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NA RUA DO BISPO (II)

Madrugada ainda, o dia começava com a missa rezada por um apressado Monsenhor, a quem, sonolentas, respondíamos engrolando o latim. Seguia-se o café da manhã - e depois as aulas, que se estendiam por toda a manhã e parte da tarde.

 

As turmas eram pequenas. Na minha, somente nove meninas; cada uma era acompanhada e cobrada individualmente, os professores conhecendo pontos fracos e fortes e, igualmente, sabendo de eventuais problemas pessoais ou familiares que interferissem na vida escolar da aluna.

 

Minhas matérias prediletas, História e Português, eram lecionadas respectivamente por Madre Barreto e Madre Bezerra. A primeira, alta e exuberante, quando discorria sobre personalidades e feitos heróicos emprestava ênfase ao relato, dramatizando situações e frases. Foi assim que acompanhei César à Gália: “Veni, vidi, vinci”; e Napoleão ao Egito: “Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam”. Sobre a unificação da Itália, com bela voz de contralto ela cantou “Il Pensiero”; foi um momento mágico.

 

Nas aulas de Português, Madre Bezerra – Madre Bezerrinha para nós - exigia rigor na ortografia, na gramática, nos exercícios de análise sintática e lógica. Era obrigatória a leitura de obras de autores clássicos e modern0s - brasileiros e portugueses -, de Camões e Camilo Castelo Branco aos poetas românticos, condoreiros e modernistas. Do nosso guru, Castro Alves, decorávamos poemas inteiros recitados em classe na forma de jograis.

 

E havia as redações, que podiam ser descrições, dissertações, diálogos, cartas, ofícios, telegramas, relatórios, ou os temidos textos “imaginativos”, a partir de temas propostos pela mestra: ora abstratos, como em “A vida”, “ A tristeza”, “ O amor”; ora objetivos, como em “Vida na fazenda”, ”Uma historia real”, “Minha amiga predileta” e assim por diante.

 

Cada redação era avaliada e corrigida; uma vez aperfeiçoada, a autora lia-a, de pé, diante da classe que devia comentá-la, o que levava a debates interessantes. A exposição pública do texto incentivava o esforço das meninas, que não desejavam se sentir inferiores diante das colegas. Mesmo as que não tinham vocação para escritoras saíam-se bem e, no final da 4ª. série do ginásio (atual 9º. ano), éramos capazes de redigir com clareza e correção.

 

As internas saíam um sábado e domingo por mês; nos outros finais de semana, podiam receber visitas de familiares. Acompanhada de uma das filhas, minha querida Tia Luíza ia ver-nos, trazendo frutas, doces, queijos e manteiga, preocupada em reforçar a alimentação das sobrinhas em fase de crescimento. De igual modo, meu Tio Pacífico, médico, solteirão e “bon vivant” dava-se ao trabalho de ir ter conosco, levando-nos chocolates.  Em visão retrospectiva, fico a pensar o quanto de generosidade e de sentimento de união familiar os motivava a atravessar o Rio de Janeiro – de Copacabana ao Rio Comprido – para ouvir a conversa desenxabida de adolescentes bobocas...

 

Em datas santificadas, descíamos a ladeira da Rua do Bispo e íamos à missa festiva na igreja próxima, dos frades capuchinhos. A longa fila de meninas tinha à frente uma freira – e outra na retaguarda, fechando o cortejo. Pessoas paravam para olhar as mocinhas em uniforme de gala (que  detestávamos): saia pregueada, blusa de mangas compridas e gola alta, em linho branco no verão, em tropical azul marinho no inverno. Os sapatos eram pretos, fechados com cadarço; nós os engraxávamos, nos dias em que arrumávamos os armários e trocávamos as roupas da cama, cujas grades metálicas eram polidas até brilhar. 

 

A convivência entre as colegas era alegre e prazerosa; havia tempo para brincadeiras e para praticar esportes, além da ginástica obrigatória. Eu era levantadora no time de vôlei; jogava também ping-pong e gostava de comparecer aos círculos de estudo da JEC (Juventude Estudantil Católica), que tinha Madre Campelo como dirigente. Eventualmente, participávamos de encontros que se realizavam em internatos similares, como o Sacré Coeur e o Sion, de tradição francesa.

 

O Colégio Santa Dorotéia tinha origem italiana, sendo dirigido pelas Irmãs Dorotéias que chegaram ao Brasil no final do século XIX. Instalaram-se inicialmente em Pernambuco, de onde passaram a outros estados nordestinos e, posteriormente, chegaram ao Sul-Sudeste do País. Minha avó Feliciana foi aluna dorotéia no Recife; minha mãe e minhas tias, em São Luis do Maranhão. Minhas irmãs e eu éramos tidas como “netas” na unidade do Rio de Janeiro, onde a diretora, Madre Cavalcanti, nos cobrava a mesma dedicação aos estudos e o comportamento exemplar das familiares que nos antecederam. Confesso que nem sempre se confirmou tal expectativa.

 

Vivíamos os anos finais da ditadura de Vargas. As comemorações da Semana da Pátria exigiam o comparecimento de todos os colégios da capital da República à parada do “Dia da Raça” – no dia 5 de setembro - que culminava com uma concentração no estádio do Vasco da Gama, quando se apresentava um gigantesco coral de milhares de vozes previamente ensaiadas.

 

Nas aulas de canto orfeônico aprendíamos as músicas indicadas pelas autoridades; entretanto, as dirigentes do Santa Dorotéia não nos levavam àquele evento patriótico (?), alegando que sua duração prolongada era prejudicial à saúde das alunas. Ficávamos frustradas: qual a adolescente que não gostaria de desfilar na Avenida Rio Branco, entre bandeiras, músicas e aplausos? E cantar hinos e canções de Vila Lobos junto com outros jovens?

 

Pela desobediência, nosso colégio era punido com uma pesada multa – naturalmente repartida entre os pais das alunas. Só depois de adulta vim a entender que a recusa das freiras devia-se à sua ojeriza ao fascismo presente nas manifestações do “Dia da Raça”.

 

Em tempo: meu Pai (que nunca apoiou Vargas) costumava dizer que de bom grado pagava sua parte da multa.

 

 

 

(publicado no jornal “Diário da Manhã” de Goiânia, em 31 de janeiro de 2012)