 2019.

A presença dos militares – como grupo profissional – na história brasileira é algo que remonta aos dias iniciais da colonização, quando muitos deles foram administradores e governantes. A chamada “questão militar” – que enfeixava militares descontentes com os rumos do Império – contribuiu para que fosse vitoriosa a República. Civilismo e militarismo digladiaram-se na Velha República; a Revolução de 1930 fundamentou-se no Tenentismo. O Estado Novo começou e findou pelas mãos de militares; de igual modo, 1964 resultou da ação de lideranças civis que convocaram as Forças Armadas a apoiá-los. “Vivandeiras às portas dos quartéis” – assim as definiu o incendiário Carlos Lacerda, que igualmente os incensou e hostilizou.

Afinal, quem são esses militares, os integrantes das Forças Amadas – Exército, Marinha e Aeronáutica, presentes em todo o território nacional, hierarquicamente organizados sob a mística da ordem, da disciplina e da dedicação à pátria, inclusive com o sacrifício da própria vida se necessário for?

Não obstante as Forças Armadas reproduzam em suas fileiras as classes sociais, os oficiais de patentes mais altas situam-se entre os brasileiros de classe média. O que os diferencia é o alto nível da educação formal que recebem nas instituições que os formam – além da exigência de permanente atualização, através de cursos e estágios. Escolas de Aperfeiçoamento, de Comando e Estado Maior, de Altos Estudos Políticos e Estratégicos são de frequência obrigatória aos egressos das Academias, para o fim de seleção e promoção na carreira.

Nesses centros de estudos, estuda-se o Brasil – seus problemas e soluções. O que se completa com a vivência compulsória em postos de fronteira, bases e destacamentos no fim do mundo, na convivência com populações isoladas e esquecidas.

E eis que um capitão do Exército é eleito presidente e um general, vice-presidente da República. Lado a lado, civis altamente capacitados passam a comandar ministérios e empresas estatais. De todos o que se espera é, fundamentalmente, que sejam honrados e decentes. Podem até errar, podem não corresponder às expectativas, podem mesmo ser toscos e bisonhos – o que não podem é mentir e roubar.

Honradez e decência. Alguém me questiona na Internet se essas palavras ainda existem na língua portuguesa. Existem sim, e referem virtudes valorizadas e praticadas no dia a dia pela imensa maioria do povo brasileiro. Que o novo governo não se esqueça disso.

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 12 de janeiro de 2019)