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Para onde foi Saramago?

Não são muitos os grandes escritores em língua portuguesa e os poucos que conhecemos já foram para o panteão da cultura luso-brasileira. Há dois anos perdemos um dos mais significativos, aquele que foi lido em quase todo o mundo e teve seu reconhecimento referendado pelo prêmio Nobel: o romancista português José Saramago (1922-2010). Embora não morasse há muito em Portugal, mas na Espanha, e se considerasse um cidadão do mundo, Saramago será lembrado, além de seu brilhante trabalho como romancista, por  exprimir o caráter português. Todos sabem que os portugueses são mal humorados, ríspidos com todo o mundo e, paradoxalmente, amáveis nas coisas corriqueiras, dedicados à faina cotidiana e às relações telúricas. 

 
Nisso, Saramago foi invejável. Dominou a escrita e a arte de contar histórias como um hortelão domina o ofício de cuidar das plantas,  principalmente as mais simples. Era mais que um poeta, um mágico que, como Fernando Pessoa, dava vida às palavras. Vejamos um de seus poemas:

 

POEMA À BOCA FECHADA

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

 

Mas como um velho português a ver navios, Saramago foi cético demais e  chegou a ser lúgubre. Sua obra que virou filme, o “Ensaio sobre a  cegueira”, não é apenas uma crítica à condição humana e uma denúncia de  tempos sombrios e perdidos na própria irracionalidade do homem, mas  também uma leitura pessimista da razão humana e uma descrença para com a organização social. Quis ser Franz Kafka, mas não atingiu o Sistema em  favor do homem, atingiu o homem em favor do nada. Quis ser Gabriel García Márquez, mas seu realismo fantástico atrapalhou a precisão de sua crítica. Digamos dessa  maneira: Saramago fez uma literatura única, brilhante e universal, mas  fez filosofia barata.


Tomemos o exemplo do livro "A caverna". Ao realizarmos a leitura,  somos transportados para o mundo de Cipriano Algor, o oleiro que  mantém uma vida pacata, fruto de uma realidade onírica vivida pelos  camponeses do Algarve, de Leiria e até mesmo do interior de Minas ou  de qualquer rincão do interior brasileiro. A escrita é de uma riqueza  quase parnasiana, adoçada com uma brilhante arte de contar histórias.  Porém, o final nos surpreende com uma versão tosca da  alegoria da  caverna, de Platão. Vira um folhetim contra o capitalismo e uma  denúncia esdrúxula do progresso. Ou seja, uma grande obra prejudicada por uma literatura engajada, vinculada à ideologia da luta de classes.


No “Ensaio sobre a cegueira”, a coisa é bem pior. Vejamos o trecho: “Por  que foi que cegamos? Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a  razão. Queres que te diga o que penso? Diz. Penso que não cegámos,  penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem?”. Na verdade, não sei o que ele quis dizer com isso. No conjunto da obra  o autor disseca o homem em toda sua animalidade e sugere que as  convenções morais se fragmentam diante de uma realidade caótica. Mas isso todo mundo sabe. Um autor cristão terminaria a obra sugerindo que  a luz de Cristo devolveria a todos a visão; um autor cartesiano  falaria da luz da razão; Nietszche provavelmente colocaria na boca de  Zaratustra o caminho de uma nova humanidade; mas o niilismo de  Saramago só se salva pela riqueza de sua literatura, nada mais.


Para complicar mais ainda, depois do prêmio Nobel, Saramago se achou  no direito de falar sobre tudo, inclusive política e religião. Não que  não tenhamos direito, enquanto intelectuais, de expressar nossas  opiniões, mas uma figura da grandeza de Saramago poderia ter contribuído melhor para com os problemas sociais que a tentativa de  interpretar o conflito palestino. Disse ele, no artigo Gaza: “Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único  soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da  sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os  seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado”.


A questão é que a língua portuguesa precisava de um Nobel e Machado de  Assis, Érico Veríssimo e Jorge Amado estavam mortos. Como a literatura brasileira atual só consegue produzir universalmente um Paulo Coelho, lá foi Saramago ganhar o prêmio e representar a literatura lusófona. Embora a premiação não seja por uma obra, mas o conjunto dos escritos, a obra O evangelho segundo Jesus Cristo foi um dos principais responsáveis por sua projeção internacional. a Real Academia Sueca justificou a premiação da seguinte forma: "A arte romanesca multifacetada e obstinadamente criada por Saramago, confere-lhe um alto estatuto. Em toda a sua independência, Saramago invoca a tradição que, de algum modo, no contexto atual, pode ser classificada de radical. A sua obra literária apresenta-se como uma série de projetos onde um, mais ou menos, desaprova o outro, mas onde todos representam novas tentativas de se aproximarem da realidade fugidia". O que julgaram? o  ceticismo, o ateísmo ou a esperança nas cinzas do comunismo? Ou, por outro lado, sentiram necessidade de explorar a “realidade fugidia” a qual se esvai e se esfacela a cada dia na Europa em razão do progresso e do desenvolvimento da tecnologia?


Independente do prêmio, do fato  de não morar em Portugal e ainda de suas aparições nas edições do Forum  Social Mundial como profeta de uma escatologia quixotesca, é bom  saborear a literatura de Saramago. Afinal, ele escreveu como poucos e embora tenha se perdido nas reflexões filosóficas, sua literatura permanece como um grito angustiante de um mundo enfermo e fugidio. Como esse mundo, o grande escritor português enfermou-se, morreu e foi para o panteão de nossa cultura. Isso basta para apreciar sua obra.