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EMPODERAMENTO

Uma das (poucas) vantagens da chamada terceira idade é a de que nós, velhinhos, podemos ser implicantes. De certa forma até se espera que seja assim, mesmo porque nos encontros familiares é divertido brincar-se com as idiossincrasias dos idosos.

Tenho também as minhas implicâncias, sendo uma delas a ojeriza a certos vocábulos da moda. Talvez porque sigo a antiquada escola que vê a nossa amada língua portuguesa como uma das mais belas  - seja pela sonoridade, seja pela musicalidade, seja pela riqueza vocabular, acrescida no Brasil com a contribuição de quantos participaram da formação de nossa nacionalidade.

Bem sei que línguas são organismos vivos e estão em constante mutação. De vez em quando, porém, acontece que determinadas palavras são introduzidas no vocabulário cifrado dos doutores, de onde é transposto para o universo dos locutores e comentaristas da mídia. Na sequência ganham foros de academicismo e até de sabedoria: é o caso de empoderamento – e que Deus nos acuda!

Ao que me consta, trata-se de neologismo que teria sido criado por Paulo Freire, tendo origem no inglês “empowerment”: conceder poder, seja para si próprio, seja para outras pessoas. Nos dias de hoje, é quase impossível referir-se ao feminismo e ao movimento negro sem falar em empoderamento – o que pode até ser verdade, mas como dói nos ouvidos!

Ao ver na Internet fotos de mulheres ditas empoderadas – de acachapante feiura, mau gosto e absoluta falta de respeito a si mesmas – lembrei-me de fato acontecido na distante década de 1960. Adepta que sempre fui e sou da igualdade dos direitos entre os sexos, reuni-me certa tarde com um pequeno grupo de amigas  - professoras e funcionárias públicas –, sendo nossa convidada de honra a esposa de um pesquisador egípcio que aportara a Goiás.  Éramos talvez dez jovens senhoras em uma confortável sala de estar, aonde começou uma agradável troca de opiniões favoráveis a que precisávamos, sim, ser cultural e economicamente independentes. Para o que, de alguma forma, deveríamos contar com a colaboração de esposos, avós e serviçais que nos ajudassem a criar e educar os filhos, manter o equilíbrio do lar, e ainda reservar tempo para cuidar do próprio corpo, porquanto  éramos moças, vaidosas e saudáveis.  

 A convidada egípcia era uma bela muçulmana, a pele perfeita e grandes olhos iridescentes contrastando com o turbante que lhe escondia os cabelos. Vestia-se com uma roupa longa e solta, mas parecia elegante. Foi-lhe dada a palavra – e ela expressou-se em espanhol impecável, pois já residira em países latino-americanos.

Agradeceu com gentileza e perguntou se poderia ser absolutamente sincera.   Ante a resposta afirmativa, disse que lamentava discordar dos pontos de vista expressos anteriormente - e explicou:

- Para mim, nada há de melhor do que cuidar de meu marido, de nossa casa, de nossas filhas. Fazê-los confortáveis e felizes, alimentá-los bem. Ajudar as meninas em suas lições de escola, brincar com elas; dispor de tempo para ler, ver TV, ir às compras sem pressa... Depois das tarefas domésticas, tomar um banho perfumado, esperar meu marido chegar do trabalho à tarde, abraçá-lo e saber as notícias do dia.

Concluiu com um sorriso radioso: - Desculpem, devo ser antiquada...

De repente, nós outras nos sentimos mal cuidadas, cansadas, exauridas. E a anfitriã mandou servir o chá.

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 26 de janeiro de 2019)