ATLECA

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PIÃO

-        Você notou como ele ficou diferente? Olhou no relógio diversas vezes antes de sair. Não falou com ninguém, nenhum de nós. Só deu desculpa de que ia ao banheiro e sumiu.

-        O que você acha que é?

-        Não sei.

-        Não suspeita nada?

-        Não.

-        E você me chamou aqui só para isso?

-        Como assim só para isso? É nosso pai! Você não está preocupado?

-        Preocupado com quê? Ele está saudável, está tomando os remédios, vai ao médico e agora sai todos os dias. Por que vou me preocupar? Só porque ele sai e não fala nada para você? Afinal, você me fez sair de tão longe, deixar o trabalho, as crianças e vir aqui para isso? Ora, ora, meu irmão, tenho mais o que fazer.

-        Acontece que ele ficou diferente depois que começou a sair. Você se lembra como ele era: ranzinza, gostava de ficar só cuidando da horta e depois ia ver televisão. Saía para comprar o leite, conversava com o vizinho e pronto! Era o dia normal dele, de todos os dias! Sem interrupção ou mudança! E aí...

-        Ele mudou, ficou diferente, mais efusivo, mais serelepe e tal... Você já contou isso umas duzentas vezes.

-        E isso não parece estranho?

-        Meu caro George, vindo de nosso pai, tudo é estranho. Você sabe que saí cedo de casa e raramente venho aqui. Como vou saber se está estranho ou não. Sei lá... talvez seja uma... mulher!

-        O quê? Uma mulher?

-        É... uma mulher! Alguma vizinha que deu bola para ele e ele ficou empolgado. Talvez uma aposentada, viúva ou solteirona, sozinha, precisando de alguém, entende?

-        Você está maluco? O velho tem oitenta anos...

-        E daí? Ela não pode amar de novo?

-        Você fala como se fosse normal, natural... Não tem respeito por nossa mãe?

-        George! Mamãe faleceu há vinte anos! E você não aceita que papai possa ter um caso depois de tanto tempo?

-        Como você é ingênuo... Nessa idade, o que ele arranjaria era uma qualquer de olho na casa ou na chácara. Acorda Bruno! E se for uma prostituta querendo tirar dinheiro dele? Já olhou no cofrinho dentro do guarda-roupa?

-        É lá que ele guarda o dinheiro? Parece que você falou disso uma vez...

-        É isso mesmo. Não olhei ainda, mas vamos lá verificar.

-        (...)

-        Incrível! Está tudo aqui, não falta nada.

-        Com certeza não é a meretriz.

-        Que meretriz?

-        A hipótese, Bruno!...

-        Ah, sim...  e você já conversou com ele?

-        Ainda não.

-        O que vamos fazer?

-        Não sei.

Janelas convencionais. O detalhe fica apenas para as venezianas internas de madeira a tampar um pouco a entrada da luz solar. Do outra lado, o bambu de jardim dá tom no parapeito e sobe pelas gretas das pedras rústicas que revestem a parede do belo casarão. Tomás Quirino de Albuquerque e Silva, um dos nomes históricos da cidade, pioneiros de sua formação e produção econômica. Cidadão congratulado pela Câmara de Vereadores e sempre procurado pelos estudantes das escolas de ensino fundamental para falar dos fatos e acontecimentos da cidade. Dois filhos apenas, um logo no início do matrimônio com Eurídice Garcia de Andrade, a quem deu o nome de Bruno. Foi educado na melhor escola e auxiliava o pai na administração das terras que possuía. Porém, a primeira desilusão amorosa com a colega de classe na escola secundária o fez fugir para a capital, onde residia uma tia distante, e tentar a vida. Por um lado, deu certo: formou em Direito, após um longo percurso de subempregos até poder pagar a faculdade. George veio bem depois e seu nascimento provocou a morte da mãe. Talvez por isso nunca tenha saído de casa, mas dedicou-se como um bom filho, estudante, ajudando o pai e até hoje administrando o pouco que resta da admirável “Quinta da Boa Vista”. Era realmente uma boa vista: dois quilômetros fora da rodovia, após um morro por nome de Morro da Cascavel, qualquer um podia ver o vale pintado de branco com algumas cabeças de gado, mas também de patos, galinhas, cavalos, porcos e ovelhas. Tinha até um casal de pavão! Não se sabe por que os ovos nunca chocaram. Ao fundo da casa, uma represa repleta de peixes.

Tão pitoresco como a janela dessa casa de onde os dois irmãos viram assombrados o velho pai voltando em disparada. A casa ficava numa viela escondida entre duas ruas principais. Sempre gostou de silêncio e ali fez sua espaçosa casa, escondido pelas árvores e pelas trepadeiras que já cobriam os tijolos à vista. O muro que separava a calçada do jardim era baixo, não passando de um metro de altura, feito todo de adobe com pedras. O portão de madeira ainda guardava as marcas das mãos de Eurídice, assim como toda a decoração faz lembrar sua presença. Quando saía para fazer compras, o pequeno Bruno ficava a fitar sua esguia mãe através das frestas por onde ambos agora vêem o retorno do pai.

-        Aí vem ele! O que vamos fazer?

-        Não dá tempo de sair!

-        Prá baixo da cama!!!

-        O quê?????? Está louco???

-        Claro que não! Anda logo, vamos!

-        (...)

-        Será que ele nos viu?

-        Claro que não. Vamos sair daqui. Ele já se foi!

-        Olhe isso: Ele deixou a porta do guarda-roupa aberta e uma caixa de sapatos. Vamos ver o que tem nela...

-        Tem certeza de que é correto abrir o olhar as coisas do velho?

-        Claro que sim! Afinal, é para uma boa causa. Precisamos saber o que o que tem aqui e...O quê? Pião???? O que o papai está fazendo com esses piões?

-        Não tenho a menor ideia.

-        Sabe de uma coisa, meu irmão? Isso me lembra de quando o velho fez um pião para mim. Acho que tinha uns oito anos, talvez nove. Não esqueço do momento que perdi um que tinha e vim chorando da escola. Papai me confortou e disse que faria um bem melhor, mais forte e com um prego na ponta.

-        Ele fez?

-        Claro que fez! Bem bonito... Eu pintei de azul e fui lá pra revanche e sabe o que aconteceu? Ganhei três rodadas com aquele pião enorme e bonito.

-        Será que ele está fazendo pião para vender? Não posso acreditar que ele, com toda sua ranzinice, moléstias e desilusão esteja brincando disso.  

-        Vamos segui-lo e logo saberemos. Isso é muito estranho...

-        Então vamos rápido porque ele já deve estar bem longe. Você não viu? Ele saiu em disparada. Até parecia uma menino.

À direita, à esquerda, vira aqui, vira acolá e dois seguem os rastros do velho pai.

- Viu meu pai por aí?

- Bom dia, George! Ah, vi sim. Ele saiu daquela loja com um cordão na mão e foi para o lado da praça do posto de saúde. E olha que ele estava com pressa! O que deu nele?

- E o que vamos ver.

Duas quadras depois o que se descortinava era um velho posto de saúde no centro de uma praça depredada e mal cuidada pelo poder público, como sempre acontece. Algumas poucas árvores faziam sombra aos esquálidos bancos de concreto colocados ali há algumas décadas. A propaganda do patrocinador do banco, não dava mais para ler. Velhos tempos nos quais a Praça dos Goyazes reunia pessoas. As mães levavam suas crianças e os jovens iam para se encontrar, conversar e comer pipoca. Sentados nos bancos, os idosos conversavam lembrando os tempos de jovens. Até o juiz era uma presença constante que vinha jogar xadrez com o padre Joaquim e o Sr. Adalberto, gerente da Caixa Econômica. A praça teve seu tempo de glória, tempo de grama bem cuidada e árvores podadas no período certo.

- Boa noite, dr. Vargas, como vai?

- Ah, seu Pedro, levando a vida como todo mundo. Mas o pior é que tenho que cuidar das doenças do povo, né?

- Pior ou melhor? Afinal o sr. ganha um dinheirão com o medicina, talvez mais que o dr. Ortêncio que só pensa no xadrez.

- Ta enganado, seu Pedro. Senta aqui no banco! Vou te contar como as pessoas me pagam. Aliás, falando em pagar, vou pagar um picolé ao senhor. Aceita?

- Claro!

- Seu Maneco! Dois picolés aqui!

Bruno era bem pequeno mas lembra de tudo isso. Mas agora no lugar onde era um belo chafaris, está isso que chama de Estratégia de Atendimento à Família. O posto já foi construído bem depois, mesmo assim incorporou o desgaste e o descuido da praça, das ruas e da cidade. Tudo parece deteriorado e nada escapou ao relance de Bruno.

- Mas o que é isso? Quanto tempo não via a velha praça. Era aí que eu vinha com meus colegas da escola e nossos carrinhos de rolimã... Mas olha só: as pedras estão soltas, os bancos quebrados e até as árvores parecem coisa de cemitério.

- Ah, mas o cemitério está bem cuidado. Você precisa ir lá para ver.

- Por quê?

- Porque enterraram a mãe do deputado João Nosella. Sabe quem? Aquele fazendeiro lá do Rio das Pedras.

- O boi-tatá?

- É, mas ninguém chama ele desse nome mais. Você sabe... deputado! Político influente que prometeu inclusive reformar essa praça, mas já é o segundo mandato e continua aí a pracinha.

- Veja lá! O papai está naquela roda de velhos e meninos. O que estão fazendo?

- Vamos chegar mais perto...

 (...)

Como um movimento de pernas saídas de um poema de Drummond, as pernas infantis se misturavam às pernas ágeis dos idosos que faziam uma roda ao redor de seu Quirino para vê-lo jogar graciosamente o pião. Na infância tinha sido campeão na escola e adolescente ensinou a muitos a arte de lançar, fazer rodar, preparar a corda e até construir da madeira bruta o tão adorado brinquedo. Todos os que ganhou, num total de vinte, foram guardados no velho guarda-roupa. Se não estavam todos lá, talvez que sua bondade foi tão grande que se dispôs de alguns. Bruno não esquece o seu, e George tinha um deles também guardado. Era firme, com arame na ponta. Recorda bem quando seu papai tirou o canivete e se pôs a fazer o brinquedo. Foram dois dias de trabalho árduo, mas ficou uma perfeição. Com ele o menino se divertiu e ganhou algumas “paradas” na escola e na rua, tal como seu irmão mais velho. Mas a infância se foi e o pião não significou mais nada, por isso foi guardado, melhor, jogado numa caixa de sapato e colocado na despensa do fundo do quintal. O pião ocupa agora apenas um pontinho isolado e distante na memória desses dois homens feitos e formados. Afinal, são homens! O que fariam com um pião?

- Então é isso... não tem nada de mulher na história. E você preocupado por nada.

- Nada? Você chama isso de nada? O papai está fazendo papel de palhaço. Homem de respeito e influência na cidade, fica aí nessa situação a expor aos outros? Devia estar em casa... Depois vão fazer gozação da minha cara. É... devia estar em casa cuidando, sei lá, de alguma coisa!

- Cuidando de quem, de você, menino mimado? Cuidando das galinhas na chácara, com a idade que ele tem? Olha, mano, posso ser distante, morar longe, não escrever muito, não ligar o suficiente e etcétera e tal, mas sei reconhecer a felicidade de alguém. E pra mim ele está feliz. Olha lá!

- Que veio bom, cara!

- Olha só que manero!

- Acho que nem eu consigo fazer isso.

Até o chaveiro deixou seu laborioso trabalho em copiar algumas chaves que tinha para entregar a Dona Constança no final da tarde para admirar o movimento juvenil de seu Quirino.

- Vai Quirino! Mostra para esse bando de moleques como se faz isso! Eu também já fui bom, mas não sei se consigo mais.

- Por que não tenta veio gabola?

- Pera aí moleque que vou mostrar para você quem é bom.

(...)

 

Entre as gerações o pião roda e roda...