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COBRAS & LAGARTOS

Na noite quente, a vontade é deixar abertas portas e janelas, armar a rede na varanda e aproveitar a brisa que traz o perfume do jasmineiro em flor. O céu está estrelado, sem nuvens e sem lua, enquanto o clarão das cidades por perto espalha uma névoa luminosa sobre as árvores. A despeito da seca extemporânea, em algum lugar sapos coaxam: estarão chamando a chuva que se foi?

Ligo a fonte do pátio e o barulhinho da água reconforta. Acima do telhado agitam-se as folhas das palmeiras, em cujos troncos abrem-se orquídeas. Nos canteiros, os antúrios parecem viçosos como nunca; entretanto, hortênsias e lírios da paz não prosperam, talvez careçam de rega.

À medida que as horas avançam, o medo vai chegando. São tantas as histórias de assaltos a chácaras e fazendas, de atrocidades e mortes! O tópico segurança – melhor dizendo: insegurança – tornou-se presente na vida cotidiana. Por mais que se invista em tecnologia e em recursos humanos especializados, o fato é que todos convivemos com o medo,  pelo que buscamos um casulo protetor. E haja ferrolhos, trancas, alarmes, guardas,telefones programados, interfones – enquanto lá fora a noite parece tão serena e tão bela.

Como de rotina, acionamos os alarmes automáticos e fechamos portas e janelas. Ao final, estou enclausurada em minha própria casa. Consola-me pensar que, com a alvorada, os pássaros estarão de volta e tudo será vida nos amplos espaços em redor, cheios de luz.

Depois do noticiário, assistimos a um ótimo filme. Já é tarde e o sono não vem. Floriano continua na televisão, mas a minha cota esgotou-se: não consigo ficar em frente da telinha mais do que duas horas seguidas. Pego um livro e vou para a biblioteca.

Eis que vejo uma cobra deslizando à minha frente: é pequena, com riscas em coral, preto e branco. Um calafrio percorre-me dos pés à cabeça: grito de pavor e logo meu marido acode, ele também assustado. Afinal, somos velhinhos urbanóides convertidos às delícias da vida rural, mas decididamente despreparados para enfrentar cobras ao vivo. A primeira reação é pedir socorro: ligamos para a empregada que mora numa casa próxima, mas ninguém atende; ela deve estar dormindo o sono dos justos.

A cobrinha entra na biblioteca e encosta-se no rodapé; terá uns trinta centímetros, se tanto; não será preciso muita força para esmagá-la. Saio correndo para pegar um pau, qualquer porrete que dê conta do recado: onde encontrá-lo? Acho um rodo e um escovão, além de um pano de chão – as armas de que dispomos para enfrentar tão venenosa serpente, que – leio depois na Internet - é da família Elapidae, a mesma da mortífera naja. E, pior ainda: lembro-me de que está vencido nosso estoque de soro antiofídico.

A essa altura dos acontecimentos, a invasora sumiu. Talvez tenha passado por baixo da porta mais próxima. Abrimos a dita cuja, acendemos todas as luzes, olhamos no lavabo, arrastamos cadeiras e mesas - e nada! Amedrontados, não temos coragem de ir dormir com uma cobra dentro de casa.

De repente, desenroscando-se perto de um batente, eis que a famigerada visitante reaparece, avançando para a porta que leva à varanda. Floriano investe, rodo em punho; o cachorrinho Quinquim assusta-se e começa a latir, fazendo o fundo sonoro daquele embate à Brancaleone.

Uma, duas, três, cinco pauladas vigorosas atingem o réptil, que estremece, contorce-se e, afinal, queda imóvel. Tudo indica que morreu. Verificar de perto o óbito – nem pensar! Com a ponta do pau, empurramos a indesejada para a varanda; e lá a deixamos com o corpo enrodilhado. Amanhã pediremos a alguém para jogá-la fora, o mais longe possível.

O medo cansa e nós estamos exaustos. Para dormir, recorremos a um abençoado comprimido receitado pelo médico, para momentos de tensão ou de insônia. Ainda bem!

No dia seguinte, quando tem início a rotina do dia-a-dia– cadê a cobra? Ou melhor: o cadáver da cobra? Sumiu de onde o deixamos! Continuaria viva a cobrinha coral, apesar de aparentemente morta? Ou o que restou dela terá sido levado por lagartos e calangos, que sempre estão por perto?

Depois de uma busca, concluímos que, definitivamente, a cobra desapareceu. Fazer o que? Já tivemos a visita diurna de uma cascavel na porta da cozinha, e de uma jararacuçu na copa, à hora do jantar. De vez em quando, aranhas caranguejeiras surgem do nada, assim como lacraus, morcegos, corujas, abelhas, marimbondos e que tais.

Há muitos anos, quando aluna do antigo curso ginasial, era obrigatório o estudo de Latim. Com a idade de 14 anos, líamos e decorávamos trechos de Cícero, Júlio César e Virgílio. Deste, lembro As Bucólicas, que me influenciaram no sentido de amar a natureza e a vida campestre, como fontes inesgotáveis de beleza e felicidade.

Nada me afastará de tais convicções. Entretanto, a cobrinha coral, rastejando no piso de minha casa, altas horas, fez-me mais realista e mais alerta. Animais peçonhentos certamente fazem parte do mundo rural- mas é preciso que, além de psicologicamente preparados para enfrentá-los, mantenhamos um estoque de soros atualizados e porretes.

 

 

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 11 de fevereiro de 2014)