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SOBRE COBRAS E REZAS

Aqui na chácara, todos têm uma história de cobra para contar. Elas passam meses desaparecidas; de repente, estão por aí. E nada há mais asqueroso, nem mais perigoso do que essa raça de bichos peçonhentos.

Anos atrás, houve uma que se apareceu bem na porta da cozinha; meu netinho, que andava pela casa dos dois anos, estendeu a mão para pegá-la. Foi um Deus nos acuda! Uns agarrando-o para tirá-lo dali; outros correndo para matar a cobra – e todos gritando de pavor. O menininho pôs-se a chorar assustado; na sua inocência, não tinha ideia de que estivera perto de ser picado, nem da ameaça que isso representava.

Tempos depois, estávamos jantando na copa. Era uma noite de verão; a janela e a porta estavam abertas para a varanda de onde vinha o perfume do jasmineiro. De repente vi algo que se arrastava perto do aparador. Fixei a vista e dei o alarme: “Uma cobra!” Apavorada, apontava para a intrusa, que se aproximava coleando o corpo, com a cabeça erguida e a língua de fora.

Levantamos todos ao mesmo tempo e corremos para a varanda, fechando a porta. A cobra avançava, esticava-se, a cabeça aparecendo no vão da janela.  Meu filho ligou do celular para o caseiro. Nós, urbanóides, somos totalmente impotentes em situações que tais. A cobra continuava com o bote armado. E se conseguisse passar pela janela, que é baixa? Em poucos minutos chegou o empregado, acompanhado de um peão, ambos armados de porretes. Com um golpe esmagaram a cabeça da malvada, que estrebuchou e morreu. Foi um alívio! Um dos nossos intrépidos salvadores anunciou: “Jararacuçu danada de venenosa!”

Durante alguns dias, esperamos em vão que o(a) companheiro(a) da defunta aparecesse. Por via das dúvidas e a conselho de entendidos, resolvi chamar um benzedor, afamado na região.

Era um homenzinho baixo, magro, de idade indefinida; vestia-se com calças de tear, camisa de mangas compridas, botinas de elástico. Educadamente tirou o chapéu e estendeu a mão, em respeitoso cumprimento. Ofereci-lhe uma cadeira, servi café. Enquanto isso, expliquei meu problema: sabia que ele era o melhor benzedor da região e eu precisava dos seus serviços. Ele concordava com a cabeça, como que sorrindo. Procurou tranquilizar-me: “Não carece a senhora ficar nessa aflição. Vou fazer o que puder”. Esperançosa, perguntei quanto cobrava pelo trabalho: “Nada não, senhora – ele respondeu. A força da minha reza vem de Deus e eu não cobro nada”.

O benzedor saiu andando pelo pasto, pelo jardim, pelos cômodos da casa. Foi à horta, ao pomar, chegou até os eucaliptos e o curral. Em uma das mãos levava um pequeno terço e, na outra, um galhinho verde.

Acompanhei-o com o olhar. Concentrado, murmurava palavras inaudíveis; de vez em quando parava, olhava para o céu, erguia o terço, sacudia o galho e fazia o sinal da cruz. Aproximou-se e perguntou se eu tinha água benta; dei-lhe a que me restava. Ele aspergiu os lugares aonde as cobras tinham aparecido; depois, seguiu no rumo da porteira e sumiu.

O horizonte já ganhava tons de vermelho quando reapareceu. Vinha com o rosto afogueado, as botinas empoeiradas, a camisa amarfanhada. Aceitou um copo de água e voltou a tomar café. Agradeci e insisti em remunerá-lo. Ele protestou: “Carece não senhora”. Mas acrescentou: “Aceito um tanto do seu café, que é muito bom”.

Foi-se embora, levando uma sacola cheia, todo feliz. As cobras sumiram por algum tempo; de repente, começaram a aparecer quase todo dia. Não tive dúvidas: mandei um recado para o meu amigo benzedor. Ele não demorou a vir, ouviu o relato do que estava acontecendo e explicou:

- Essas cobras tão vindo da fazenda do vizinho. Tou sabendo que ele chamou um mestre benzedor de reza mais forte do que a minha. As cobras daqui que eu mandei pra lá voltaram tudo; e agora estão vindo outras que ele pôs pra fora. 

Desalentado,  concluiu:

- Não posso fazer nada, a senhora me desculpe.

Dito o que cumprimentou e saiu sem olhar para traz.

(Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 09 de março de 2019)