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BRINCADEIRA

O fato aconteceu no sábado. Foi tão inesperado que de súbito pensei que estivesse voltado a uma terra distante,  perdida pelos escombros da mata ou por montanhas inabitadas. Ou ainda a uma cidadezinha cujas luminárias fossem alimentadas pela caloria de um óleo vegetal qualquer, retirado do labor incansado das mulheres rendeiras (Mas afinal o que tem a ver óleo vegetal com mulheres rendeiras? Ah!... tem muito a ver). Mas não. O fato aconteceu em pleno século XXI, numa metrópole onde os bits e os bytes se entrecruzam pelos milhões de fios espalhados e as rendeiras não passam de figuras  indefinidas nas telas dos pintores primitivistas. Meus filhos foram convidados a brincar na rua. O fato em si já é esdrúxulo pois a tendência dos tempos modernos é fazer da criança um pequeno adulto, conhecedor da realidade vivida como ela é. Um pequeno que já entenda de sexo e saiba muito bem de onde veio e como veio, deletando ou esganando para sempre a coitada da cegonha que já andava mesmo meio perdida no imaginário popular. Um pequeno que lide com o computador esmeradamente, com jogos, que acompanhe todos os desenhos televisivos  e não esqueça de ir para a cama só depois da novela ou daquele filme anunciado há um mês atrás (não importa se arrancam cabeças, braços e explodam o edifício da vizinha, afinal isso é real e a criança já está acostumada com bastante sangue que jorra dos personagens de tantos games ultramodernos!).

 

Estava na frente cuidando do jardim quando ouvi aquelas vozinhas estridentes: 

 

-         Ei, o senhor deixe seus filhos brincar com a gente aqui na rua?

 

Fiquei parado alguns segundos para me recompor e me beliscar para descobrir que não estava sonhando. E não estava mesmo! Claro que podem! Respondi a essas crianças e fui logo chamar meus filhos. Pensei até que não iriam querer, afinal estavam num jogo muito interessante no computador. Para minha surpresa deixaram o aparelho ligado e correram para a rua gritando.

 

E em poucos minutos vi meus filhos e um bom número de crianças da vizinhança no meio da rua onde se divertiram por um bom tempo brincando de queimada. Depois brincaram de futebol. Para maio espanto até de salve a latinha. Correram e deixaram a cachorrada quase louca de tanto latir.

 

Enquanto brincavam busquei uma cadeira e fiquei na calçada junto ao muro onde plantei algumas bananeiras de jardim as quais puderam ocultar-me um pouco a fim de que não me vissem. Sei que se vissem um adulto espreitando não teriam toda a liberdade e não agiriam de forma tão natural como o fizeram. Por entre as folhas da bananeira pude ver aqueles pequenos e pequenas como seres encantados pisando as nuvens ou flutuando sobre as águas. Seus movimentos eram ágeis, rápidos, exatos a ponto de pegar a minúscula bola de meia no momento certo quando ela, partindo das mãos do time oponente, chegava às suas e já voltava na tentativa de “queimar” alguém. Bola pra lá, bola pra cá. Criança pra lá, criança pra cá. Para eles não importava quem estava ganhando, o importante é que todos estavam se divertindo. Até que um deles caiu sobre a rigidez do asfalto. Coitado! Mas, em poucos segundos percebi que o único coitado da estória era o adulto meio obeso, cheio de colesterol, sendentário atrás de umas bananeiras... O menino limpou-se na mesma velocidade que caiu e prosseguiu em seu mundo mágico onde a dor não tinha muita significação, mas o prazer a suplantava, o prazer do brinquedo e da imaginação superava todo o sofrimento. Será que aquele menino leu algum livro de auto-ajuda?... Que bobagem! O peralta não passa de seis anos e jamais ouviu falar dos gurus da superação de obstáculos, barreiras e dificuldades. Afinal ele não precisa mesmo, quem precisa disso são os adultos, esquizofrênicos e mal-amados por terem deixado sua infância dilacerada pelo caminho. Na verdade a trilha  que nos leva à maturidade tem tantos tropeços que quando chegamos já não somos os mesmos seres de antes. Somos outros! Qual foi mesmo o filósofo que disse isso? Ou sou eu que estou filosofando por entre as bananeiras? Não! Eu li alguma coisa a respeito.

 

Falando em leitura, li certa vez um texto de um certo sonhador no qual um menino fora interpelado assim:

 

-         “Que é que você vai ser quando crescer?” 

 

De imediato respondeu:

 

-         Quando crescer quero ter muito tempo para olhar as nuvens. Quando crescer quero empinar pipas, como faço agora. Quando crescer quero continuar a ser meio criança, porque os adultos parecem feios e infelizes.

 

Não disse que seria médico, ou engenheiro, ou advogado, mas disse que queria ser como era naquele momento: feliz. E essa felicidade eu pude ver estampada no rosto daquelas criaturas que gritavam uma às outras:

 

-         Vai, mande a bola!

 

-         Queima ele! Queima ela!

 

Fiquei pensando com meus botões: onde andará a criança desse autor? O que aconteceu com ela ao longo dos anos? Conseguiu continuar meio criança? Ou a sociedade forçosamente a convenceu de que não era bem isso que o adulto da pergunta gostaria de ouvir? Será que ela mudou de idéia e passou a crescer sem empinar pipas, encafifada nos estudos e tarefas de uma escola qualquer, dessas que todos vêem por aí? É bem provável que seus pais de pronto chamaram sua atenção, explicaram que não era bem isso que estavam a perguntar. Bom, devem tê-la encaminhado, mudaram-lhe o pensamento e hoje ela deve estar por aí, atrás de algumas bananeiras vendo crianças a brincar.

 

-         Ei, moço! Quer brincar também?

 

O quê? Como esse menininho veio parar aqui, bem pertinho e eu não percebi? Não percebi mesmo quando a bola atirada passou por cima da garotada e veio cair próximo do meu cantinho. Devia estar tão compenetrado em meus devaneios que não vi o peralta. Fui descoberto! O que faço agora?

 

-         E aí? Vem ou não vem?

 

Ignorando meu embaraço, o piá ficou esperando a resposta e eu ruborizado só consegui dizer: O que foi mesmo que você disse? Brincar com vocês?

 

-         Claro! Brincar! Quer brincar com a gente?

 

Brincar? Mas, como? Brincar de quê? Ora essa, mas eu não sou criança e... não sou mas já fui, quer dizer... há muito tempo fui criança e na verdade brinquei. Não sei brincar, ou melhor sei! Mas não consigo e... Ora garoto, sou muito grandão! – respondi depois de tanto gaguejar.

 

-         Que grandão que nada! Tá faltando um pro meu time e o senhor tá aí só olhando... vamos!

 

A confusão foi maior quando o time dele percebeu o movimento e veio ver o que estava acontecendo e para meu espanto começaram a gritar em coro pedindo que eu fosse, inclusive meus filhos. Não tive outra alternativa e em poucos segundos já estava no meio deles. Não precisa dizer que foi um sacrilégio às matronas de plantão olhando pelas janelas, sem dizer de alguns pais que apareceram nos portões com aquela cara de preocupados, desabonando minha conduta com suas sobrancelhas cerradas.  Até a cachorrada percebeu o estranho e voltou a latir. Felizmente ninguém deu muita bola a esses quadrúpedes insensíveis e de mau gosto (incluindo as matronas e assemelhados).

 

A quantia de espectadores dobrou e percebi que de repente me tornara o centro das atenções tanto da criançada que se divertia com minha presença, quanto da mulherada que tecia e bordava mil comentários dos quais nem posso imaginar o teor. Afinal, não estavam me reprimindo mas reprimindo a si próprias, reprimindo seu próprio desejo de estar no nosso meio. Reprimindo-se porque a sociedade não permite tal coisa. Brincar é coisa de criança! O adulto deve trabalhar! Como se não pudéssemos trabalhar brincando ou brincar trabalhando. E é por isso que para o garoto do erudito escritor os adultos eram tão feios, infelizes, estressados, paranóicos e emburrados.

 

Felizmente a falta de jeito, o embaraço, a vergonha e o cansaço foram ficando para trás e bem depressa estava me sentindo como um deles. Melhor! Lembrei das aventuras de minha infância quando, aos dez anos, procurávamos caracóis entre as mamoneiras do pasto do “seu” Orlando. Lembrei das noites na praça da vila onde a criançada se reunia para passar o anel, para ouvir os “causos” de fantasma do “seu” Juca e depois íamos fazer caretas nas abóboras maduras, meter-lhes uma vela acesa e deixá-las nas encruzilhadas. Jamais vou esquecer das brincadeiras de pique. Nunca mais vi ninguém brincando de pique. Nunca mais vi abóboras com vela. Bem que eu poderia convidar meus colegas do escritório e combinar um fim de semana para brincar de pique... não! de empinar pipa...   ou melhor de... de... francamente, vão achar que estou precisando de um psiquiatra! O máximo que vão querer brincar é de pescar. Será que meu chefe brinca com o filho dele? Será que eu brinco com meus filhos? Pelo menos estou brincando agora.

 

-         Por que está parado aí? Pegue a bola!

 

Fui obrigado a disfarçar meu cansaço, fingir que o tornozelo não doía e que a reputação do homem sério e pacato não tinha ido para o espaço. Peguei a bola e após tanto queimar e ser queimado os convenci de que era hora de parar.

 

Despedimo-nos. Ao caminhar para casa não consegui conter a empolgação de meus filhos que tentavam, aos gritos, relembrar os melhores momentos. Lembra, pai, daquela bola que bateu em seu nariz? E aquela hora que você tropeçou e quase caiu? Eh, pai, você foi o máximo! É... Você jogou bacana! Só tá um pouco lento, pai! Da próxima vez, seja mais rápido!

 

Próxima vez? Será que vai ter uma próxima vez? Foi a pergunta que me fez voltar ao mundo que nos engaiolaram. Ao mundo no qual os adultos devem estar atrás de uma máquina, num escritório, numa fábrica, numa lavoura e em qualquer outro lugar em que o riso, a alegria, o prazer sejam banidos em nome da produção e do lucro.

 

Será que vai ter uma próxima vez? Não, creio que não. Da próxima vez que me convidarem estarei preparado para pensar, analisar e terei tempo para dizer não. Terei tempo para lembrar das caras nas janelas, dos olhares dos transeuntes, do cenho fechado do Dr. Horácio e da buzinada estridente daquele carro que passou. Talvez eu me lembre que estamos no século XXI, no século da informatização, dos robôs, da tecnologia. É isso mesmo, não estamos perdidos num século distante, numa vila distante ou num país distante onde as lamparinas são alimentadas com o velho óleo, retirado do lagar no fundo do quintal, a iluminar velhas rendeiras.

 

Vou me lembrar muito bem disso e continuarei atrás das bananeiras.