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NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER (II)

Relendo o texto da semana passada, volto à pergunta que leitores e amigos sempre me fazem, na passagem do Dia Internacional da Mulher: qual a minha opinião e participação nas lutas pela emancipação feminina?

 

Na verdade, nunca fui feminista de passeata e sempre vi com reserva manifestações extremadas sobre esse assunto; por exemplo, mulheres que queimavam sutiãs em praça pública como protesto contra o autoritarismo dos homens.

 

Seguindo a linha do respeito próprio, entendo que é a educação que nos mantém independentes, a nós mulheres. Ainda estudante, comecei a trabalhar fora de casa aos dezoito anos e não parei mais. Nunca fui desrespeitada ou vitimizada no ambiente de trabalho ou fora dele. E aqui estou, em idade avançada, martelando no teclado, expondo idéias, exercendo o ofício que foi o meu durante décadas. Algo como educar pela palavra e pelo exemplo, muito embora não me reconheça como dona da verdade – longe disso!

 

Parece-me claro que a violência de que se queixam as mulheres – em muitos casos, com razão - deve-se mais à ignorância do que às diferenças entre os sexos. Ignorância no sentido de falta de respeito que todos devemos à pessoa humana de qualquer gênero, idade ou cor.

 

Não é somente uma questão de escolaridade. Há pessoas analfabetas que formam casais e famílias harmoniosas; de alguma fonte, haurem luzes e cultivam valores como a tolerância e o amor recíproco, base da convivência feliz.

 

Preocupa-me a pregação feminista que escamoteia deveres e se insiste na exclusiva exigência de direitos: direito ao salário igual ao dos homens; direito à escolha do companheiro/a; direito sobre o próprio corpo; direito de vida ou morte sobre o feto que nele se abriga. Como em tudo na vida, há nuances para as reivindicações feministas.

 

Nessa vida que já vai longa, tenho visto coisas de espantar. Na minha geração, quando nós, mulheres de classe média, passamos a trabalhar por necessidade de dinheiro ou por desejo de realização profissional (ou ambas as coisas), procurávamos atividades que nos garantissem tempo para nossas casas e famílias. Parece que isso caiu de moda.

 

Recentemente, ouvi a conversa entre duas moças que comentavam sobre outras colegas. Uma delas observou: “Fulana? Ela é folgada... Tem um só emprego, vive na maior mordomia.” Aquilo me intrigou e perguntei: “Um só emprego é mordomia?” Respondeu minha interlocutora: “Claro! Nós todas temos dois, três empregos.”

 

Conheço-as bem: são jovens profissionais que se vestem em butiques caras, usam sapatos Louboutin e bolsas Victor Hugo, exalam perfumes Bulgari, Lanvin, Dolce & Gabana. Seus closets estão atulhados de roupas e os compartimentos das gavetas enchem-se de jóias, semi-jóias e bijuterias. Dizem-se emancipadas – um “direito” que lhes cabe. E os “direitos” dos filhos e dos maridos não entram em conta?

 

Como a vida tem exigências inexoráveis, elas precisam de alguém que cuide de suas casas, que cozinhe, lave, passe, arrume, pregue botão nas camisas, faxine em seu lugar. É a vez da empregada ou diarista que se esfalfa para ter o essencial, sustentar os filhos, pagar o aluguel, a comida, o remédio, a roupa. Será ela também emancipada?

 

Na verdade, a chamada “emancipação feminina” é uma questão atinente às classes mais favorecidas; a mulher proletária e pobre sempre trabalhou “fora” ou “para fora”, acumulando dupla e tripla jornada. Como em tudo na vida, é preciso bom senso para sopesar e avaliar o que há de realmente favorável à dita “emancipação” feminina nesse acúmulo de exigências e cobranças que as mulheres se impõem.

 

Outro aspecto da questão feminista que me intriga é a sexualização exagerada da figura feminina, conseqüente à abolição de atitudes antiquadas como recato, pudor, modéstia etc. Há algum tempo, fui a um batizado. A criança era carregada pela madrinha – uma jovem robusta, vendendo saúde no vestido curto, os seios saltando do decote talvez copiado da heroína da novela. Suarento, aflito, o celebrante errou na página do livro, atrapalhou-se, derramou água fora da pia batismal. Durante a mesa de doces que se seguiu, comentários fervilhavam entre as convidadas que reclamavam do padre não tirar os olhos do decote da madrinha: “Um desrespeito!”- diziam. Só faltou alguém acusá-lo de estuprar mentalmente a recatada donzela.

 

Gostaria de dizer algo mais sobre a execrável e sempre condenável violência física contra as mulheres, mas fica para outra vez. Por hoje, deixo registrada minha decepção com a atual participação feminina na política. Um tanto ingenuamente, esperava das mulheres mais idealismo e compostura. Cultivava a ilusão de que o “jeito feminino” de governar seria de correção e honestidade. A realidade desmente essa suposição: o fato de termos uma presidente da República não diminuiu os escândalos, nem o nepotismo, nem a malversação do dinheiro público. As denúncias e as evidências estão aí, para quem tiver olhos de ver.

 

Mas o povo se vinga, à sua maneira. Corre na Internet a mensagem intitulada: “Burca nem sempre é um mal” – afirmação de fácil entendimento, uma vez que essa vestimenta feminina esconde rostos e corpos, igualando belas e feias. Segue-se o convite: “Vamos eleger a Miss Burca Brasil? Em qual candidata você vota?” Há fotos da presidente Dilma (de cara amarrada), Erenice Guerra, Ideli Salvatti, Maria das Graças Foster e mais duas beldades que não identifiquei. Meu palpite é que o troféu irá para a atual presidente da Petrobrás – a “Graciosa” - isso porque não está no páreo a argentina Cristina Kirchner.

 

 (publicado no jornal “Diário da Manhã” de Goiânia em 13 de março de 2012)