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DESALENTO

De repente, vem um cansaço que se expressa em desalento. Aposentada depois de 42 anos de serviço público (sendo 34 de magistério), eu pensava que poderia descalçar as chuteiras e comprazer-me com o resultado dos esforços de toda a minha geração, traduzidos nas mudanças que arduamente buscamos realizar.

Ou seja: o nível de educação estaria melhor e as pessoas mais conscientes de sua cidadania; a sociedade se mostraria mais justa e mais humana e, nela, seria mais civilizada a convivência. Como pano de fundo, imaginava uma substancial melhora das condições de vida: na moradia, na saúde, na educação e na segurança da população, o que seria conseqüente da atuação de lideranças não somente competentes, mas também voltadas para o bem comum.

Um balanço – mesmo superficial – deixa claro que persegui a utopia enquanto a realidade se afundava em desacertos mil. Só para exemplificar: somos a sétima economia do mundo; entretanto, amargamos o oitavo lugar no número de analfabetos adultos, entre os países avaliados pela Unesco!

No capítulo das lideranças políticas, o panorama é revoltante. Comecei a ler “Assassinato de reputações – um crime de Estado”, de Romeu Tuma Júnior. Confesso que me sinto tomada de vergonha e asco. Capítulo após capítulo, desdobra-se ante o leitor uma sucessão de crimes e de conchavos entre personagens sem caráter, exatamente os maiorais da República! E são tais indivíduos que conduzem o nosso País por caminhos escusos, complôs sinistros, crimes inexplicados e acertos mafiosos, envolvendo golpes bilionários e absoluta falta de escrúpulos em aplicá-los.

Lançado o livro há várias semanas, ainda não se ouviu dos denunciados uma palavra de protesto ou de contestação, ou sequer uma ameaça de ação judicial contra o autor. É como se o livro não existisse. Parece haver uma deliberada estratégia de silêncio, para que tudo caia no vazio do esquecimento. Até as instituições – como o Ministério Público e a Advocacia Geral da União - permanecem omissas ante o lodaçal que ali se desvenda. Até a oposição nada diz, nada acrescenta, nada cobra.

Enquanto isso, dois fatos dão a dimensão do desgoverno a que estamos submetidos. Voltando da cúpula capitalista de Davos, na Suíça, a ex-guerrilheira, Dilma Roussefff - nossa onisciente presidente - fez uma parada e pernoitou em Lisboa, com direito a hotéis de luxo para si e para seus numerosos acompanhantes, envolvendo equipe precursora e de segurança, aluguel de veículos blindados, traslados de pessoas e bagagens etc.

Que Sua Excelência tem direito a lazer e descontração, ninguém discute; que deguste pratos carésimos em restaurante estrelado, nada a contestar. O que se critica é o fato de D. Dilma ser acompanhada por uma portentosa comitiva de 45 pessoas! E seus assessores mentirem que a ”escala técnica” em Lisboa foi resolvida à última hora, quando hotéis e restaurante estavam previamente reservados. Faltar à verdade cria o precedente da dúvida – e é quando as coisas se complicam.

A festiva caravana seguiu para Cuba, onde a presidente Rousseff inaugurou a maior obra do seu governo – o porto de Mariel. Mesmo não figurando nos PACs I e II, o complexo portuário foi construído em tempo recorde pela brasileira Odebrecht, coincidentemente uma das maiores financiadoras do PT. Segundo afirmam os áulicos da corte dilmista, Mariel é um dos mais modernos portos do mundo e poderá atender a um milhão de contêineres. Equipamentos e novas obras irão completá-lo, com mais financiamento do velho e bom BNDES – ou seja, recursos provenientes dos impostos que pagamos. Somando tudo, algo em torno de um e meio bilhões de reais foram levados do nosso País para a ilha caribenha, com a desculpa de tratar-se de investimento estratégico.

Há pouco tempo, estive no Paraná e fui visitar a cidade histórica de Morretes. Um encanto: casario preservado, bons restaurantes, jardins floridos, pontos de artesanato, tudo ótimo. Finalizando, fomos conhecer a estação ferroviária, aonde chegam trens que, vindos de Curitiba, percorrem um dos trechos mais famosos da engenharia brasileira, na descida da serra.

A linda estação foi construída no tempo do Império, com direito a inauguração pelo Imperador Pedro II. Em estilo inglês, sua estrutura é de ferro e tijolos aparentes, com detalhes fantásticos. Mas está a fazer pena: vidros quebrados, cobertura danificada, um abandono só. Em frente à plataforma, vemos uma composição ferroviária; são dezenas de vagões de carga enferrujados, com a linha férrea tomada pelo mato, que cresce entre os dormentes.

Seguimos para Antonina, antigo porto próximo de Morretes, que recebe obras de revitalização. Além da estação, igualmente sucateada, vêem-se prédios e mais prédios antigos semi-arruinados - armazéns, casas de máquinas, depósitos - literalmente largados para que desabem. Outros estão sendo feitos, a fim de que Antonina venha a ser um porto complementar ao de Paranaguá – mas o conjunto da obra me pareceu um desleixo só.

Quem não viu na TV a imensa fila de caminhões de soja, aguardando para descarregar em Paranaguá, rumo ao exterior? Fila que cresce a cada ano, com prejuízos crescentes para os produtores e para o País. Enquanto isso, em Cuba, a presidente Dilma proclama que o porto de Mariel atende aos interesses brasileiros!  Como não chorar de desalento?

 

 

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 04 de fevereiro de 2014)