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SOBRANDO DINHEIRO

Sempre gostei de ouvir histórias. Na minha infância, não havia rádio, televisão, computadores, tablets, celulares etc. Morando na fazenda, à noite, até chegar a hora de dormir – e dormia-se cedo - as crianças brincavam. Quando chovia, meu avô nos contava histórias, folheando um grande livro colorido de capa dura. Não me lembro do título, nem do autor, mas memorizei algumas histórias e as repassei aos meus filhos – do João Felpudo; das irmãs Rosa Branca e Rosa Vermelha; de Hansel e Gretel perdidos na floresta; da menina guardadora de cisnes; da pequena vendedora de fósforos... Anos depois, alguém me disse que essas historinhas são de origem germânica, e que o livro provavelmente foi trazido da Alemanha por meu avô quando voltou dos estudos, depois de oito anos interno em um colégio de Humanidades.

Com certa freqüência apareciam visitas quando, nos serões, predominavam as conversas entre os adultos e a criançada era instruída a ser educada e não fazer barulho. Pelo sim, pelo não, como neta favorita, eu me sentava no colo do coronel Domingos – e ficava a ouvir diálogos que nem sempre entendia, até que o sono chegava e me levavam para a rede.

Uma das visitas que me encantavam era a de um meio irmão de meu avô, Tio Durval, que era juiz de direito na cidadezinha próxima. Homem baixo, agitado, ele fumava e falava alto por traz do bigodão, sacudindo a cabeleira grisalha e franzindo as enormes sobrancelhas. Tinha sempre histórias para contar sobre o período em que trabalhou no território do Acre, quando iniciava a carreira de magistrado. Andando de um lado para outro, discorria sobre a mata amazônica, as viagens em embarcações precárias, os processos de extração da borracha – e por aí vai.

De ouvidos atentos, eu absorvia cada palavra, cada gesto do narrador. Até que chegava o ápice daquela saga: ao referir-se à euforia dos seringalistas enriquecidos com os lucros exorbitantes que usufruíam, à custa do suor, sangue e saúde dos caboclos mal remunerados, Tio Durval verberava a loucura e o esbanjamento daqueles homens ensandecidos pelo ouro. E erguia a voz ao contar, com laivos de indignação, que alguns deles, para exibir-se, acendiam os charutos com notas de 10$000!  

Dez mil réis era uma fábula de dinheiro! No nosso dia-a-dia, pouco se viam moedas e notas; a fazenda era quase auto-suficiente, pois ali se produziam os alimentos e parte do vestuário que eram necessários à vida frugal dos proprietários e empregados. Vez por outra, porém, uma tia-avó, a quem chamávamos Dindinha, sentava-se à cabeceira da mesa e, de uma caixa, retirava pequenas moedas que ia empilhando, fazendo anotações em um caderno.

Menina curiosa, eu perguntava o que ela estava fazendo; Dindinha me explicava que cada pilha era de um valor diferente, e às vezes me dava uma moedinha. E não deixava de acrescentar: “Não desperdice sua moeda, por menor que ela seja”. A idéia que me ficou é que dinheiro representa mais do que a quantia impressa em sua face, porque seu real valor está atrelado a valores outros, como honestidade na forma de ganhá-lo e moderação ao gastá-lo.

Tais fatos perdidos na bruma do tempo vêm-me à lembrança, quando vejo na mídia a generosidade com que as contas dos mensaleiros estão sendo abastecidas por centenas (seriam milhares?) de doadores, dispostos a pagar as multas impostas a tais criminosos, condenados na mais alta Corte de Justiça do país.

Confesso-me perplexa: o que significa tanta generosidade? Estará sobrando dinheiro entre os afiliados do glorioso Partido de Trabalhadores – ou seja, daquela parcela da sociedade que vive de salário? Entre os trabalhadores, em geral, será real a convicção de que tais condenados foram injustiçados, depois dos oito anos em que tiveram amplo direito à defesa? Além de ter havido a nomeação, nesse período, de novos ministros para o STF, indicados pelo próprio governo do PT?    

No Brasil, não temos a tradição norte-americana de doações individuais/pessoais a causas e entidades, como universidades, hospitais, creches ou escolas. Os cientistas sociais que estudam a cultura brasileira acentuam o pouco espírito público dos nossos milionários (bilionários?), mais voltados para a auto-glorificação do que para servir à comunidade ou a grupos. E eis que os mensaleiros são beneficiados com tão espantosa generosidade!  Até hoje – 26 de janeiro - cerca de um milhão de reais foram depositados nas contas dos beneméritos companheiros, Genoíno e Delúbio! E parece que outros se habilitarão a idêntico privilégio: por que não Marcos Valério? Ou José Dirceu?

Lembre-se que a multa é punição e, como tal, deve afetar o patrimônio dos condenados, sentenciados exatamente por corrupção, formação de quadrilha, peculato e malversação de dinheiro público. Se companheiros pagam a multa e o fazem publicamente, essas doações estarão configurando uma burla – ou um desafio – às leis e ao Supremo Tribunal Federal?

Como se diz na roça: nesse angu tem caroço!

E se for feito um “pente fino” para identificar tão desprendidos doadores? Noticia a imprensa de Brasília que o governo local– como previsto em lei – irá taxá-los em 30%, além de um imposto que será cobrado dos beneficiários. É um bom começo.

 

 

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 28 de janeiro de 2014)