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SAUDAÇÃO AOS NOVOS SÓCIOS TITULARES

Confreiras e Confrades

 

 

 

Ao imaginarmos uma Academia que não as de cultivo do corpo, mas sim da alma, vêm-nos a imagem de um grupo de personalidades de expressão nas ciências, ou nas letras, ou nas artes.

 

A Academia seria um lócus de convivências cerebrinas. Afinal, cientistas acabam de confirmar que, realmente, o cérebro é constituído de duas partes distintas: do lado esquerdo, a guardiã e fomentadora da razão; do lado direito, a da emoção.

 

Não é novidade: razão versus emoção; racionalidade versus sensibilidade. Dualidade tão curiosa, que ao longo dos séculos, a partir de Platão, vem sendo tema de acalorados, profícuos ou improfícuos debates.

 

Nas ciências, a razão, nas artes, a sensibilidade!

 

Hoje, a razão ou racionalidade cada vez mais se expressam através da linguagem virtual, filha da cibernética; a emoção ou sensibilidade expressam-se através de eternas e próprias linguagens, filhas do espírito ou da alma.

 

“Quanto mais uma razão cultivada consagra-se ao gozo da vida e da felicidade, tanto mais o homem afasta-se do verdadeiro contentamento. Se Deus tivesse feito o homem para ser feliz, não o teria dotado de razão”. Palavras do filósofo Emmanuel Kant.

 

“A paixão é a enfermidade da alma”. Palavras de Descartes.

 

Viver mais pela razão ou viver mais pela emoção?

 

Deus nos dotou, através da dualidade cerebrina, da possibilidade de escolha entre uma ou outra forma de vida. Deu-nos a força impulsora do livre-arbítrio; qualquer um de nós pode desenvolver seus talentos, se os têm, quer pela razão, quer pela emoção, ou através de ambas.    

 

Como confrades, atuamos pelas forças impulsoras da razão, do espírito e, sobretudo da alma. Devemos ter em comum o culto à inteligência, à precisão, à clareza, à sensibilidade, à beleza.

 

Infelizmente, o que se tem observado, no entanto, creio que não apenas no Brasil, é a tendência de muitas Academias, em nome das ciências, das artes ou das letras, serem conduzidas por verdadeiro compadrio, transformando-se em curiosa feira de vaidades.

 

Desvirtuadas de seus ideais, tornam-se “locus” de trocas de amabilidades estéreis ao universo das artes e das ciências, mas altamente eficientes na elevação mutua de auto-estimas.

 

Por vezes, assiste-se a raivosas e cômicas guerras de vaidades. No longo prazo, além dessas instituições afastarem-se de seus ideais acadêmicos, tendem à crescente consagração de mediocridades festivas.

 

A Academia Trindadense de Ciências, Letras e Artes - ATLECA nasceu do idealismo de um jovem com pouco mais de 20 anos. Seus sócios fundadores eram professores, profissionais liberais, artistas ou amantes das letras, em sua maioria residentes em Trindade. Todos, por força do mesmo ideal que inspirou seu jovem idealizador, fizeram-na sobreviver, apesar de inúmeras dificuldades inerentes a qualquer tipo de iniciativa que envolva a difusão e, sobretudo, a expansão da cultura local.

 

Hoje, graças à boa vontade de dois de seus membros, possui sede em local privilegiado desta cidade, ainda que provisória. Conseqüentemente, pode se equipar com o estritamente necessário para a estruturação de uma biblioteca com quase 5.000 volumes, sala de reuniões e de pequenas exposições. Possui seu grupo de teatro, jornal mensal, programa quinzenal de rádio local com audiência crescente, e site próprio na INTERNET, com cerca de mais de dez mil visitantes em quatro anos, e mais de 700 trabalhos de acadêmicos.

 

Recentemente, refez-se o estatuto da Academia. Foi possível, em decorrência, fazer-se total reformulação no seu corpo de sócios, criando quatro categorias: a de sócio titular, em número de 40; sócio titular remido; sócio correspondente e sócio benemérito.

 

A partir dessa nova estrutura, admitiram-se novos membros.

 

A finalidade maior desta Academia - Academia Trindadense de Ciências, Letras e Artes, nossa querida ATLECA - vem sendo a de promover, divulgar e difundir o mais possível a cultura local e regional, sem descuidar da cultura nacional e universal. Nesse sentido, a seleção de novos sócios deve orientar-se, rigorosamente, pelo perfil acadêmico lastreado nas obras dos candidatos que não só atestem inegável saber ou amor às artes, como evidente potencial de crescimento. Com isso, a idade mínima foi diminuída, além de tornar-se flexível diante de casos de notórios talentos. De resto, é ter-se presente sempre que “envelhecer é um eterno rejuvenescer”

 

O pressuposto básico é a compreensão por parte do novo membro de que a Academia é sua arena de engrandecimento intelectual através troca de experiências, onde todo debate é possível, livre e desejável. Essa liberdade, no entanto, deve pautar-se, tanto quanto possível, pelos princípios da disciplina acadêmica, ou seja, através do raciocínio lógico, metodológico e, sobretudo, através da honestidade intelectual; porém, sem abrir mão das emoções e sensibilidades das artes e das letras. 

 

Todos somos poetas, pois todos possuem alma, e na alma a verdadeira força criadora, que nos aproxima do Criador, seja lá isso o que a fé ou a razão nos diga que é, ou não é. Poetar é libertar nossos pensamentos, nossas emoções, para além de nós mesmos. Se na poesia, “o ritmo é a respiração do pensamento e a forma a prisão que nos liberta” - assim nos diz o poeta Paulo Bonfim - a beleza de quaisquer versos está na fala do espírito, da razão ou mesmo do corpo quando nascidas na alma do poeta, sob qualquer forma, ainda que sem ritmo, sem rimas. O mesmo pode-se dizer da música, do balé, do desenho, da pintura, da escultura, da criação ou interpretação teatral, da declamação, da locução, do apenas dizer ou fazer. Nada supera o intelecto humano quando movido pela leveza do ser, na incansável busca do exato, do preciso, da beleza, da perfeição.

 

Viver entre confrades é eterno conviver, aprendendo, ensinando, por vezes ficando rouco ou mudo de tanto ouvir. É confraternizar-se sempre, pois mesmo durante os mais acirrados debates entre razão e sensibilidade, os mais evidentes desentendimentos, as mais óbvias constatações de erros, devemos estar sempre nos exercitando na nobre ciência e arte de aprender, de puro e sábio conhecer, de incansável crescer e rejuvenescer.

 

Mais especificamente, o que se espera, hoje, dos confrades da Academia é contínua luta para se obter sede própria, a fim de que se possa fazer crescer a biblioteca e manter e expandir as atuais atividades. Objetiva-se também criar mecanismos que possibilitem acelerar a difusão da cultura em suas diversas formas para escolas, faculdades e universidades e outras instituições sociais. Incrementar exposições as mais diversas, tanto relativas às ciências, como às artes e às letras.

 

Mas, para tanto, é essencial não perder de vista o aspecto financeiro, idealizando formas viáveis de geração de receitas ou pelo menos pagando em dia as mensalidades, e se possível anualidades.

 

Nossa Academia é apolítica, sem esquecer que cada um de nós é um ser político por natureza; acatamos todas as religiões, cada um abraçado a sua própria fé ou ausência de fé; temos consciência de que nenhum de nós é igual, pois pertencemos à maravilhosa diversidade humana.

 

Razão versus sensibilidade!

 

Não obstante, nos entendemos e nos compreendemos. Nossa diversidade é nossa unidade. Nossas desigualdades, nossa igualdade. Somos um só todo; somos absolutamente iguais... pois somos confrades! Unidos pela alma, somos amantes das ciências, das letras e das artes.

 

Roseli Vieira Pires, Cristiano José da Silva, Hélio Pinheiro de Andrade, sede bem-vindos a esta tão diversa e divertida unidade