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ESCRITÓRIO

Sempre gostei de ir caminhando até o trabalho. Isso não só me dá prazer, mas também, e afinal de contas, exercito meus flácidos músculos da perna. É... quem sabe algum dia consigo acabar com a saliência da barriga. Alguns dizem que a flacidez do corpo opera uma movimentação muito interessante... e... pensando melhor... talvez eles tenham razão porque quando ando vejo que as dobras acompanham de forma rítmica o gingado dos ombros e o compasso das pernas. Impressionante! Até a pequena dor na batata das pernas dá suas pontadas na cadência certa. Já sei o momento exato da dor. Veja só... um, dois, três,  e... ai! Um, dois, três e... hum! Viu só? Fico tão encantado com a combinação dinâmica do corpo e seus movimentos que nem percebo ou ignoro os movimentos à minha volta. O movimento dos carros... Por que fazem tanto carro? Por que não melhoram o transporte coletivo, o metrô, as vias de circulação e... e...  ainda bem que não estou pensando em voz alta, senão alguém poderia pensar que estou ficando maluco. Só pensaria, mas jamais pararia para perguntar alguma coisa. Nem talvez se estava me sentindo bem.

            É assim meu trecho que faço todos os dias. Vou e venho há alguns anos. Passo para lá e passo para cá nas mesmas calçadas e mesmas ruas. Conheço todos os postes, todos os hidrantes... Bom dia hidrante número 4! Bom dia poste da rua 4 com a rua 8! Do hidrante número 5 até a loja de flores artificiais são 37 passos e meio (quando estou com pressa), às vezes consigo fazer o mesmo perímetro em 42 passos quando saio mais cedo ou quando não tenho necessidade de chegar tão avançado no horário. Não conheço a dona da loja de flores. Sempre vejo mocinhas diferentes com um uniformezinho engraçado. Parecem com as flores que vendem. Do buraco número 7 conto 27 passos e estou de frente à mercearia do Seu Biriba. Tudo bem Seu Biriba? Como sempre, abrindo o comércio bem cedo?

-          Claro, né? É preciso ganhar uns trocados, senão a gente passa fome. Indo para o trabalho?

Era o diálogo de sempre. Seu Biriba é um dos poucos com quem tenho afinidade ao longo dessa minha jornada. Seu bigode grisalho, seu cabelo já embranquecido e sua tez engilhada (termo que aprendi com ele) deixam transparecer o sofrimento desse retirante, produto (alguns dizem subproduto) do mundo rural que veio tentar a vida na cidade grande. É um cara legal... montou esse comércio há alguns anos e a última mulher que teve quase o desfalcou por completo. Depois dessa terceira empreitada matrimonial resolveu viver só. Os filhos do primeiro e do segundo amancebamento (outro termo que ele usa) sumiram e nem sequer enviam cartas. Gosto de sentar no banquinho que ele colocou na calçada rente à parede suja do pretenso mercadinho e trocar algumas prosas com ele. Sempre faço isso no intervalo do almoço. Meus colegas preferem falar dos recursos econômicos, das técnicas de relações humanas empresariais, do perfil sociológico, antropológico e psicológico do homos urbanus e do homos economicus, blá, blá, blá, blá. E eu prefiro falar com Seu Biriba... Não sei se ele preenche algum trauma que tive na infância ou se busco nele algum pai que não tive ou ainda se ele representa um retorno idílico a um mundo inexistente. Não sei! Só sei que gosto de conversar com ele. Minha afinidade com ele causa até ciúmes em seu companheiro de comércio. Ele sempre fica ali debaixo do banco ou junto ao balcão a fitar-me desconfiado. Só depois que trouxe uns ossos ele deixou de rosnar. Mesmo assim não deixa ainda de arrepiar os pelos. Nunca entendi por que ele não conseguiu gostar de mim, ou me aceitar com mais naturalidade. Talvez sejam as dobras da barriga.

Na frente do mercadinho uma frondosa árvore farfalha sua cabeleira verde ao sabor da brisa do inverno. Algumas folhas estão sapecadas e alguns galhos ressequidos, mas nada disso atrapalha o gorjeio e o vôo da passarada. São criaturinhas ágeis, leves e... é... ah... Seu Biriba! Não foi o Kundera que falou sobre a insustentável leveza do ser?

-          Cuma é, home?

-          Milan Kundera, seu Bir... ah, deixa pra lá! Só estou voando na imaginação, sabe, voando ao sabor do vento. Como aqueles pássaros lá. Espia lá! Tá vendo? Pois é... olha só que coisa linda o vôo desses bichinhos.

-          São criaturinhas de Deus, né?

-          Claro, seu Biriba! E como Deus soube criar bichinhos tão lindos.

-          Tem muito poeta da minha terra que canta elogiano os passarinho, num sabe? Faz rima e canta na viola e na sanfona cumo Luiz Gonzaga.

-          Coisas que lá no sertão são muito mais fácil de serem percebidas, notadas e registradas. Aqui, seu Biriba, ninguém nem percebe que existem pássaros, cigarras, borboletas, grilos, libélulas e um batalhão de coisinhas por aí entre as casas, os carros, as árvores e os jardins. Eles vivem por aí... Fazem parte da natureza!   Mas nós não somos da natureza, compreende? Estamos fora dela, como que soltos num mundo paralelo, diferente e nada natural.

-          Num cumprendo muito bem, mais acho que o sinhô tem razão. Quando morava lá no norte, lá no sertão, num sabe? Parece que eu era muito mais feliz. Gostava de buscar água na cacimba, de banhá na lagoa e ficá inté oito hora da noite sentado na frente de casa arreparano as estrela. Já vô, moço! Cum licença que vô atendé esse rapaiz, tá?

-          Tá bom, seu Biriba, outra hora nós conversamos mais. Até logo.

-          Inté.

Ao romper a passagem do meio... Ah, passagem do meio era o termo que eu tinha batizado esse trecho de calçada na frente do mercadinho. A passagem é bem ampla e a árvore plantada produziu uma imensa copa que nos agracia com uma sombra a qual cobre quase a largura da rua. Suas folhas encontram os fios de energia de um lado e o topo do prédio do comercial de Seu Biriba do outro lado. Já quizeram cortar essa árvore mas não conseguiram dobrar o velho nordestino. Depois que ele diz não, ninguém o faz mudar de idéia. Bom, esse ponto fresco é a metade do caminho até o escritório... é... fica no meio.

Dois, três, quatro, cinco... hum... dez! perfeito! Dez passos e estou encima do meio fio da rua mais movimentada do meu trajeto. Aqui a sombra das árvores não alcança nem de manhã nem à tardezinha. Ela parece que não gosta muita dessa rua. Aliás é uma rua feia. Não tem árvore nenhuma... Só sinaleiro, hidrante, ponto de ônibus, placas, letreiros, e... o que mais? Hum... deixe-me ver... e... ah! Bancas de revistas, fios, resto de decoração do natal do ano passado, lixeiros e outras coisas que fariam Dante morrer de inveja. Opa! Sinal aberto para nós e o ritual prossegue em ritmo acelerado... eu e toda essa turma de gente que vai e vem num frenesi tão intenso que no meio da rua não sei se estou indo ou se estou voltando e o que meus olhos conseguem ver são figuras descoloridas, absortas que vão e vem, que não ficam mas desaparecem. Somem com seus óculos escuros e grandes e me deixam só no meu trajeto cabalístico. Três são os elementos da cabala: o primeiro é aquela loja do outro lado que vende velas pretas, vermelhas e azuis junto com suas imagens de santos, índios e pretos-velhos. O outro elemento é essa pequena portinha de aço de uma sala comercial onde colocaram alguns bancos, um púlpito e umas cortinas encebadas onde uma cruz foi pintada de forma bem apressada. Ah! Como não podia faltar, o homenzinho vermelho está gritando ao microfone numa pretensa oração do tipo expulsa demônio. Ele é bem mais pontual e freqüente que eu. Todo o dia no mesmo horário lá está ele com as mãos sobre a cabeça de algumas poucas pessoas... Você vai ficar livre!!! Você vai ficar riiiiiiicoooooo! Bem que eu gostaria... E o último é a casa lotérica logo a seguir onde as filas continuam intermináveis. Ali ninguém grita ou põe a mão sobre a cabeça, mas as filas são cada vez maiores. Nesse momento estou bem no centro desse triângulo e consigo mais uma vez atravessá-lo vencendo todas as forças de atração. Finalmente consigo ultrapassar o Triângulo das Bermudas.

             Como de costume, deixo vinte e cinco centavos ao Mané Leleco que a essa hora já despertou-se de seu sono sob a brisa da noite e já assentou-se no duro banco de concreto próximo ao círculo-canteiro da Praça 15 de Novembro. Na verdade, o único banco que ficou intacto na praça. E isso graças ao cuidado do Leleco. Afinal, a turma da noite tem muito respeito por ele e às vezes eu percebo que ele exerce um certo fascínio em muita gente. Olha só! Lá está ele em sua pose costumeira... perna cruzada, sapato furado, barba por fazer, rosto inchado, absorto em seu mundo. Que mundo será o seu? Que dimensão? Que galáxia? Que órbita?

-          Bom dia Leleco! Dormiu bem?

-          Sabe que nem vi a noite passá, cara!

-          51?

-          Só uma garrafa! Só umazinha mesmo! Não tô mentino, doutô! Pode passá pra cá as moeda que vô comprá pão! Prometo! Palavra do rei da 15 de Novembro...

-          Majestade, sinto informar-lhe que hoje as condições sócio-econômicas do país permitiu-me trazer apenas vinte e cinco centavos. Sua alteza recebe tal donativo?

-          Num é muita coisa, mas vá lá!

Passa o pão, passa a carne, passa o leite, passa o caminhão do supermercado, passam as pessoas, passa o carro-forte. Todos vêm e vão, os pássaros cantam, voam e o Leleco se despede:

-          Bom trabalho, doutô!

Trabalho? Ah! É mesmo... o trabalho! Puxa já estou atrasado. Tenho que me apressar e sair do compasso rítmico do meu corpo. A barriga já não acompanha os passos e nem o ombro se movimenta de acordo com a cadência da batata da perna e sua dorzinha latejante. Um, dois, três! Um, dois, três! Sinal fechado! Paro, espero, formo com a multidão que se aproxima uma verdadeira massa uniforme de gorduras, ossos e esperanças. Sinal verde! Esperança? Não! Não! É sinal para ir à frente... Passos e mais passos, pernas e um interminável número de cores e me lembro do poeta: “Pra que tantas pernas, meu Deus?”

Paro finalmente ao pé da escada que conduz à uma porta cinzenta. Trinco e maçanetas douradas, faixa e letreiro negros com belas letras brancas que constrastam com um pequeno jardim em um pedaço da calçada. Ali vejo algumas formiguinhas carregando o resto de um besouro morto...

 

Penso, medito por alguns segundos e... e... e finalmente... abro a porta e sou engolido por ela.