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ELES & ELAS

Por ocasião da posse da acadêmica Elisabeth Abreu Caldeira Brito na Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (AFLAG), julguei oportuno evocar a participação das mulheres em instituições dessa natureza. No discurso de recepção que me coube proferir, além de expressar as boas vindas à nova confreira, lembrei que a AFLAG, fundada em 1969, contrapôs-se à discriminação então em voga, segundo a qual mulheres não eram admitidas nas Academias de Letras.

Com efeito: estas se mantiveram como redutos masculinos até recentemente; com o devido respeito, seriam clubes do Bolinha... Aquele tabu inspirava-se no exemplo da Académie Française e da Academia Brasileira de Letras; somente viria a ser quebrado com a eleição de Marguérite Yourcenar para a primeira (em 1980), e de Raquel de Queiroz para a segunda (em 1977). Nesse particular, o subdesenvolvido Brasil antecipou-se à França, pátria das luzes...

Entre nós, a história das mulheres acadêmicas tem peculiaridades interessantes. A primeira Academia de Letras de Goiás nasceu na cidade de Goiás, em 1904, por iniciativa da escritora Eurídice Natal e Silva, que a presidiu e foi a única mulher entre os 12 membros que a compunham.                          

Tempos depois (em 1938), foi criada em Goiânia a Academia Goiana de Letras (AGL) que, seguindo o modelo vigente, admitia unicamente homens como sócios. Assim continuou até 1973 quando, quatro anos antes de a Academia Brasileira de Letras fazê-lo, elegeu a escritora e folclorista Regina Lacerda para a cadeira vaga pelo falecimento do escritor Zoroastro Artiaga – que, por ironia, opunha-se fortemente ao ingresso de mulheres na AGL. 

De há muito, uma questão vem sendo proposta: se mulheres são hoje admitidas nas academias antes exclusivamente masculinas, por que insistir em uma Academia Feminina de Letras e Artes? Não seria um contra-senso, quando se pretende seja de equidade o tratamento dispensado aos sexos? Por que uma academia feminina que, no limite, seria um clube de Luluzinhas?

A questão é instigante. De minha parte, entendo que as academias mais antigas, ainda que abertas à participação feminina continuam majoritariamente dominadas por sócios (homens), e deles mantêm certa sisudez e circunspecção,  virtudes tão caras aos cidadãos romanos. Nelas a tradição impera, dando a tônica do ambiente e dos relacionamentos.

Ainda que muito se tenha avançado em termos de paridade entre os sexos, fato é que tais conquistas não elidiram certo viés de timidez e de submissão da mulher, diante da imponência e da força dos grandes vultos masculinos, aqueles a quem precede a fama e o reconhecimento social e institucional. Com a agravante de que, em reuniões mistas, as vozes femininas tendem a ser abafadas pela força das cordas vocais tonitruantes dos homens...

Observe-se, ainda, que mulheres como que florescem em seus ambientes exclusivos. Se o espaço lhes pertence, esmeram-se em detalhes e requintes que aos olhos masculinos parecem supérfluos – mas que, para elas (para nós) traduzem bom gosto, indicam afinidades, favorecem cumplicidades.

Não há negar que, em sua gênese, as Academias têm por finalidade o cultivo e o cuidado com a língua pátria, em seus diversos usos e diferentes manifestações. De outra parte, todos concordam em que a produção literária de primeira linha é universal, atemporal e imune a estereótipos sexuais.  Entretanto, no dia a dia da convivência de poetisas, escritoras, artistas cênicas e plásticas, pesquisadoras e musicistas, certamente haverá maior liberdade e autenticidade quando elas se mantêm sozinhas. Ainda que todas se vinculem intelectualmente a seus autores favoritos, bem como, afetivamente, aos companheiros e familiares do sexo masculino.

A Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, em sua trajetória de quase meio século de existência, tem merecido o reconhecimento de instituições congêneres e de órgãos oficiais, inclusive pela outorga de prêmios às suas associadas. A começar pela romancista  Rosarita Fleury, sua idealizadora, que recebeu o Prêmio Júlia Lopes de Almeida da Academia Brasileira de Letras; e a poetisa Cora Coralina, agraciada com o (nacional) Jabuti e o primeiro Jaburu, instituído pelo Governo do Estado de Goiás. Nas demais artes – na pintura, na escultura, na música e no teatro - a AFLAG é igualmente pródiga em trabalhos de reconhecido valor, em nível de excelência.

Entendo que a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás ocupa lugar privilegiado na constelação das instituições culturais do estado e do país. Além de templo da cultura, aqui é o espaço da amizade e do companheirismo feminino.

Se lançarmos os olhos para o passado, veremos que – embora pouco referida na história oficial – coube (e cabe) à mulher a atribuição primordial de agente da cultura. É ela quem transmite o conhecimento básico da língua, quem ensina as primeiras orações, quem semeia crenças e valores nos corações e mentes. Com o leite materno, assimila-se a herança cultural que nos chega dos antepassados.

Em sendo assim, como mulheres que cultivam e produzem cultura, continuemos a contribuir para enriquecer as letras e as artes de Goiás, somando nossos esforços aos de todos quantos laboram nessa seara, tão vasta quanto promissora.

 

 

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 07 de janeiro de 2014)