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ALTOS E BAIXOS

Não adianta contar porque são muitos. Muitos são os que passam sob os nossos pés e muitos os que passam por cima de nossas cabeças. Cada qual com sua imponência própria, sua história, sua grandiosidade expressa numa placa de inauguração que resiste ao vento, à chuva e ao sol. Todos passam com igual velocidade... e...  aliás, não são eles que passam mas nós que realmente passamos e vamos sem rumo e sem rota por entre suas sombras! Eles permanecem nos seus lugares de forma muito inflexível, numa lealdade imperturbável e numa posição que sempre impõe respeito. Não sei por que, mas fico perturbado diante de suas silhuetas e o que eles impõem em mim é, na verdade, um medo danado. Bom, só sei que vamos passamos e eles vão ficando, distanciando-se numa pura ilusão de ótica que nos faz pensar que diminuem seu tamanho e assim vão até sumir no horizonte. Somos nós que sumimos num horizonte perdido e nem deixamos lembranças de nossas passagens.

 

            Dos tantos que atravessei (disse que não adiantava contar, mas creio que foram vinte e dois ao total), nenhum deles chamou a atenção dos transeuntes, não chamou atenção dos pássaros, das plantas, de uma pipa solitária que vagava por cima em busca de claridade e nem tampouco dos cachorros vagabundos. Todos evitam sua pesada e rancorosa forma esquelética. Sua presença definitivamente não desperta o menor interesse. Passamos todos e nenhum membro dessa tribo imensa lotada neste ônibus dá a menor atenção ou a mínima olhada. Só eu mirei lá embaixo sua estrutura rígida e o desperdício do concreto. Talvez meus olhos estivessem buscando algo mais significativo, algo mais nobre e mais humano que essa massa disforme e lânguida ao qual estou preso nessa jornada insólita do trabalho à casa, do trabalho à vida... Estou mesmo preso a eles numa infindável cumplicidade. O que posso fazer? Meus olhos talvez estivessem fugindo de tantos olhares que me fitam e me interrogam no silêncio da viagem. Não sei de que fogem meus olhos, mas sei que procuram desesperadamente alguma coisa que possa enchê-los.

 

            Na falta da poesia lá embaixo e aqui encima, lembro o poeta que fitava as casas, as janelas de um povoado e também as pernas que passavam. Para que tantas pernas? Êta cidade besta! Para que tantos olhares? Êta vida besta! Para que tantas rugas, tantas caras sérias, tantos dissabores, tantos odores? Tudo isso sou eu que interrogo,  não eles que continuam onde foram colocados e sustentam a rigidez do ferro nas curvaturas desenhadas pelos que os criaram. Não é incrível? Foram criados pela incomensurável capacidade intelectual do homem. Criados para o benefício da humanidade e concebidos para o conforto da espécie.

 

-         Conforto? Você chama esse aperto terrível de conforto?

 

Não! Não! Só pensei em voz alta. Estava pensando no conforto que o homem pode tem lá em cima.

 

-         Tu é pastor ou o quê?

 

Não falo do conforto metafísico que a alma possa receber numa dimensão celeste, falo do bem-estar material das classes que ascendem ao poder econômico e...

 

- Ih... o cara pirou de vez.

 

Vejo logo que todos ignoram a existência de tamanhas criaturas a engolir homens, mulheres e crianças.  Ao vê-los nada dizem e evitam olhar demoradamente.

 

            Um outro passa por cima. Nada vi a não ser sombra. E a sombra não tem cor, nem cheiro, nem brilho... ela não tem nada. É sombra, que fisicamente pode ser descrita como ausência (parcial ou total) da luz.

 

            Agora nosso ônibus passa sobre outro e nos dá a ligeira impressão de estarmos num plano mais elevado, numa posição privilegiada, acima de muitos que se encontram lá embaixo. O que diria Kafka diante deles? Com certeza que não seria enganado pelas modernas linhas, pela bela pintura e o brilho de tantos adornos. Assim como ele, eu também sei que toda essa beleza encobre um processo de emanharamento da liberdade. E eu não me engano também com a argamassa distribuída uniformemente numa base tão sólida capaz de suportar toneladas sem o menor impacto. Eles nos engolem a cada dia, mesmo passando por cima deles, fazendo com que todos se pareçam com eles na forma, na cor, no jeito, na estrutura e até no cheiro. Metamorfose estranha...

 

Os ônibus tiveram uma longa aprendizagem com eles de tanto passar por cima e por baixo e agora também engolem homens. Parada vinte e dois. Homens sãos cuspidos, homens são engolidos (tanto o sapiens, como o oeconomicus, o homo loquax, mulheres e crianças). São todos engolidos e cuspidos numa interminável rotina permeada por este roteiro que passa por cima e por baixo de tanto concreto.

 

            Vejo figuras confusas lá embaixo e meus olhos não conseguem decifrar muita coisa. São sombras que fogem das sombras e pouca vida se manifesta nessa penumbra. Se alguém pudesse ler meus pensamentos aqui nesse ônibus talvez poderíamos estabelecer um diálogo sobre eles e ver até que ponto fomos ou não fomos engolidos. Só não poderia revelar meus temores mais íntimos. Senão, meu novo amigo ou amiga me levaria para o sanatório.

 

Já me vejo diante de um psicólogo ou de um psicanalista:

 

-         O que você anda vendo?

 

Vejo sombras!

 

-         Hum...! e por que não vê luz?

 

Eu sabia que ele ia perguntar isso... Bem, não é que não as vejo. Mas as sombras são mais significativas. E antes que você me pergunte, não são mais significativas para mim. Entende o que quero dizer? Não são mais significativas só para mim. Elas estão lá embaixo em todos os lugares... Nas curvas, nas folhas, nas águas, nos buracos... e... e... e principalmente... neles!

 

-         Neles? Neles quem?

 

Ora, neles!

 

-         Hum!.....

 

 

 

Parada trinta! A grande massa já se encontra agora mais rarefeita. O vai e vem já diminuiu bastante e então posso contar as cabeças (que mania terrível de contar tudo que vejo!). Conto as pernas, conto os braços, os livros, as ferramentas, as bolsas, os batons, conto as curvas, os postes de luz e bem no alto conto as janelas.

 

Há muito tempo que presto atenção na silhueta desses monstros. Eles carregam um enigma indecifrável em toda sua conjuntura. São blocos e mais blocos de concreto armado levantados por uma multidão anônima e que, ao longo do tempo, vão ganhando vida... Na verdade, não sei se roubaram vidas, se simplesmente guardam vidas ou se tornaram vivos realmente e que, agora, impávidos, observam-nos de suas alturas. Ei-los a passar... (mais uma vez, não são eles que passam, mas nós que passamos!). Ei-los robustos, grandiosos, ornados, limpos, imponentes como as colunas mestras de um templo pagão.

 

Passa um... passam dois... passam três... um bloco deles, um bairro...toda uma paisagem cheia deles com seus milhares de olhos (uns escuros, outros reluzentes) a nos observar... o que estarão pensando neste momento? O que sussurram uns aos outros com seus olhos de soslaio a mirar-nos que passamos e sumimos no horizonte? Por que se preocupam tanto com tantos braços, pernas e cabeças comprimidas aqui embaixo? Ou serei eu que estou me preocupando demasiadamente com eles? É... talvez eles nem saibam de meus pensamentos, de minhas preocupações. Talvez nem estarão nos olhando, mas contemplando a beleza do por do sol, das nuvens e das pequenas estrelas que despontam no firmamento. Talvez estarão saboreando a doçura do vento, da brisa noturna... Talvez sempre contemplaram o horizonte distante e nem saibam que existimos e que passamos. Sua imponência parece desconhecer nossa ignóbil presença.

 

Baixo a cabeça porque o pescoço começa a doer e vejo uma senhora idosa. Suas cãs e suas rugas não conseguem esconder um brilho inconfundível de alguém que possui muita vida, firmeza e vontade. Digo-lhe, telepaticamente, que o talvez não existe, mas é o fruto de uma divagação passageira, de um pensamento inconstante e incerto. Ela nada responde. Apenas sorri num sorriso tão giocondesco que lá de cima ninguém pôde perceber. Eles não percebem mesmo muita coisa...

 

Continuo minha experiência telepática explicando-lhe que mesmo sendo uma divagação, o talvez rompe o limite do possível e cria situações inusitadas, cria mundos diferentes e realidades paradoxais. Só não consigo entender por que o talvez raramente sobe o elevador. A senhora saberia me dizer?

 

-         Então, não consegue ver luz nenhuma? Nem um pequeno facho de luz?

 

Definitivamente ele não sabe do que estou falando. Bom, vejo as luzes que se acendem e se apagam lá no alto. Todas as vezes que venho do trabalho, gosto de observá-las porque elas nos espreitam. São muito numerosas. Um dia resolvi contá-las. Ou melhor, multiplicá-las. Tantos focos, tantas aberturas que se perdem numa dízima... Cheguei a uma soma de milhares apagadas e algumas centenas acesas. Então, são algumas poucas centenas que brilham. A maioria delas são luzes opacas, não possuem nenhum facho de luz, são frias e escuras como aqui embaixo e mais lá embaixo.

 

-         Lá embaixo onde ficam “eles”?

 

Sim!... Exatamente onde eles começam!

 

-         Continue falando das luzes, por favor...

 

Já não há mais luzes. Parada quarenta e sete. Fim da linha. Última estação.