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ARCO-IRIS

Hoje foi um dia como todos os outros. Na insustentável cotidianidade do ser, acordei, levantei, escovei os dentes, tomei café, li um pouco das notícias nos sites: sãos as mesmas de sempre. Garota encontrada morta na escola, águas devastam as cidades ribeirinhas, mortos, mais mortos e mais mortos... dia triste, como todos os outros. Porém, não há razão para ficar em casa, não estou doente, não tenho parente doente, nem mesmo o Tifu, meu cachorrinho, precisa de mim. Não é mesmo garoto? Tome esse pedaço de pão! E não me faça sua caca no sofá de novo, entendeu?

Som da porta, som do portão e estou na rua. Fora os cumprimentos necessários aos vizinhos aposentados, o resto da rota é normal. Chamo de normal a reta que vai até o ponto de ônibus, as curvas das esquinas até o trabalho. Não é longe, mas o tempo que se ganha no ônibus permite fazer outras coisas, como... como... ah, deixa para lá! Outra hora eu lembro. Cá estou! Desço e entro. O trabalho me aguarda.

Fim de expediente. Já? Não, não é isso. É que não vou descrever o que se passou lá: repetição da cotidianidade. Ponto batido, saio rumo ao ponto de ônibus, mas detenho-me: chuva.

-         Osvaldo, você tem que comprar um carro! Agora que está chovendo, olha aí, vai ficar parado até que horas? Mano, com tanta chuva assim, só lembro de passar no supermercado, comprar umas latas de cerveja e ficar quietinho assistindo ao jogo. E você?

-         Eu? Eu lembro do Toppo Giggio.

-         Quem!?

-         O Toppo Giggio, cara! Um bonequinho muito bacana que aparecia na TV quando eu era criança e cantava: “chove chuuuuuuuvaaaaa, chove sem parraaaaaarrrr!”

-         Rá! Quer uma carona até o ponto?

-         Não, obrigado, está fina e deve passar logo... Aliás, acho que vou esperar e vou a pé hoje.

-         Mudança de rotina?

-         É...

-         Então tchau, mano! Fica aí com seu Toppo... sei lá o quê.

Para quem é chato a gente dá qualquer desculpa para não ficar junto. Bem que com essa chuva eu podia ter aceitado a carona do cara. Imagina... andar? Até em casa? Ué... pensando bem, não é má ideia. Isso! Lá vou eu! Molhar um pouquinho só de vez em quando não faz mal a ninguém. É só exorcizar a vozinha da mamãe que aparece na hora: “Menino!!!! sai da chuva, senão você fica resfriado! Mas que diacho!”

Caminho dois quarteirões numa experiência agradável e dá vontade sair cantando como o famoso Fred Astaire: “I am singing in the rain! Just singing in the rain...”. Ou foi o Gene Kelly que cantou? Ah, não importa! O que importa é que estou com o mesmo sentimento, faltando, é claro, só o beijo da amada, que não tenho. Mas a vontade de sair cantando e dançando é a mesma...

Inesperadamente a chuva engrossa e sou obrigado a buscar refúgio em uma marquise onde já estão algumas pessoas. Fico ali parado por um bom tempo, olhando o movimento dos carros que passam, o movimento das folhas de algumas poucas árvores ao longo da rua... à direita, uma, duas, três árvores. À esquerda, uma... duas!

-         O que o senhor disse?

-         Anh!?... nada! Nada!

-         Disse sim, o senhor disse “duas!”

-         Ah, tá... estava contando as árvores lá no final da rua aí para baixo...

-         Ah... cada maluco com sua maluquice.

-         Não, minha senhora, o ditado é: cada macaco no seu galho!

-         Hum!

Acordei de meu enamoramento com chuva e percebi quantas pessoas já tinham se ajuntado na mesma marquise. Todos conversando animadamente.

-         A Zilda foi ao esteticista e fez um botox muito legal!

-         Ai, que inveja!

-         Você viu o resultado do jogo de ontem?

-         Ah... menina... nem te conto...

Na impossibilidade de continuar por aqui, depois de ter acordado e mirar a cara feia da senhora do macaco, continuo minha caminhada rua abaixo.

-         Que cara doido! Sair com uma chuva dessas! Eu, hein? Mas conta o que aconteceu...

Mais dois quarterões e a chuva diminui um pouco, tornando-se apenas um chuvisco. Subo no meio-fio e começo a brincar. Fora os olhares dos curiosos no bar, dos carrancudos que passam nos automóveis, vou me divertindo muito. Reminiscências: papai me trazendo da escola e chuva inesperada. Mais inesperado foi o sorriso dele, que veio com uma proposta mais inesperada ainda:

-         Vamos brincar na chuva? Tal como fez o Kelly? (Agora lembrei, foi o Kelly mesmo, não foi o Astaire).

-         Quem é esse cara pai?

-         Ah, filho um cantor bacana que saiu cantando e dançando na chuva. Quando chegar em casa te mostro o disco na vitrola que tem a música dele... só não tem a imagem que vimos no cinema. Mas não vamos dançar, não, só brincar: vamos ver quem chega primeiro naquela árvore lá?

E fomos pela rua abaixo, ora no meio-fio, ora na calçada, ora na rua, ensopando os sapatos da correnteza suja. Disputamos corrida, bebemos água da chuva e aguentamos com sorriso maroto as reprimendas da mamãe.

- Mas que ideia, Tonho, molhar desse jeito... E os cadernos do menino?

-         Ei, moço! Vamos ver quem anda mais sobre o meio-fio?

Mas de onde surgiu esse pirralho? Um molequinho de no máximo uns dez anos, boné na cabeça, roupas simples e um olhar de ternura. Serei eu e eu sou meu pai? Não! Já estou acordado, até mesmo das minhas reminiscências. Mas ele me lembra o único filho que tive e morreu num acidente, junto à esposa... Mas não quero lembrar disso e...

-         O senhor vai ou não vai?

-         Simbora! Vamos lá! Eu vou na frente... Um, dois, três, um, dois, três... e... opa!

-         Ahá! O senhor caiu, ponto para mim!

-         Vamos de novo!

Descemos a ladeira e viramos a esquina até próximo à rodovia.

-         O senhor sabe que no final do arco-iris tem um pote de ouro?

-         De qual arco-iris?

-         Daquele lá! De todos, uai!

Estava tão entretido que não tinha notado o belo arco-iris do outro lado, onde o céu já estava limpo e os raios de sol desciam à terra deslumbrantemente.

-         Pote de ouro? é... quando era menino todos diziam isso e tive um tio que uma vez saiu para buscar esse pote.

-         E aí, ele encontrou o pote?

-         Nem encontrou o fim do arco-iris. Ele era meio lelé, sabe? Acreditava em muita coisa.

-         Então minha vó também é lelé, pois foi ela que me contou isso.

-         Bom... não! Sua vó não é lelé, é que...

-         Então é verdade? Tem o pote de ouro?

-         Ah, isso eu não sei! Nunca vi ninguém que tivesse conseguido ir até o fim do arco.

-         Vamos tentar?

-         Meu garoto...

Ah... aí tive que parar, colocar a mão sobre o ombro do moleque. O que digo? Que o arco-iris é uma mera refração da luz? Que esses dizeres fazem parte da cultura popular, na forma de folclore? Ou dou mesmo uma louco, como meu tio, e saio com esse pirralho por esse cerrado até encontrar o final do arco-iris? Não!!! hipótese totalmente descartada. O mínimo que a polícia iria me chamar era de pedófilo. Tô fora! Mas o difícil é sair desse garoto agora.

-         E aí, vamos ou não vamos?

-         Dessa vez não! Tenho que chegar em casa para dar comida ao meu cachorrinho, senão ele passa fome. Você tem cachorro?

-         Tenho...

-         Pois é, temos que cuidar bem dos animais, né?

-         Eu não. O meu fica solto por aí, sai, come de tudo e só chega à tarde. E com essa chuva, a mamãe já deu alguma coisa para ele, osso, sei lá! O Totó é esperto que só. Nem preciso preocupar.

-         Ah! A chuva passou!

-         Mas o arco-iris ainda está lá!

Sim, o arco-iris, como nunca, todo visível, deslumbrante em suas cores... De onde surgiu a lenda? Terá alguém encontrado algo, por mera coincidência? Sei lá, algumas moedas enterradas, ou um colar de ouro? Ou é dessas lendas nórdicas, com duendes e tudo mais, que vieram parar por aqui, tal como o Papai Noel?

-         Garoto, você acredita em Papai Noel?

-         Ganhei um presente dele no natal passado.

Tá difícil... Como saio desta agora? Um simples arco-iris me colocou numa situação mais difícil que as que enfrento no trabalho. Cativar um cliente ou sair de um outro não é tão difícil assim. Todos são adultos e a gente fala o que tem que falar, embora alguns tem que usar uma certa diplomacia, outros tem que adular, e outros ainda fazer concessões, senão não tem venda. Quando a empresa anuncia um produto e não é bem aquilo, a gente ludibria. Mas como ludibriar esse garoto cuja esperança brilha nos olhos? Se alguém tem que matar sua infância, não serei eu.

-         Menino, vou te contar uma história.

-         Sobre o arco-iris?

-         Mais ou menos... É sobre um homem bem legal.

-         Seu tio lelé?

-          Não. Esse era outro, era um carpinteiro que sempre subia nas casas para arrumar o telhado das pessoas. Um dia, ele viu que o arco-iris terminava numa pequena chácara de um casal de velhos conhecido de todos. Aí se lembrou das histórias que sua mãe contava e achou que poderia achar o pote de ouro. Desceu e foi até a chácara, que ficava a uns dois ou três quilômetros. Pensou logo em chegar pelo fundo para não ser visto, mas o cachorro denunciou sua presença. Teve que ir até o quintal da casa para cumprimentar o velho morador da chácara. Sentou, proseou, tomou café e quando viu que o arco-iris estava começando a desparecer, tomou coragem e falou tudo que queria.

-         Nossa! E o que o velho disse?

-         Bom, o velho não era bobo, tinha sido mestre-escola, quero dizer, professor da escolinha, sabe? E ouviu tudo caladinho. Disse que ele podia ir até o final, que dava numa árvore, cavar e tentar encontrar o ouro.

-         Mas ele não quis uma parte?

-         Bom, foi a pergunta que o carpinteiro fez, mas ele respondeu que não. Disse que já tinha encontrado o pote de ouro. Levantou os olhos, olhou para a velhinha ao seu lado, olhou para as galinhas, o terreiro, as plantações... olhou o céu e disse de novo:

-         É, já encontrei.

-         Então agora é nossa vez, vamos encontrar? Vamos moço! Essa história sua me deixou mais animado!

-         Será que o arco-iris não termina em sua casa?

-         Não!!! minha casa fica para lá.

Não adianta, ele não vai entender. É capaz de fazer igual o tio lelé, ir atrás até o fim de mundo e voltar decepcionado e cansado de tanto cavar. Tio lelé morreu com esse desgosto na vida. Pobre Tio lelé.

-         Ei, Leo, tô ino lá no campim jogá bola! Vamo?

-         Ah, nun sei... ia com esse moço lá no fim do arco-iris e...

-         Deixe de bobage! Vamos jogá! Outro dia cêis vão lá.

-         Então tá. Moço, outro dia nois vai lá, tá bom?

-         Com certeza! Tchau, garoto!

Salvo pelo gongo! Melhor, pelo amigo do garoto! Mas que providência divina, como veio esse outro moleque aparecer logo agora?

-         Ei, Osvaldo? O que faz aí parado, rapaz? Quer uma carona agora? Vim comprar mais cerveja e na volta te deixo em casa. Vai comigo ou vai ficar curtindo esse tal de Toppo o que mesmo?

-         Giggio! Giggio! Toppo Giggio! Chove chuva!...... mas agora já passou. Mas vou ou aceitar sua carona. Depois de tudo que passei hoje, dá para aguentar os chatos.

-         Ah, chato é você com essa história de Toppo não sei o quê.

-         Isso é porque não te contei a história do Kelly cantando na chuva.

-         Ah, e eu lá quero saber de histórias desses malucos, rapaz....

 

De longe, no carro, vi o arco-iris se dissipando, sumindo... e ao longe, perto do campinho, dois garotos caminhando... um, segurando a bola, ia na frente conversando... o outro, andando atrás, de longe, ainda me olhava.