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DE CHOROS E BOMBAS

São intrigantes as imagens da choradeira desencadeada pela morte do ditador Kim Jong-il. Autoridades, governantes, militares, velhos, adultos, jovens, adolescentes e crianças esbaldam-se de chorar. Pessoas comuns soluçam, desmaiam. E o fazem com lágrimas que rolam soltas, com atitudes que parecem externar a dor mais profunda.

 

Dele eu conhecia pouco além do penteado alto que, dizem, inspirou o cabeleireiro da presidente Dilma na mudança de visual (e de madeixas) a que a então candidata se submeteu, antes das eleições. Na Internet fico sabendo que o extinto governou a Coréia do Norte durante 17 anos; sucedeu ao pai e este ao avô, cognominado “Eterno Presidente”. Há sete décadas os Kim mandam no país, agraciados com os títulos superlativos de “Nosso Pai”, “Líder Supremo”, “Querido Líder”, Comandante Supremo” e assim por diante.

 

Um vídeo mostra o velório de Kim Jong-il. Na câmara ardente, diante do ataúde exposto à visitação pública, longas, longuíssimas filas estendem-se, intermináveis. Em “close”, cidadãos debulham-se em lágrimas. Flores são depositadas, formando pilhas que não param de crescer. Diante da paisagem invernal, locutores afirmam que choram até os pássaros nos ramos das árvores desfolhadas.

 

Faço um esforço para lembrar o que de notável terá feito o tão pranteado líder coreano em prol do seu povo. Entre os países asiáticos, a Coréia do Norte aparece como a lanterninha em desenvolvimento econômico, social e humano, perdendo de goleada para sua co-irmã, a Coréia do Sul. Fechado e quase inacessível, do país de Kim Jong-il sabe-se unicamente o que é noticiado pelos veículos oficiais de comunicação. Ou seja; tudo vai bem, no melhor dos mundos.

 

Entretanto, eventuais visitantes – jornalistas e observadores independentes – afirmam que, ali, prevalece um sistema de governo que é o mais totalitário do planeta, embasado em princípios marxistas de viés stalinista. Com a agravante de que 40% dos recursos orçamentários são destinados a gastos militares, inclusive à fabricação de bombas atômicas, na contra-mão das salvaguardas vigentes em todo o mundo para armamentos desse tipo.

 

Como acontece nos regimes autoritários, prevalece o culto à personalidade dos governantes – vale dizer, a Kim Jong-il, que foi ao mesmo tempo Líder Supremo da República Popular Democrática da Coréia do Norte e Presidente da Comissão de Defesa Nacional, além de Secretário Geral do Partido dos Trabalhadores, único do país. Quando morreu – aos 70 anos - somente dois dias depois a notícia foi divulgada, atribuindo-se o desenlace “à fadiga” decorrente da “dedicação de sua vida ao povo”. Segundo outra versão, a “causa mortis” teria sido um infarto, mas tão prosaico fim não seria digno de tal personagem.

 

Como se explicaria, então, a catarata de lágrimas desatada com o falecimento do ditador norte-coreano? A única resposta possível está na força da propaganda, com a divulgação insistente de supostas bondades e virtudes do falecido, mediante a utilização maciça dos recursos da mídia e do marketing político, inclusive na educação formal e informal.

 

Assim sendo, a morte do governante toma a feição de perda pessoal e irreparável: foi-se o pai, o amigo, o esteio, a estrela-guia, o onipresente e onisciente Chefe e Líder, único a garantir o bem estar e a segurança. Ainda que esta última esteja em perigo, ante a política atômica megalomaníaca do ditador, que ameaça a própria paz mundial.

 

Quando se observa melhor é possível identificar-se na choradeira geral algo de pantomima, certo esforço para verter lágrimas, talvez uma exacerbação voluntária nas manifestações de dor. Como se houvesse uma gigantesca encenação diante de olhos invisíveis. O que haverá por traz dessa representação? A certeza de que observadores implacáveis estão a registrar “quem chora” e “quem não chora”? A previsão de prêmio ou, ao contrário, de castigo para quem não corresponder às expectativas de ranger de dentes? Certo é que até meninos e meninas soluçam, mas crianças se apavoram quando vêm o desvario de adultos, chorando e imprecando.

 

Parece oportuno refletir sobre a força da mídia e do marketing atuando nas diversas esferas da vida social, sobretudo nas escolas: veiculando mentiras como se verdades fossem, impingindo meias verdades como verdades absolutas,  procedendo à lavagem cerebral de cérebros imaturos ou crédulos, transformando pessoas medíocres – quando não insanas – em líderes paternalistas, “identificados” com a massa. Vamos, hoje e sempre, abrir os olhos e os ouvidos, aguçar a sensibilidades, mobilizar o desconfiômetro e avaliar com suspeição os políticos que nos são apresentados como pais da pátria e condutores dos povos.

 

No complicado xadrez da política internacional há apreensão quanto aos rumos da Coréia do Norte que, lembre-se, surgiu no rescaldo de uma longa e devastadora guerra civil. O filho e sucessor de Kim Jong-il – de nome Kim Jong-un -  tem 29 anos e não parece dos mais brilhantes, mas já assumiu alguns dos poderes e dos correspondentes títulos honoríficos do pai. Rezemos para que as bombas do arsenal norte-coreano continuem desativadas e não se concretize a ameaça (que parecia esquecida) de uma guerra atômica.          

 

  Em tempo: com todo o respeito, não será este o momento de mudar o (horroroso) penteado à Kim Jong-il da nossa presidente?

 

 

 

(publicado no jornal “Diário da Manhã” de Goiânia, em 10 de janeiro de 2012)