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NO FIM DE ANO

É tempo de avaliações e de balanços, de escolher os melhores e os piores momentos de 2011, de lembrar fatos marcantes, de celebrar famosos, ou criticá-los e avaliá-los. Como tudo é relativo, para alguns o ano que passou foi de encantos e maravilhas mil; para outros, nem tanto assim. A grande maioria certamente não o vê como especial: nem ruim, nem bom, simplesmente esvaiu-se na poeira do tempo, sem deixar marcas nítidas nem diferenciar-se dos demais.

 

Faço um esforço de memória: o que lembrar de especial que tenha acontecido em 2011? No plano pessoal, só tenho a agradecer a tranqüilidade e a paz com que Deus nos brindou e à nossa família no ano que se encerra. Dizem que os povos felizes não têm história, pois é a marca dos sofrimentos e dos reveses que acabam por prevalecer nas evocações do passado. Houve bons momentos, outros ruins, mas o saldo aparece como amplamente positivo.

 

Assim é que na semana que passou, reunimos quatro netos e uma filha para um programa diferente: assistir à opereta “O Morcego”, no Teatro Municipal de São Paulo. Os adolescentes estavam meio arredios; não era bem a praia deles ter que vestir-se formalmente e encarar três horas de música erudita... Concordaram com a idéia, menos por entusiasmo e mais para agradar o avô “operático”.

 

As meninas, lindas, pareciam manequins, usando vestidos de festa e salto alto; os rapazes capricharam, foram de blazer e tênis, cada qual mais charmoso! O momento foi documentado com fotos, esbanjando tecnologia dos celulares e outras maquininhas cujos nomes não consigo decorar. E lá fomos nós em comitiva – dois táxis – para o centro da Paulicéia.

 

Uma restauração caprichada devolveu ao centenário Teatro Municipal sua majestade e suntuosidade. Os lustres e os espelhos de cristal, as passarelas de veludo nas escadarias de mármore, os afrescos, os vitrais, a cortina do palco, a cúpula e os detalhes do teto – tudo perfeito, como se inaugurado há pouco. A garotada, embevecida, descobria a beleza das artes aplicadas a serviço da música.

 

O espetáculo foi além da expectativa. Na versão apresentada, a alegre opereta de Strauss entremeia orquestra, diálogos, balé, bel canto, rock e até samba, numa sequência alegre e divertida. O público vibrou e aplaudiu com entusiasmo, destacando-se a bela voz e a performance da soprano Carmem Monarcha, que há pouco tempo esteve em Goiânia. A “jovem guarda” ali presente se mostrava encantada e surpresa com o mundo do canto lírico que acabara de descobrir.

 

É interessante constatar a força dos estereótipos e das idéias preconcebidas: como a de que a chamada música clássica é coisa para velhos ultrapassados e pessoas de gosto fora de moda. No Teatro Municipal de São Paulo havia idosos, adultos e jovens, sendo estes mais numerosos e, naturalmente, mais entusiasmados em suas manifestações de agrado, com palmas e “bravos” entusiásticos.

 

Fico a pensar de quanta beleza e de quantos momentos agradáveis nos privamos por puro preconceito, por preguiça ou por comodismo. Gerações de moços e moças deixam de apreciar e fruir muitas das maravilhas produzidas pelo ser humano, porque não encontraram quem os guiasse na descoberta da maravilhosa herança que as civilizações nos legaram – e falo no plural, compreendendo tanto o Ocidente como o Oriente, tanto os antigos como os modernos e contemporâneos.

 

As nossas tão indigentes escolas – com as exceções de praxe – não se preocupam em educar crianças e jovens sequer para a apreciação das artes maiores, quais sejam, a literatura, a pintura, a escultura e a música. Via Internet, as possibilidades de acesso ao legado cultural da humanidade são infinitas, nos dias de hoje. Entretanto, uma forma tosca de bairrismo – que na verdade está associada ao comodismo – insiste em valorizar e divulgar somente alguns artistas locais e contemporâneos, quando o verdadeiro sentido da educação formal é abrir janelas para o mundo, dando ao educando oportunidades de familiarizar-se com o que de melhor tem produzido o espírito humano, ao longo dos séculos.

 

Não estou a sugerir que nos quedemos deslumbrados diante da arte européia ou norte-americana; nem advogo que se despreze os artistas regionais ou locais. O que me parece necessário é que os educadores estejam atentos à realidade dos dias atuais, quando todos nós – inclusive nossos alunos – somos cidadãos do mundo. Assim sendo, devemos ter o espírito aberto e acessível à cultura universal, em suas diferentes manifestações. No campo da música, axé, pagode e que tais podem ser interessantes, mas não exclusivos. É preciso deixar de lado preconceitos e comodismo e permitir a todos os brasileirinhos conhecer Villa Lobos, Carlos Gomes e outros clássicos nacionais, mas também deleitar-se com os grandes da música internacional.

 

Veja-se, por exemplo, a presença cada vez maior de japoneses, chineses e coreanos nas salas de concerto ocidentais, como espectadores, instrumentistas e solistas. A educação rigorosa e exigente que está fazendo dos países asiáticos potências econômicas e tecnológicas não prescinde da educação artística de alto nível, voltada inclusive  para a cultura ocidental. Enquanto isso, na indigência de nossas escolas os alunos “tocam” pandeiro e reco-reco...

 

 

 

(publicado no jornal “Diário da Manhã” de Goiânia, em 03 de janeiro de 2012)