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MARANHÃO

Na última vez em que estive no Maranhão – há cerca de três anos – fiquei contristada com o abandono da capital, São Luis, em cujo centro urbano há cerca de 1.400 sobrados e casarões, muitos dos quais revestidos de belos azulejos portugueses. São edificações majestosas, em pedra e cal, de até quatro andares e um mirante com vista para o mar.

São Luis foi uma cidade rica, até a década de 1930. Uma elite letrada, de hábitos refinados, administrava a província/estado do Maranhão, que figurava entre os mais prósperos do País. Na capital, florescia uma intensa vida intelectual e literária - de tal sorte que à cidade foi atribuído o título de Atenas Brasileira, inclusive pela excelência dos seus colégios, a par da correção com que falavam os ludovicenses, cultores da língua portuguesa. 

Lembrando os autores que projetaram o Maranhão como território das letras, quem de nós não recitou Casimiro de Abreu em “Meus oito anos”? Quem não decorou a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias? Quem não leu “O Cortiço”, de Aluízio de Azevedo? Entre os da minha geração, quem não se deleitou com a prosa inspirada de Josué Montello em “Os tambores de São Luis” e “Noite sobre Alcântara”?

Como resultado do trabalho de um grupo de idealistas, parte do casario do centro histórico foi tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional) e declarada Patrimônio Mundial da Unesco. Recebida com euforia, a boa nova logo se fez decepção, sendo tais imóveis deixados de lado pelos proprietários, que não querem (ou não podem) bancar sua onerosa conservação.

Muitos desses casarões hoje são ruínas – ou quase. Neles, o mato cresce nos telhados, prenunciando o desabamento que é o objetivo dos que os abandonam. Logo serão vendidos às construtoras que erguerão prédios modernos e valorizados, assim fechando-se o círculo da especulação imobiliária.      

O abandono e arruinamento do centro histórico de São Luis adquirem feição simbólica na atualidade, quando o Maranhão é visto como protótipo do atraso, da miséria e da violência. De há muito, sua outrora colorida imagem de terra do bumba-meu-boi vem sendo substituído pela de lúgubre feudo da família Sarney e seus comparsas, onde os índices de desenvolvimento humano são os mais baixos - a começar pelas taxas de analfabetismo, que fazem corar de vergonha os filhos da terra, ainda apegados à imagem (ultrapassada) de São Luis como Atenas Brasileira.

Todo o Brasil tem acompanhado com horror a tragédia anunciada das rebeliões e do morticínio havidos no complexo prisional de Pedrinhas, nas proximidades de São Luis. Com direito a decapitação de presos, cujas cabeças passam a servir de bolas de futebol, num jogo macabro entre detentos enlouquecidos pelas drogas. As cenas gravadas no celular por um dos presos são dantescas; fazem lembrar filmes de terror de classe B. Em São Luis, porém, tudo é real, ainda que pareça provir da mais delirante e mórbida imaginação.

Em entrevista infeliz, a governadora Roseana Sarney deu explicações (?) sobre o porquê dos morticínios em Pedrinhas e da violência que se espalha pelo estado, na forma de depredação de ônibus urbanos, culminando na morte da inocente Ana Clara, de 6 anos de idade. Para Sua Excelência o X do problema reside no fato de que o Maranhão está mais rico (sic) e para ele têm afluído mais pessoas, presumivelmente responsáveis pelo clima de violência e insegurança vigentes. E conclui, assegurando – com a maior desfaçatez - que o poder público (leia-se: a governadora) já fez e continua fazendo sua parte, no sentido de assegurar a paz e a tranqüilidade públicas, em meio à abastança que se espraia pelo estado, onde (coincidentemente) sua família manda há meio século. 

Não resta dúvida que uma parcela da população local enriqueceu: para constatá-lo, basta percorrer os novos bairros residenciais de São Luis, como o do Calhau, onde a mansão do senador José Sarney sobressai, com pompa e circunstância – inclusive com o detalhe de abrigar preciosa galeria de arte sacra que, de acordo com a oposição, foi coletada em velhas igrejas maranhenses.

Nas franjas da cidade, contudo, a miséria está presente de forma escancarada. A propósito, vem-me à lembrança certa ocasião quando, estando em São Luis a trabalho, fui convidada a assistir a uma partida de futebol no estádio Castelão. Não é bem minha praia, mas lá fui eu, na comitiva de um ministro que, por sua vez, estava acompanhado do governador. Ficamos numa espécie de camarote das autoridades: climatizado, poltronas confortáveis, bandeiras decorando o ambiente, cada detalhe contribuindo para nos impingir a sensação de sermos pseudo-aristocratas de ocasião. Em frente e ao redor, a turba ignara. No calor escaldante, a maior parte dos homens estava sem camisa, bebendo e gritando a cada chute do time local.

De repente, trovões e relâmpagos anunciaram um aguaceiro que veio sem demora, na forma de bátegas de chuva que açoitavam as pessoas, como se fossem chicotadas vibradas pela ira de Deus. A energia elétrica pifou, o jogo foi suspenso e o povão dirigiu-se para os portões, que permaneciam fechados. Corpos seminus, cabelos desgrenhados, o que restava de roupa pregada ao corpo, a multidão corria desorientada pelo gramado, jogando água uns nos outros.

Abrigados da intempérie, os privilegiados do camarote (eu, inclusive) esperavam que amainasse a fúria da natureza enquanto garçons de luvas brancas continuavam a servir uísque importado e salgadinhos...

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 21 de janeiro de 2014)