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LEMBRANÇA DE ALCÂNTARA

A cidade de Alcântara (MA) ganha destaque na mídia, com o acordo firmado entre Brasil e Estados Unidos relativo à base de lançamento de satélites e foguetes. Durante alguns anos, coordenei o Grupo de Trabalho de Alcântara, do Ministério da Cultura, que tinha a finalidade de restaurar e revitalizar a bela cidade seiscentista, com sua paisagem deslumbrante, casarões e relatos fantásticos.

O imaginário é, ali, povoado de lembranças da escravidão, sob a forma de racontos às vezes dramáticos. A pousada onde me hospedava funcionava em um sobrado revestido de azulejos; na planta modulada, os dormitórios do andar superior coincidiam com os do pavimento térreo.

Certa noite, na roda de conversa que se formava na praça em frente, alguém contou que, em determinado cômodo do primeiro andar, fora assassinada uma jovem escrava que se recusara ao seu senhor. Com requintes de sadismo, ela fora sangrada à faca, formando-se enorme poça de sangue no chão que escorria pelas frestas do assoalho. Passado mais de um século, em certas noites ainda se podia ouvir pingos caindo no chão do quarto em baixo.

Condescendentes, todos nós rimos da história fantasmagórica, que parecia consentânea com o cenário da velha cidade. Não havia ninguém hospedado no cômodo em que se dera o assassinato; no térreo, no quarto que lhe correspondia, estavam duas técnicas do Grupo de Trabalho. Perguntadas se queriam mudar-se, elas dispensaram o oferecimento, até porque não acreditavam em fantasmas.

Como de costume, a energia elétrica foi desligada à meia noite. De repente, gritos lancinantes quebraram o silêncio, vindos do quarto das jovens hóspedes.

- É sangue! Ali tem sangue!  - elas diziam apavoradas.

Acudiram a dona da pousada e alguns hóspedes. Á luz clara de um Aladin, nada se via no canto do quarto para o qual apontavam as moças. Aos poucos elas recuperaram a lucidez e puderam contar o que tinha acontecido.

Deitadas em confortáveis redes maranhenses, logo uma dels  ferrara no sono. Foi acordada pela companheira:

- Você está ouvindo?

- Ouvindo o que?

- Escuta!

Sentando-se, sem enxergar um palmo adiante do nariz, elas ouviram pingos que caíam no assoalho, no canto oposto do quarto.

- Será água? –uma estranhou.

- É sangue – garantiu a outra. Lembra-se da história da escrava?

Concordaram em que era melhor ver de perto o que havia. Caminharam descalças em direção ao ruído, até que pisaram em algo visguento, arrepiante. Com o que elas gritaram e gritaram...

Depois de um chá de erva cidreira, foram levadas para outro compartimento, mas não conseguiram dormir.  À luz da manhã juravam: não tinham inventando nada, nem os pingos, nem o sangue que pisaram... Foram embora no mesmo dia.

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 23 de março de 2019)