Publicações

ANO QUE FINDA

De repente, foi-se 2013. Passou como um vendaval levantando poeira, fazendo redemoinhos, colocando a nu fatos e idéias que pareciam dormitar na tranqüilidade da mesmice.

É quase um ritual fazer-se o balanço dos acontecimentos, quando chega o fim do ano. No plano pessoal, é algo como um exame de consciência. Lembrar pessoas, evocar decisões, avaliar palavras e ações dos últimos 365 dias pode ser um exercício de humildade e um propósito de virtude – vale dizer, de correção de rumos nos dias vindouros.

Do ponto de vista da coletividade, a prática é igualmente benéfica: ajuda cada um de nós a situar-se na sociedade; ao mesmo tempo, permite sopesar o quanto esta evoluiu para melhor ou para pior. Vejamos: quais teriam sido os momentos mais marcantes – e potencialmente mais fecundos – do ano que finda? Disparadas em primeiro lugar, vêm as chamadas manifestações de junho.

Quando se vivia a maciça divulgação das excelências do governo, com cerca de 70% dos brasileiros considerando boa e ótima a gestão da presidente Dilma – eis que multidões foram às ruas para protestar contra “tudo o que está aí”.

Sem liderança ostensiva, uma inesperada caudal de brasileiros tomou ruas e praças das cidades. Milhares, milhões de pessoas, por si mesmas, resolveram externar o descontentamento e a revolta que tinham atravessados na garganta e eram, até então, expressos nas redes sociais e em conversas informais. Cada um foi com os próprios pés, à sua maneira: não houve caminhões, nem ônibus fretados para transportar manifestantes; e ninguém distribuiu lanches, nem pagou cachês a portadores de faixas pré-fabricadas, que não as houve.

Predominavam  cartazes de cartolina, feitos à mão, versando sobre temas variados que iam da indignação contra a mentira e a roubalheira, à condenação da falta de ética na política e anseios por um Brasil melhor. Sem falar nos reclamos por aquilo que mais de perto nos afeta: educação, saúde e segurança de bom nível, compatíveis com os altos impostos pagos (sem retorno) pelos contribuintes. Além de protestos contra os bilhões gastos em estádios faraônicos para a Copa, com vistas a um padrão FIFA que inexiste no serviço público, em qualquer dos seus níveis.  

Houve cenas inesquecíveis – como aquela da multidão que cercou o Congresso Nacional em Brasília, os manifestantes galgando a cobertura da Câmara e do Senado. Bandeiras tremulavam enquanto hinos potencializavam a excitação da turba. A poucos metros de distância, no Palácio do Planalto, a presidente da República estava ilhada. Com a TV transmitindo em tempo real, parecia ter chegado a revolução das massas, com todo o potencial de violência que é latente na psicologia das multidões.

Eis que, numa sequência de thriller cinematográfico, a multidão dirige-se – ou é dirigida – para o Itamaraty. Mascarados, vindos de não se sabe onde, passam a depredar o mais belo dos palácios de Niemeyer. A partir de então, consagra-se um procedimento padrão: a cada protesto ordeiro, grupos violentos surgem para vandalizar e intimidar os participantes. Como nada se fez (nem faz) no sentido de contê-los e puni-los, parece claro que se trata de estratégia para esvaziar manifestações pacíficas que incomodam os governos. E, de fato, estas desapareceram.

Políticos e governantes ficaram desarvorados (e amedrontados) ante a voz rouca das ruas. Onde estavam os órgãos de segurança (ditos de inteligência) que nada previram, nem captaram a insatisfação popular? Como explicar os propalados altos índices de aprovação ao governo e o próprio discurso auto-elogioso da presidente, a poucos dias do estouro da boiada? De onde vieram os dados cor-de-rosa citados por ela, logo desmentidos pelas massas reivindicativas?  Ineficiência dos institutos de opinião, regiamente pagos com dinheiro dos impostos? Como acreditar em tão insidiosas instituições que, agora, voltam a apresentar números crescentes de aprovação da presidente e do seu governo?

Ao lembrar as passeatas de junho como o fato mais marcante do ano que finda, resta perguntar o que de fato elas trouxeram como contribuição positiva para a vida dos brasileiros. Segundo a presidente Dilma Rousseff, sua mais valiosa contribuição foi a implantação do programa “Mais Médicos”! Sem comentários.

Já o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, informa que, atendendo ao clamor das ruas, fez extinguir um terço dos cargos comissionados do senado, o que gerou a economia de milhões de reais. Menos mal. Entretanto, talvez como prêmio a si mesmo por tão excelsa iniciativa, Sua Excelência requisitou um avião da FAB para levá-lo ao Recife, a fim de submeter-se a um implante capilar, associado a uma cirurgia de correção de pálpebras. Denunciado pela imprensa (golpista e sensacionalista?) o insigne Pai da Pátria diz que devolverá aos cofres públicos o valor despendido com o vôo. Pergunta-se: e a credibilidade nos seus representantes no Congresso, como e quando será devolvida ao povo brasileiro?

Lembremos que no início do ano de 2013, o Secretário da Presidência da República, o impoluto ministro Gilberto Carvalho deu uma de pitonisa e profetizou: “O bicho vai pegar!” Pegou mesmo. E em 2014? Os ingredientes conhecidos prometem muita adrenalina: inflação em alta, estagnação econômica, Copa do Mundo, eleições... Quem viver,verá. 

(publicado no jornal "Diário de Manhã" de Goiânia em 31 de dezembro de 20130)