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SOBRE A BELEZA

Antigo provérbio diz que “beleza não põe mesa”. Ou seja, o simples fato de ser bonito não garante uma existência confortável, com mesa farta e mordomias outras. Entretanto, se algo facilita a vida das pessoas, a beleza vem em primeiro lugar. É próprio do ser humano deixar-se cativar por ela - como se a humana natureza almejasse a perfeição.

A pergunta é inevitável: o que vem a ser a beleza? Muito embora seja um conceito subjetivo, há quase unanimidade em aceitar que seus fundamentos estão na harmonia e no equilíbrio.     

Em um livro magnífico - História da Beleza (Recorde, 2004) - Umberto Eco enfoca-a através dos séculos, a partir das obras de arte. Entende ele que a arte é o principal meio de documentação da beleza, pois foram os artistas, os poetas e os romancistas “que nos contaram, através dos tempos, o que eles consideravam belo e nos deixaram seus exemplos”.

No que diz respeito à beleza feminina – inspiração perene de obras de arte – o autor esquadrinha as representações de Vênus, desde 30 milênios atrás, até a pose provocante de uma atriz italiana, fotografada nua para o calendário da Pirelli, em 1997. Fica evidente que, mesmo no universo restrito da cultura ocidental, os ideais de beleza feminina mostram-se mutáveis e às vezes conflitantes. Afinal, o que as aproxima - como protótipos de beleza - as roliças Majas de Goya e a quase anoréxica Kate Middleton?  

Interessante observar que, desde os cânones clássicos de Grécia e Roma, passando pelo Renascimento e até as primeiras décadas do século XX, predominaram padrões que se diria “naturais” para o corpo feminino. Vista a missão primordial da mulher como sendo a maternidade, bela seria aquela que se mostrasse mais apta a ser fecundada: quadris amplos, seios fartos, colo cheio, braços roliços. 

Eis que, logo após o fim da primeira Grande Guerra (1914-1918), surge como padrão diverso de beleza feminina a mulher algo assexuada, de silhueta esguia e cabelos cortados “à la garçonne”, vale dizer, à moda dos garotos. Defendendo a liberação feminina e reivindicando a atuação da mulher nos espaços públicos, até então reservados aos homens, as idéias feministas pregavam o advento de um novo mundo de paridade entre os sexos, para o qual se haveria de cunhar uma nova mulher: mais ágil, mais antenada com o que se passava ao seu redor, mais independente do ponto de vista econômico, social e cultural.

No entre-guerras, esse modelo feminino difundido a partir de Paris, Meca da civilização e centro da alta costura, suscitou reações às vezes apaixonadas e violentas. Tanto entre homens, como entre mulheres, houve quem visse em tais inovações sinais de pecado e de ridículo.

Não obstante, lentamente, obstinadamente, as saias longas foram desaparecendo, juntamente com os corpetes e espartilhos; e as cabeleiras fartas passaram pela tesoura. No lugar, veio para ficar o cabelo cortado à altura da nuca, o vestido reto e curto, as pernas de fora, mesmo que (ainda) cobertas com meias.

A despeito de piadas e insultos que circularam impunes, ficaram para trás as idéias de inferioridade física e intelectual da mulher: ela ingressou em faculdades e universidades, tornou-se profissional no trabalho fora de casa, conseguiu ser eleitora e também se fez eleger para cargos executivos e parlamentos.

Nem por isso deixou de ser bela – já agora ajudada por recursos da medicina e da cosmética. Basta comparar: hoje, mulheres de 60 anos parecem mais jovens do que suas mães e avós, fotografadas aos 40 anos como anciãs encanecidas.

Nessa altura do século XXI, ninguém mais pensa em dedicação integral da mulher aos filhos, ao marido, ao lar. Em contrapartida, houve uma sobrecarga de trabalhos e responsabilidades sobre os ombros femininos, onerados com dupla, às vezes tripla jornada de trabalho.  

Nesse novo mundo onde se diluem as fronteiras dos sexos, mesmo sobrecarregada, a mulher brasileira continua empenhada em buscar seu próprio ideal de beleza e feminilidade. Com alguns exageros... Em primeiro lugar, é preciso ser magra, na verdade magérrima: com a desculpa de atingir um peso saudável, chegar ao manequim 36 é a meta de todas. Segue-se a exigência de manter longos os cabelos e usá-los como parte da imagem que se deseja vivenciar.

Na escolha das roupas, tem-se por objetivo valorizar o corpo e evidenciar a própria sensualidade; a maquiagem, o penteado e as jóias ou bijuterias são igualmente usados para esse fim. Como resultado, em uma festa de jovens, todas estarão parecidas umas com as outras: na indumentária, nos sapatos, nos adereços, no corte de cabelo... até no esmalte das unhas e na forma de cortá-las.

Curioso é observar que súditas tão submissas a modas e  modismos são as mais ardorosas reivindicadoras de autonomia e privacidade no âmbito doméstico e nas relações familiares, porque se sentem com direito a ser livres e que ninguém se  intrometa em suas vidas...

Estarão elas aptas para a maternidade? Afinal, estudo, carreira, sexo sem compromisso e beleza em si mesma não preenchem totalmente a vida de um ser humano, mulher ou homem. A realização emocional e a contribuição para a propagação da espécie são vozes poderosas que exigem do indivíduo sua parcela de participação e de doação. Até como meio para alcançar outra forma de beleza: a da realização emocional, que leva ao equilíbrio e à felicidade.

 

 

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 18 de fevereiro de 2014)