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BRASILEIRINHOS

Na praia tranquila, crianças esbaldam-se na areia, acompanhadas de mamães e papais carinhosos. Surpreende-me o número de jovens pais que, pacientes, brincam com seus pequerruchos, fazendo piscininhas e castelinhos, passando protetor solar, trocando fraldas, dando mamadeiras. A pergunta é inevitável: o que foi feito do machão brasileiro que mal e mal tolerava o choro das crianças, enquanto a mãe se esfalfava sozinha?

Outros tempos, outros modos e modas. Converso com o entusiasmado papai de dois lindos menininhos e pergunto se está aproveitando os dias de folga para por em dia o convívio com os filhos. Ele concorda – trabalha em tempo integral; quando sai de casa, os garotos estão dormindo. Ao chegar de volta, à noite, é raro encontrá-los acordados. Nos finais de semana e nas férias, faz por onde se tornar mais próximo deles – e, de quebra, ensejar algum tempo livre à mãe, que a eles se dedica inteiramente.

Ela é especializada em informática; não lhe devem faltar oportunidades de emprego. Mas como deixar as crianças, ainda tão pequenas? Em outros tempos, mães da classe média contavam com a ajuda de babás; não era o ideal, mas, com sorte, era possível conciliar a carreira (o emprego?) com as obrigações do lar e da maternidade. Só que ninguém perguntava com quem ficariam os filhos da babá...

No quesito trabalhar fora de casa, mulheres de todas as classes sociais não têm como fugir a incertezas e sentimentos de culpa. A partir do questionamento básico: será a chamada “independência feminina” incompatível com a própria função biológica da maternidade e o que dela decorre? A começar pela fragilidade do ser humano, que se prolonga por mais tempo do que entre os demais seres vivos – e que exige muito além do simples contato físico entre mães e filhos. Amor, carinho, cumplicidade, diálogo, compartilhamento, vigilância, exigências, cobranças, presença ... a lista não tem fim!

O discurso feminista costuma reivindicar, como solução, a criação de creches e escolinhas infantis para abrigar os filhos de mães que trabalham fora de casa. Claro que são necessárias – mas será que realmente resolvem? Sei de mães que vão para o trabalho quando ainda é madrugada, às vezes debaixo de chuva, levando uma criança ao colo e outra pela mão, pegando o ônibus lotado e correndo contra o tempo para não chegar atrasada ao emprego. Na volta o mesmo trajeto, e todo o serviço da casa ainda a espera para ser feito...

Para nós, mulheres, é comum a dupla – quando não tripla - jornada de trabalho. A propósito, alguns homens comentam, como que reprovando: “Foram vocês que quiseram!” O que não deixa de ser verdade. Até porque o horizonte limitado e repetitivo dos serviços domésticos é não somente cansativo como esterilizante; e não parece justo que neles se consumam toda a inteligência e energia das mulheres.

Isso sem falar no aspecto econômico da questão: o fato de ser o provedor tende a exacerbar a autoridade (o mandonismo?) dos chefes de família. Mesmo nos dias de hoje, quando moças e senhoras alcançam níveis superiores de educação formal, poucos são os maridos que se acham “iguais” a elas e se dispõem a partilhar os trabalhos domésticos.  Daí a usarem a hegemonia financeira como meio de afirmação (dominação) é apenas um passo.

E como ficamos? Deveremos voltar a ser “do lar”, dedicadas em tempo integral à criação/educação dos filhos, ao esposo e aos afazeres do dia-a-dia? Seria o mesmo que fazer andar para traz a roda da história... Em poucas economias do mundo será possível às famílias dispensar a contribuição feminina, inclusive no Brasil, onde os salários são comparativamente muito baixos.  

Entretanto, a continuar a situação atual, cenários preocupantes se desenham. Veja-se a conseqüente e drástica redução dos índices de natalidade nos países ocidentais, chegando mesmo a taxas negativas. Nos dias de hoje, maternidade/paternidade são opções conscientes – e poucos as assumem deliberadamente. Quando o fazem, a regra vem sendo o filho único: será benéfico para os países verem diminuídas as respectivas populações – ou aceitarem como compensação demográfica o ingresso maciço de imigrantes?

Outro enfoque do tema diz respeito à necessidade primordial da presença da mãe junto ao filho pequeno. Na impossibilidade de fazê-lo, recorre-se às avós que, depois de cumpridos os anos de trabalho são sobrecarregadas com a criação dos netos. Senhoras com problemas de saúde, outras simplesmente carentes de descanso, pelo amor que dedicam à família recomeçam a árdua rotina de cuidar de crianças e educá-las – quando a própria natureza já as desonerou da possibilidade de serem mães.

Em alguns países desenvolvidos, a solução (parcial) encontrada é – além da licença maternidade - a redução por determinado tempo da jornada de trabalho das mães, sem prejuízo do salário contratual. A parte relativa às horas não trabalhadas é paga pelo sistema previdenciário, o que talvez seja mais econômico e mais eficaz do que a criação de uma infinidade de creches, onde – no limite – as crianças serão entregues a mãos mercenárias, mesmo quando qualificadas.

O assunto é polêmico e apaixonante - e não pode ser tratado de forma simplista, nem demagógica. Trata-se da vida e do bem estar de brasileirinhos e brasileirinhas – sem dúvida, o que há de mais importante e valioso para o nosso país.

 

 

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 14 de janeiro de 2014)