Publicações

Trânsito, analfabetos e a educação

            Muitos já esqueceram a posse de Cristovam Buarque, no MEC, no início do governo Lula. A fala inaugural  do ex-ministro  foi deveras significativa porque deixou transparecer uma preocupação real com os problemas brasileiros e deu-nos a impressão que o novo governo conhecia de fato esses problemas. Outro ocupa a pasta atualmente, o ex-ministro não materializou nada mas a significação de seu discurso ficou registrada.

 

Foi emblemático quando afirmou: “Não é possível que um país que tem a mesma língua, fabrica aviões, tem hidrelétricas, tem tanta riqueza, não consiga fazer com que todos os adultos leiam.” Este é um problema brasileiro. Ou seja, tanta riqueza, tanta produção industrial, uma das maiores economias do planeta, o quinto maior país do mundo, o maior produtor de tanta coisa e que não consegue acabar com o drama do analfabetismo. 20 milhões de analfabetos totais, sem falar dos filhos do Mobral que mal desenham o nome e não conseguem sequer ler uma carta. Além desses existem os funcionais que lêem e escrevem, mas não conseguem interpretar o uso social da linguagem. Tal análise afunila-se cada vez mais na medida que vamos acrescentando critérios e especificidades do ato de ler, do ato de escrever, e para ser mais direto, do ato de relação entre o emissor e o receptor. A leitura não se dá somente pela decodificação de letras, sílabas e palavras. Nem podemos falar de linguagem pura e simplesmente, mas sim de linguagens comunicativas porque a sociedade atual utiliza-se de diversos mecanismos que englobam cores, figuras e diversos outros elementos sígnicos  utilizados pela mídia como linguagem.

 

Se, portanto, há analfabetismo em todas as áreas do conhecimento humano e em todos os segmentos da sociedade, deixa de ser um demérito da escola. Nesse ponto o ex-ministro foi bombástico quando exteriorizou um sentimento que muitos educadores possuem no âmago: ”Nós temos que levar a Educação além da escola”. Dessa forma, o MEC torna-se talvez o ministério mais relevante e com o maior desafio a ser enfrentado. Educar a sociedade, educar o povo, alfabetizar no sentido lato da palavra trabalhando todos os signos comunicativos,  fundindo a palavra educação com a palavra cidadania. A tarefa  é árdua e por sua complexidade exige a concretização de um pacto social com envolvimento de todos. Como alfabetizar para a cidadania evoca diversos significados, vamos tentar fazer aqui uma análise tomando somente um aspecto da dimensão educativa: o trânsito.

 

Ao sair do âmbito da escola, a educação vai dar de cara com a rua. De cara com o movimento das vias de circulação e vai logo descobrir que é aí onde se encontra o maior número de analfabetos numa infinidade e diversidade espantosa. Os uni ou multi analfabetos, os funcionais, os totais, os mobrais e tantos outros analfa de pai e beto de mãe diuturnamente atrás de um volante, conduzindo uma máquina (muitas vezes cheia de gente) a colocar em risco a vida de cidadãos.

 

Diante da constatação desse fato, um trecho do discurso traduz a preocupação não só do ministro mas de muitos em torno do tema colocado:

 


”A educação é o respeito mútuo no trânsito.(...) Se a gente conseguiu aprender a respeitar a faixa de pedestre, podemos aprender a não jogar lixo na rua, a não buzinar demais no carro, a respeitar um ao outro, a achar que a escola é um instrumento de alegria e não de sofrimento. Nós podemos sim educar a própria Educação.”

 

 

 

            Dada a importância da afirmação, quero repetir a última frase: “Nós podemos sim educar a própria Educação.” Porque nesse ponto a política de controle, administração, desenvolvimento e educação do trânsito têm sido por décadas e décadas um trabalho que se assemelha à educação jesuítica dos primeiros séculos no Brasil ou aos primeiros ensaios pedagógicos da Europa na Idade Média. Nesse período  a linha divisória entre o cárcere e a escola era muito tênue e a política de controle de ambas era semelhante: vigiar e punir (Foucault). Se os processos educacionais escolares mudaram com o passar do tempo, tentando uma gama de idéias e tendências  pedagógicas, não podemos dizer o mesmo da pedagogia do trânsito, que por sua vez continua nos moldes grotescos e jurássicos do passado.

 

Enquanto os processos de aprendizagem e as relações cognitivas psico-sociais evoluíram consideravelmente na ótica da construção do conhecimento, na lógica da interação e da conscientização, muitas escolas ainda praticam a lógica do vigiar e punir, considerando o aluno como um peralta, um desordeiro e um burro em potencial. Assim é a escola do trânsito, a qual, partindo da premissa de que todo condutor é um infrator em potencial, prefere a ação preventiva da vigilância constante através de inúmeros “pardais” e lombadas eletrônicas espalhadas pela cidade e rodovias.

 

Não entro no mérito do dever ou não dever. Do certo ou do errado, até porque é uma disposição legal. Se formos analisar os benefícios, temos que concordar que houve um avanço considerável, como por exemplo a idéia de pontos na carteira que se revelou uma novidade bem plausível e eficaz Mas o código em vigor no Brasil é cópia quase fiel do código estadunidense e canadense, e traçando um paralelo verificamos que os valores aplicados às multas são parecidos com os da América do Norte, o que nos faz  ficar quilometricamente em desvantagem. Enquanto o salário mínimo aqui patina em torno de quatrocentos e poucos reais e muitos são os que sobrevivem com ele, o mínimo canadense é de novecentos dólares, valor meramente referencial tendo em vista que a média salarial gira em torno de  três mil dólares.

 

Retomando a questão levantada pelo ministro sobre o analfabetismo existente em nossa sociedade e da necessidade de eliminá-lo, é preciso combater portanto o analfabetismo existente no trânsito. Não pela via da vigilância e da punição a qual tem sido utilizado por décadas e décadas e não tem surtido muito efeito. Não há, por exemplo, uma pesquisa séria se realmente a colocação de tantos radares, pardais e lombadas eletrônicas tenha diminuído o índice de acidentes. Se há, não foi amplamente divulgada nos veículos de comunicação. Se há, então faltou a comunicação, faltou a ação informativa e educativa.

 

Enquanto isso as máquinas fotográficas não param. Multas e mais multas são emitidas, enviadas e a população não é informada de quanto é arrecadado mensalmente, para onde vai o dinheiro, se é empresa particular ou estatal quem administra, se é da iniciativa privada qual é a participação dos órgãos governamentais, quanto é gasto na área social, quanto é gasto na recuperação e ampliação das ruas e estradas. Não se sabe muita coisa dessa movimentação financeira que talvez resulte em alta lucratibilidade. Enquanto isso, as ruas pavimentadas continuam esburacadas, os bairros distantes sem asfalto, os canteiros sem plantas e, enfim, o trânsito sem humanização, educação, reeducação e dinamização.

 

A ação pedagógica que deve ser implantada para atacar o analfabetismo deve partir, primeiramente, por uma campanha esclarecedora a respeito das questões acima levantadas. Em seguida, uma recuperação imediata das vias urbanas e rodovias; humanização das ruas com o aumento de arborização, jardinagem, diminuição da poluição visual e reestruturação que facilite o acesso, o estacionamento e o trânsito dos veículos. Depois dessas medidas o envolvimento deverá passar por uma ampla campanha de conscientização que valorize o respeito mútuo, o respeito à faixa de pedestres, o respeito a calçadas (sem invasão de mesas de bares e bugigangas das lojas) e o respeito à vida. Uma campanha que eduque os motoristas a não buzinarem, não gritarem ou xingarem seus companheiros de trânsito, dentre outras. E, para isso, as escolas devem ser mobilizadas, o Corpo de Bombeiros, a Polícia Militar, os jornais e as emissoras de TV, os escoteiros-mirins, o Rotary, o Lions, empresas de ônibus, as ONGs diversas e toda a sociedade. Dessa forma, a educação estará realmente saindo do antro da sala de aula e adentrando as ruas da cidade. Seremos, como Paulo Freire defende, uma cidade educativa.

 

Minha admiração pelo discurso do ministro se dá porque, com sua inteligência e sensatez, Cristovam entende que o problema que enfrentamos possui raízes profundas, históricas e culturais. Portanto, vigiar e punir o trânsito seria, numa analogia com a ação de alfabetização, o mesmo que mandar ao “seu” Benedito, aposentado pelo Funrural, uma multa de trezentos reais por não ter lido a palavra paralelepípedo sem tropeçar em nenhuma sílaba. Não é o caso de isentar infratores. Mas sim de compreender que assim como o analfabetismo na escrita o analfabetismo no trânsito é o resultado de longas décadas sem uma ação educativa eficaz que passasse esses valores, que promovesse uma convivência pacífica entre o carro, o pedestre, o ônibus, o micro, o carrão, o carrinho, a bicicleta, a moto e a própria rua. É preciso atacar as causas e não os efeitos.

 

Mais do que isso, é urgente uma conscientização por parte das autoridades no sentido de minimizar o caótico, para não dizer infernal, trânsito de Goiânia – cidade que mantém praticamente as mesmas vias públicas e o mesmo sistema de transporte coletivo há 30 anos! Urge um engajamento da sociedade civil, isto é, das organizações, associações, comunidades e todos os tipos de grupos sociais a fim de cobrar do poder público uma ação eficaz que não fique apenas em belos viadutos em bairros nobres da capital. Ao contrário, isso não é analfabetismo político, é má administração e abuso de poder.

 

E, por fim, como a cada ano centenas de novos condutores (em sua grande maioria composta de jovens que completam dezoito anos) são lançados pela vias com suas carteiras compradas,  a ação educativa jamais poderá esquecê-los. Quero finalizar com a fala de Cristovam, ao entender o papel do jovem na transformação social, que afirma:

 

Não há revolução sem juventude. Não partirá dos professores, dos ministros, do presidente, uma revolução conseqüente, se nós não tivermos uma mobilização ferrenha dos dois milhões de estudantes universitários que o Brasil tem hoje e que muitas vezes ficam quietos, calados, diante de tantos desacertos. Eles que se mobilizaram para derrubar um presidente, que até se mobilizam contra a Alca e o FMI, têm que se mobilizar contra a fome, a pobreza, contra a falta de Educação, não só dentro da universidade, mas no Brasil inteiro. Eu quero conclamar, desafiar os universitários brasileiros, a que sejam a vanguarda da revolução que está começando. Que não descansem, que se mobilizem, exijam, cobrem, para que esse país consiga caminhar na direção que nós todos temos a esperança que vai seguir nesses próximos anos.