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MUSEU

- Muito bem... bom dia a todos! Desculpe! Estou ainda com a mão suja, sabe? É que acabei de comer meu sanduíche matutino e tomar meu café. Sabe como é... temos que garantir o tamanho da pança... Afinal ninguém é de ferro. E eu fico aqui a noite toda. É... acordado! Eu não sou guarda noturno? Tenho que ficar acordado, uai. E... bem... tem noite que o sono toma de conta e, e, e às vezes a gente dá um cochilinho, sabe? Mas é coisa de dez minutos, no máximo. Bom, agora podem entrar que a Dona Lucélia já está esperando vocês lá no pátio.

- É lá que começa a visita?

- Quem é você?

- Sou a professora desses alunos.

- Ah!... é... é sim, é lá no pátio. Pode ir direto com eles, peguem ali naquela mesinha os folders e se precisar de água, tem o bebedouro e os banheiros à esquerda, no final do corredor. Não toquem em nada e... ah, bobagem! A Dona Lucélia vai dar todas as informações.

- Obrigada. O senhor vai embora agora?

- Não. Eu fico aqui na porta até o porteiro chegar, às 8 horas. Só aí vou para casa. Bom passeio pelo museu! É muito bacana andar por aí vendo esse monte de coisa antiga. Eu gosto... Principalmente quando tem barulho...

- Obrigada.

- O que ele disse?

- Nada, não. Vamos!

- De nada.

É... mais um dia daqueles, como todos os outros. A única diferença é que já fazia tempo que não vinha tantos alunos visitar o museu. Até parece que ninguém mais tem interesse por coisa velha, objetos antigos e traste que um dia pertenceu a alguém importante e hoje é, como diz o doutor Márcio Bomtempo, “uma relíquia”. Tem outra palavra que ele gosta de usar... é... ah, sim... é “preciosidade”! Gosto muito do doutor Márcio, gente boa... ele gosta de conversar comigo e, aliás, é o único que conversa comigo, o único que às vezes vem aqui à noite para ver como estão as coisas.

- Se precisar de alguma coisa, é só ligar. O senhor tem meu número!

- Sim, senhor, doutor Márcio. Pode ficar tranqüilo que vou cuidar de tudo isso aqui com prazer e alegria. Principalmente depois que receber meu salário.

- É mesmo?

- Brincadeira, doutor Márcio! Gosto daqui. Afinal, passo a noite toda sem fazer nada. E... Quer dizer... não é bem sem fazer nada, mas não é um serviço pesado, tipo enxada... Entende? Mas vigio tudo, de forma bem tranqüila. E se tiver barulho e eu achar que é bandido, meto bala!

- Cuidado, qualquer coisa ligue para a polícia.

- E quem vai querer roubar coisa velha, doutor? Aliás, até a polícia chegar aqui os bandidos tão longe... Se a polícia vier! Sabe o que aconteceu esses dias, doutor?

- Hum...?

- Acordei de madrugada ouvindo gente andando no telhado de casa!

- E o que você fez?

- O otário aqui? Ora, liguei para a polícia e sabe o que a trupe disse? Sabe? Que era para a gente dar uns gritos, ligar a luz, acionar o alarme que o bandido ia embora. Ah se acontece isso aqui eu passo fogo! Nem que eu quebre um monte de coisa.

- Calma! Cuidado, você não sabe quanta riqueza tem aqui. Não somos um Louvre, mas...

- O que é isso? Luvre?

- É um museu na França, o melhor de todos! Não tem nem comparação com o nosso, mas tudo é museu e todos eles guardam uma preciosidade.

- É... se o senhor tá falando...

- Bom... estou indo. E não se esqueça, qualquer coisa é só ligar. Não vai passando fogo assim tão fácil, viu? Ainda mais depois daquele noite, é preciso ter cuidado e lembrar que talvez não seja nada, um rato, um gato, enfim... qualquer coisa normal!

- Sem problema, doutor. Boa noite!

- Boa noite!

(...)

- Dona Lucélia! Dona Lucélia! Ah, pessoal... desculpa aí interromper vocês! Aqui estão as chaves, D. Lucélia. Eu já vou porque seu Isaque já chegou e a senhora sabe, preciso estar cedo em casa, se não a “patroa” briga comigo e depois que eu contei a história do barulho no casaco do cangaceiro, aí a gurizada não me deu mais trégua, querem saber tudo direitinho e...

- Que barulho?

- Barulho?

- Onde?

- Crianças! Por favor, fiquem tranqüilas que não há nenhum problema, não é Dona Lucélia?

- Não, claro que não! Isso foi só um mal entendido e já descobrimos o que foi.

- Foi fantasma? Foi, seu guarda?

- Ah, isso eu não sei, mas que foi estranho foi, ainda mais...

- Geraldo! Por favor, não vai querer assustar as crianças, vai?

- Não, claro que não, Dona Lucélia, eu já estava de saída.

- Ah, eu quero saber!

- Eu também!

- Se não contar não vamos visitar o museu, não é pessoal?

- Isso! É isso aí!

- Crianças, por favor...

- Que nada, professora, a história aí vai ser muito mais interessante.

- É... meu pai disse mesmo que aqui nesse museu tem fantasma!

- Igual ao que apareceu para meu tio lá na roça. Ele contou para nós esses dias.

- Gente, por favor, fantasmas não existem!

- Qualé, fessora! Claro que existe.

- Ei.... e a história do guarda?

- Isso mesmo! Conta! Conta! Conta!

- Conta!

- Bem...

- Geraldo!

- Mas eles tão pedindo, Dona Lucélia!

- Isso mesmo! Se não não vamos visitar esse museu!

- Tá bom, mas seja rápido! Você mesmo disse que a “patroa” está esperando,  não é?

- Fica fria, a patroa vai entender. Foi o seguinte: Dia desses eu tava fazendo a ronda.

- Que hora era?

- Cala a boca, deixa ele contar!

- Cala a boca você!

- Psiu!

- Ah... era lá pelas duas da manhã. Porque é assim: eu começo aqui às dez horas da noite. Faço a limpeza, organizo o que está fora de ordem e como meu lanche. Entre meia noite e uma da madruga saio para a ronda. É demorada porque paro e fico olhando os mínimos detalhes, quer dizer, se as coisas tão nos lugares certos, se alguém não estragou nada, se falta alguma coisa. Eu conheço todas as peças desse museu, uma por uma. E toda noite eu passo na frente do cangaceiro.

- Que cangaceiro? Lampião?

- Explica aí, Dona Lucélia quem é ele.

- Na verdade é uma homenagem que museu fez aos nordestinos em geral. Não se trata de Virgulino, nem de uma apologia ao cangaço...

- Apologia?

- Fique quieto!

- Mas eu não sei o que é apologia, o que é, professora?

- É um elogio, uma manifestação em favor, quer dizer, valorizando o cangaço. Vocês se lembram que estudamos isso nas aulas, não é?

- Bom, continuando, não se trata, então, de uma apologia, mas de uma lembrança do que ocorreu no Nordeste brasileiro, tendo em vista o descaso da Coroa e depois da República para com os sertanejos em geral, para com a seca. Então a figura do cangaceiro evoca o sofrimento do nordestino tanto em sua terra quanto nos estados para onde se retiraram, como São Paulo, Distrito Federal etc.

- Tá bom, mas e o fantasma?

- Bom, quanto a isso é com o Geraldo aí.

- Aleluia! Pensei que não ia terminar a história.

- Cala a boca!

- Cala você!

- Psiu!...

- Bom, gente, aí, quando cheguei na frente do cangaceiro, notei que tinha alguma coisa diferente. Parece que ele estava levemente virado para a esquerda. Pensei comigo: mas hoje é sexta-feira, dia em que o museu não abre para visita, ninguém de fora entrou e a faxina é feita só no sábado. Quem mexeu nesse danado? E olha que se alguma coisinha tiver saído do lugar, eu sei!

- E o que foi, seu Geraldo?

- Calma! Aí, fui lá na recepção ver se alguém tinha deixado algum bilhete. Nada! Não tinha nada! Aí nesse momento ouvi um barulho. Corri lá com a lanterna e não vi nada. Fiquei olhando para o danado e nada! Tudo quietinho! E sem barulho! Silêncio total...

- O senhor não tem medo não? Não ficou com medo?

- Que nada! Eu não tenho medo de nada! Já entrei até em cemitério de noite.

- Vai, conta logo o resto!

- Bom, aí voltei até o canto da parede e fiquei de espreita, quietinho, só com a orelha ligada. Desliguei a lanterna e fiquei quieto. Depois de uns minutinhos começou o barulho de novo.

- Como era o barulho?

- Era parecido com corrente sendo arrastada... rrrrroooooocccccc!

- O que o senhor fez?

- Corri lá e quando acendi a lanterna, o barulho parou. Olhei para os olhos do danado e ele tava me olhando, pexera na mão, espingarda na outra e o chapéu de couro. Virei para ele e disse: Se mexer uma palha, te passo fogo, bicho feio! Vai, mexe agora! Faz aí o barulho!

- E aí?

- Nada! Não fez nada. Quietinho... Foi aí que tive uma ideia: dei a volta, desliguei a lanterna e fui bem devagar até a sala dos pioneiros.

- Pioneiros?

- Isso! Temos uma sala em homenagem aos pioneiros da cidade, isto é, aos primeiros colonos que vieram para estas bandas e assentaram suas famílias, como a família dos Valadares.

- Dona Lucélia, eu sou dessa família

- Muito bem! Então seus ancestrais, enfim, toda a família, que é uma pioneira, está homenageada nessa sala. Temos ali... depois nós vamos lá vê-la, tudo bem?

- Oba! Quero ver essa sala!

- Temos lá fotos antigas, móveis, cartas e objetos pessoais das principais famílias tradicionais que ajudaram a fundar e a desenvolver o município.

- Tem foto dos Passini?

- Claro! Foi a primeira família de italianos. Sabe a Quinta Del Valle? Onde tem aqueles pés de uva?

- É do meu primo!

- Então... foi a primeira estância dos Passini. Quando estivermos na sala, conto mais, vamos deixar o Geraldo terminar a narração dele, que ele tem a “patroa” esperando... Não é, seu Geraldo?

- Então... onde eu estava mesmo?

- Na sala dos pioneiros!

- Ah, é... fui bem devagar para lá, escondi atrás da parede, abaixo da vidraça e fiquei olhando... Tava muito escuro e não deu para ver direito, mas o casado do danado começou a se mexer, balançando de um lado para o outro... aí começou o barulho do novo!

- O que o senhor fez?

- Nessa hora, o cabelo do braço deu uma arrepiada... Mas eu pensei: seja homem, cabra! Nenhum bicho do outro mundo, do além, vai te assustar não! Até parecia que tava saindo fogo dos olhos do danado...

- Os olhos brilhando?

- É... que nem fogo de corisco! E o barulho aumentou... parece que o danado aumentou de tamanho e virou pro meu lado!

- Nossa!

- É...

- O que o senhor fez?

- Borrou a calça?

- O quê???  Que borrou na calça, menino, eu sou macho! Nessa hora, confesso que deu só um medinho, bem pequeno, só um arrepio dos cabelinhos do braço. Nesse momento levantei e dei um grito: chafurda Lampião!!!

- Uau!

- Sinistro!

- O que aconteceu?

- Ah... nessa hora o barulho dobrou, o danado deu rodopia e caiu no chão! Corri lá, acendi a lanterna e não vi mais nada! Tudo parado!

- Não tinha nada?

- Não. Só o danado no chão. Levantei ele, coloquei no lugar e o resto da noite ficou quieta, tranqüila como todas as outras noites. Foi só isso!

- Crianças, não se iludam com essas histórias. No outro dia solicitamos a presença do doutor Márcio, nosso diretor, para uma investigação. Ele deduziu que foi ação de alguma ratazana. O barulho era do animal tentando roer a roupa do cangaceiro que, como vocês sabem, é feita de couro cru. E, claro, quando o Geraldo aproximava, o animal ficava quieto. E quando nosso querido vigia deu seu grito assustador, acho que qualquer um assustaria, até uma possível alma penada, a ratazana se assustou, deve ter virado, derrubado a estátua e fugiu.

- Conversa, Dona Lucélia, eu que presenciei, sei o que aconteceu. Não acredito nessas lorotas do doutor Márcio, com todo o respeito! Rato? Rato fazer um barulhão desse? Vem com essa não!

- Que legal! Podemos um dia passar a noite aqui, professora?

- Claro que não, não é Dona Lucélia?

- Isso mesmo, é contra o regulamento. Só o vigia noturno passa a noite aqui.

- Mas a gente vem e fica com ele! A gente faz a ronda com ele, visitando todo canto do museu, que tal? Aí ele vai contanto as histórias...

- Não. Sugiro que façamos isso agora. Vamos começar nossa visita. Bom dia, seu Geraldo! Lembre-se que a “patroa” está esperando e o porteiro já chegou há muito tempo!

- Tchau, seu Geraldo! Valeu, hein!

- Legal, foi muito legal! Agora a visita ficou interessante!

- Ei, dona, podemos começar pelo cangaceiro?

 

- Ok. Vamos lá!