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CONSULTÓRIO

-          Próximo!

Acordo de sobressalto, acelerando meus batimentos cardíacos. Pisco pesadamente e dou uma rápida olhada ao meu redor como que pedindo desculpas por expor minha fraqueza. Na verdade dormir não é nenhuma fraqueza, mas todo mundo prefere a   altivez do soldado combatente que a moleza do cidadão comum. É admirável aquele que não dorme nunca! O atalaia que está sempre vigilante, sóbrio, forte e resistente! “O atalaia de Israel, aquele que não dorme nem tosqueneja!”. Ouço bem forte a voz do padre Severiano que nos idos de minha infância não se cansava em dizer no início da aula. No pátio ele incorporava o atalaia e se sentava no banco de pedra bem no centro numa posição parecida à  daquele militar que vejo próximo à porta de entrada. Seu rosto inflexível demonstra o barbeado bem feito, o esmero do corte do cabelo, e segura também inflexível seu olhar metódico que não sei se vigia a rua ou se fixa um ponto imaginário, portanto inexistente. O movimento lá fora provoca um forte constraste com esse senhor de tez morena que desde quando se sentou na ponta do banco, numa posição de 90 graus, não se movimentou a não ser a cabeça com movimentos para dentro em atenção a secretária com voz de taquara seca:

-          Próximo!

Quero pegar no sono, mas sou incomodado pelo olhar gordo de uma senhora gorda. A outra que está ao meu lado tem uma tossezinha irritadamente seca. Foi  bom ela ter vindo ao médico. Fico imaginando o sofrimento do vizinho pelas altas horas da madrugada (ou a expressão correta seria: baixas horas da madrugada?). Não importa! O que importa é que além da tosse ela começa a espirrar e aí meu cochilo não tem mais a razão de ser. Durmo ou não durmo? that’s the question! Bom... sou o último no agendamento e não preciso me preocupar tanto com o momento que terei que adentrar essa porta amarela, estreita e muito reluzente e poder chegar diante do homenzinho de branco e dizer: Bom dia!

-    Sente-se! O que está sentindo?

O resto é o de sempre. Estou com um dor estranha em tal lugar e que me atormenta quando faço isso e aquilo. Etcétera e tal. Quando é retorno, basta mostrar o exame e depois de alguns segundos e talvez minutos, o homenzinho vai dizer:

-    Hum... Bom... parece que não é nada. Vou prescrever tal medicamento e se não melhorar volte aqui.

Até quando terei de ouvir isso? Não me restam muitos anos de vida, talvez. Mas quando passar desta para melhor, quero encontrar-me como ele e dizer: Sabe doutor... fui muitas vezes ao seu consultório... sou o fulano, lembra-se? Ah, não importa! Não tem problema, a gente esquece mesmo! Seus medicamentos mexeram tanto com meu metabolismo que devem ter botado todas as células para dançar um tango argentino.

-    Hum... que interessante! Mas você melhorou, não?

...

A mulher gorda me fita os olhos... olho o tenente e ele fita a rua... a secretária com sua vozinha fina estridente, seu corpinho magérrimo não me inspira sono... o menino chora e berra porque a mãe não o deixa sair... só a faxineira que entra... ah! Essa sim me inspira: tem um olhar lânguido, pesado, pegajoso e passa o pano no balcão numa paciência e moleza fascinante! Acompanho seus movimentos e já estou quase fechando os olhos quando:

-    Próximo!

A faxineira já se foi. Os habitantes temporários desta sala apertada estão compenetrados em seus mundos. Mundos que se encontram num universo obscuro. As viagens interplatenárias são escassas talvez por falta de tecnologia ou excesso da mesma. Só dois planetazinhos femininos fazem um contato com baixa freqüência de ondas sonoras bilabiais e sorriem baixinho. Imagino serem as únicas criaturas a sorrir nesta sala. Ou a frase correta seria: Imagino ser as únicas criaturas a sorrirem nesta sala? É... padre Severiano se preocupava mais com o atalaia.

Deixe-me ver... duas, três, quatro... sete pessoas na minha frente. Se o médico leva de dez a vinte minutos por paciente, devo ficar aqui por uns... mas que chato! Não adianta ficar aqui fazendo cálculos, por certo cada paciente tem um tipo especial de tratamento, tem um maneira sui generis na qual o médico se relaciona. Cada ser humano tem sua especificidade e o médico, como um bom profissional, procurará ter essa visão bastante humanista e direcionará sua atenção e seu tempo a tais especificidades. Hum? O que foi que eu disse? Onde eu li isso? Path Adms escreveu isso ou minha mente está divagando num cochilo pelo mundo do imaginário? Pisco e corro os olhos rapidamente, dessa vez não para pedir desculpas,  mas para me certificar que estou acordado. O banco duro me avisa que devo ficar desperto e a voz sensivelmente taquaral completa:

-    Próximo!

Não posso fechar os olhos nem um pouquinho que a senhora gorda me fita com sua carranca vitoriana. O soldado olha para os pés, olha para a rua, olha para os pés. Folheio as revistas médicas... que figuras deprimentes! Aqui aparece um coração aberto e ali umas manchas que tomam o corpo do infeliz. Arrepio e me encolho. Folheio outra. Dessa vez a revista apresenta aparelhos médicos novos e médicos também novos, bonitos, mulheres bem vestidas em seus casacos brancos e azuis.  Folheio as de notícias para ficar atualizado... não adianta, prefiro ficar desatualizado!

Olho na direção da janela e vejo algumas plantas verdes e fico a admirar o movimento das folhas. Elas parecem não se importar com nossa presença  e soltam sua graça ao sabor do vento. Viram-se de lado para o outro e deixam pingar as últimas gotas da água que lhes jogaram tão mecanicamente. Fito as folhas e consigo estabelecer com elas um certo diálogo. E elas perguntam:

-    O que você faz aqui?

Não sei. Estou tentando descobrir, mas já que vocês são do mundo vegetal, há muitos anos li um livro chamado “Meu pé de laranja-lima” e até hoje não sei quem era o personagem principal. A árvore ou o menino? Ei, ei! Não se apresem em responder... Sei que vão querer responder que era a árvore. Mas, trazendo o exemplo para cá, não sei quem é o personagem principal desta comédia trágica: eu ou o consultório?

E elas respondem em uníssono:

-    O consultório.

-    Moço! Quantas horas? Pergunta a senhora esguia, entre uma tosse e a outra.

Não sei... não tenho relógio. Estou perdido no tempo. Talvez tenha entrado na máquina do tempo e estou agora viajando para o período medieval a buscar a donzela de longas tranças à janela de algum castelo. Aparece o mestre atalaia a gritar:

-    Ajeite-se nessa carteira! Parece que está sonhando? Vive no mundo da lua esse menino esquálido. Vai ganhar um demérito!

Mais um? Penso eu ajeitando-me na carteira sôfrega, dura e nada anatômica de minha sala nada anatômica daquela escola nada anatômica. Quantos deméritos neste mês?

 - Falando muito? Um demérito! Escrevendo muito? Dois deméritos! Pulando??? Três deméritos!!! Volte para seu canto e acorde! Você está no consultório!

E cá estou no meu canto, debaixo dessa TV barulhenta que ninguém presta atenção a não ser o garoto chorão que agora ri do desenho que passa sobre minha cabeça.  Mil desculpas, irmão Severiano, mas está difícil ficar acordado. Compreendo sua admiração por esse militar que não dorme e continua a vigiar a entrada deste consultório, com certeza teria sido seu melhor aluno, o mais aplicado, o nota 10, o vigilante e talvez o dedo-duro. Se fosse dedo-duro nossa turminha iria quebrar-lhe a cara na saída da escola, mas bem longe... lá depois do campinho e depois da matinha, perto da casa da dona Ermeralda. Tia Ermeralda (como ela gostava de ser chamada) era mulher de um professor que se tornou juiz de paz. Ela nunca gostou de gente traíra e nutria um desgosto por gente esnobe.  Adorava nossa turminha de barulhentos demeritados. O traíra levanta como se estivesse numa fila perante seu superior imediato:

-    Posso entrar?

-    Sim. É sua vez.

Como não ouvi a chamada? E diante de minha cara intrigante as plantas sussuram:

-    Você está dormindo!

A figura do soldado me dá forças, levanto-me como pronto para uma guerra interplanetária, vou ao banheiro, lavo o rosto, desperto-me, olho no espelho e as dores continuam. O tempo passa, sala vazia, três pessoas, quase minha vez, sento à beira da porta, olho para rua e... e... e... não vejo nada! Onde está o ponto fascinante que prendeu os olhos atentos dele? Não consigo encontrar o ponto de fascinação (não é o ponto de mutação de Kapra) e me decepciono. Invoco o irmão Severiano e ele me diz:

-    Acorde rapaz! Isto é um consultório e você está dentro dele e não na rua. De lá você já saiu e veio abrigar-se aqui sob o manto da sabedoria hipocratiana. Quando você entrava pelas portas de nosso sagrado colégio eu via claro que você não ia dar nada na vida. Não seria nada, mas um Zé Ninguém. Um sonhador, sabe? Daqueles que se perdem por meio de seus sonhos, um poetinha que se perde no meio de suas palavras sentimentais e vazias. Olhe para esse consultório e tente encontrar nele uma poesia, você consegue?

Luto contra o fantasma do colégio e digo: A beleza da secretária é uma poesia, a decoração das paredes em harmonia com o teto de gesso artístico. As plantas que conversaram comigo são a manifestação viva da natureza que em nós opera...

-    Bucolicamente! – completa nosso reverendíssimo diretor.

Como? Não entendi...

-    Não entendeu? Já se esqueceu das aulas de literatura? O bucolismo que matou tantos jovens bayronianos ainda vai matá-lo mais cedo do que espera.

Sinto muito, irmão Severiano, fica para outro dia sua repreensão e seus racionamentos quanto a minha maneira de ser e viver. O tenente Mariano (eu vi seu nome escrito no bolso. O que prova que estou bem acordado) vem em minha direção e pára a minha frente. Fico apreensivo imaginando que ele sondou meus pensamentos e pergunto-me se o traíra agora não foi o danado do Severiano.

-    Com sua licença, gostaria de pegar meu guarda-chuva aí no canto da parede.

Oh, sim... claro!

Depois que ele some de vista a sala volta a ficar deserta. Agora somente as duas mocinhas que ainda cochicham com as mãos à boca e eu. Tudo volta ao normal. Irmão Severiano já se foi. As plantas se recusam a falar comigo. A TV continua ligada, mas ninguém perde o tempo com ela. A mãe do menino foi umas das primeiras a ser atendidas (ou será a serem atendidas?). No ar somente a voz da secretária:

-    Próximo!

As duas passam pela portinhola amarela. Saem com uma feição mais contente e mergulham no vasto mundo que se afigura após a entrada que agora não tem mais seu atalaia. Tomei seu lugar! Talvez Freud explicaria porque estou aqui em seu lugar, porque essa figura foi a que mais me marcou neste dia... Fico aqui pensando até que as pequenas plantinhas resolvem soltar o verbo e gritam:

- Não, seu idiota! você só está sentado aí para ouvir de longe a voz de bambu:

 

- Próximo!