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O Legado Cultural

         Na história literária feminina em Goiás, o nome de Graciema Machado de Freitas (Grace Machado) ocupa lugar de destaque. Neste ano de 2010 surge, no calendário evocativo e sentimental das escritoras goianas, a data dos 25 anos de seu falecimento e relembrá-la agora, nesse novo século, constitui uma tentativa de perpetuar os valores essencialmente goianos que o tempo não pode apagar.

          A ilustre filha de Jaraguá iniciou cedo sua participação na imprensa goiana e, por várias vezes, recebeu referências positivas dos críticos da época, como Dr. Antonio Americano do Brasil e Egerineu Teixeira. Tal fato era inusitado para a época, já que poucas mulheres no começo do século XX participavam da vida cultural, a exemplo de Maria Paula Fleury de Godoy, Leodegária de Jesus e Genezy de Castro e Silva, as mais conhecidas porque residiam na antiga capital.

 

         As mulheres que viviam no interior goiano eram isoladas por um determinismo geográfico e só mesmo com muita argúcia e dedicação elas conseguiam romper as difíceis barreiras, pois as comunicações eram escassas. Alguns exemplos de superação podem ser destacados como Laurinda Seixo de Britto de Oliveira Moura e Nila Chaves Roriz de Almeida em Barro Preto (Trindade), Lili Rossi em Pouso Alto (Piracanjuba), Nayá Siqueira de Amorim e Tarsila Natalina Di Lobo em Suçuapara (Bela Vista de Goiás), Maria Barbosa Reis em Vila Bella de Nossa Senhora do Carmo de Morrinhos (Morrinhos), Ninpha de Moraes Lobo em Bonfim (Silvânia), Iracema Vellasco de Figueiredo em Alemão (Palmeiras de Goiás), Maria das Dores Campos em Catalão, admiráveis e esquecidas mulheres de escol, pioneiras do progresso feminino em Goiás.

 

         Nesse cadinho está Graciema Machado de Freitas, a ilustre filha de Jaraguá. Escritora de estilo versátil, polifônica, com imagens fortes, versáteis. Ricas eram suas produções que focalizavam ângulos vários, fixando-se ora no histórico, ora no econômico - político - social. Não era apenas uma “moça romântica e sonhadora” no coração geográfico do Brasil dos anos de 1920.

 

         Outras vezes, em virtude do tema e, sem dúvida, do estado de espírito, as suas produções em prosa eram vazadas em temo romantismo, não um romantismo piegas, convencional, mas sadio, construído em linguagem rica, impregnada de figurações seguras, como nas crônicas escritas no jornal O lar, dirigido pelo talento de Oscarlina Alves Pinto.

 

         O nome respeitado de Grace Machado estava sempre em todos os jornais do Estado e mesmo nos de fora; assinando artigos, crônicas, contos, tudo maravilhosamente elaborado, com português bem construído em estilo cristalino.

 

         Suas páginas eram vistas, porque solicitadas, nos principais periódicos de então: O Lar, da cidade de Goiás, fundado em 1926, por Oscalina Alves Pinto, O Itaberaí, da cidade do mesmo nome, e de propriedade de Arthur Pinheiro de Abreu, O Araguary, do Triângulo Mineiro, Goyaz Acadêmico, de Belo Horizonte, dirigido pelo goiano Valporê de Castro, Novo Horizonte, de Catalão, de propriedade de Zoroastro Artiaga, Voz do Povo, da então Capital do Estado e dirigido pelo Dr. Augusto Jungmann, sem se falar em revistas de outros estados.

 

         Graciema Machado de Freitas nasceu em Jaraguá em 12 de dezembro de 1906, filha de Manoel Ribeiro de Freitas Machado e Leonor Gomes Machado. Seu pai, homem esclarecido e progressista, ocupou por diversas vezes o cargo de intendente municipal em Jaraguá, auxiliando no progresso daquela localidade.

 

         Grace Machado (pseudônimo literário) estudou em Jaraguá e Pirenópolis. Fez o curso Normal no Colégio Santana da Cidade de Goiás, terminando-o em 1920. Formada, exerceu o magistério em Pirenópolis por certo tempo. Seu pai, então, criou o Grupo Escolar de Jaraguá, ali lotando quatro professoras formadas, fato inédito para a época: Alice Santiago, Ester Campos, Dulce Gomes Pereira da Silva e Graciema Machado. Por sua competência e vasto conhecimento, foi diretora do referido grupo até 1930, ali realizando admirável trabalho pedagógico.

 

         Nessa época, já colaborava com jornais como O ltaberay, O Lar, O Paratodos, O Jornal, além de revistas cariocas e jornais de São Paulo. No ano de 1929 uma crônica sua sobre Luis Carlos Prestes ganhou primeira página de um jornal no Rio Grande do Sul e referência na imprensa nacional.

 

vSua voz também foi uma das primeiras a se levantar em favor do sufrágio feminino, acompanhando a Dra. Bertha Lutz, por intermédio da imprensa, em sua campanha nacional pela emancipação da mulher.

 

         Graciema Machado de Freitas e Maria Paula Fleury de Godoy foram as duas primeiras mulheres, nos anos de 1920, em Goiás, a escreverem sobre a necessidade do voto feminino. Mais tarde, ainda na mesma década, esse direito foi pleiteado por outras duas admiráveis pioneiras: Almerinda Magalhães Arantes e Formosa e Benedita Chaves Roriz Villa Real em Luziânia.

 

         Em 12 de dezembro de 1928, Graciema Machado de Freitas casou-se com Clotário de Freitas na Igreja da Conceição de Jaraguá. Ele, destacado homem público, farmacêutico formado pela Faculdade de Farmácia e Odontologia de Goyaz, nasceu em Jaraguá em 12 de setembro de 1904, filho do Maestro Baltazar de Freitas e Maria Catarina de Freitas. Dessa união nasceram dez filhos, multiplicados em 25 netos e 16 bisnetos.

 

         Grande escritora, lúcida e atualizada, Grace Machado mantinha correspondência com o Dr. Americano do Brasil, com opiniões literárias e políticas. Falava fluentemente o francês, tinha estilo nato e residiu em Jaraguá até 1954 quando seu esposo foi eleito Deputado Estadual. Nessa ocasião transferiu residência para Goiânia.

 

         Apreciadora de viagens, Grace Machado conheceu a Europa, América, Alemanha e Argentina. De espírito calmo, católica praticante era caridosa e amiga dos humildes.

 

         Depois, absorvida, sem dúvida, pelos encargos de família, sobressaindo­-se, dentre eles, a educação dos filhos, Grace afastou-se das lides literárias sem, entretanto, ser jamais esquecida por pesquisadores, embora inédita para a juventude goiana, por força de um cânone literário excludente e injusto.

 

         Seu nome perpetuou-se em nossa história literária, num testemunho de grandeza e de aplausos, principalmente quando ocupou uma das cadeiras da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, de 1969 a 1985, a convite das escritoras Rosarita Fleury, Nelly Alves de Almeida e Ana Braga Machado Gontijo. Hoje sua cadeira é ocupada pela escritora Augusta Faro Fleury de Mello.

 

         Depois de longa e pertinaz enfermidade, resignadamente aceita e acolhida no recinto do lar, faleceu em Goiânia em 12 de julho de 1985, a 25 anos passados, a escritora Graciema Machado de Freitas, aos 79 anos de idade. Não deixou livro publicado, sua extensa produção ficou em jornais e revistas da época - registros de sua luminosa passagem entre nós.