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VIL METAL

O dinheiro – como o diabo – tem muitos nomes. Alguns remetem à história: prata, cobre, vintém, níquel e tostão evocam moedas antigas; pecúnia e pecúlio, lembram o valor do gado (pecus) entre os povos antigos. Numerário, bens, reserva e fortuna estão nos compêndios de economia. Grana, caraminguás, tutu, bufunfa, bagarotes e paus nasceram nas ruas, nas esquinas, nos botecos. Nestes, há certa dose de irreverência, expressão do desejo do povão de tê-lo consigo – ao dinheiro –, sempre difícil e vasqueiro no bolso do cidadão comum, o pobretão de cada dia.

Faz exceção a esse conjunto de bem humorada sinonímia a referência ao dinheiro como “vil metal”. Algo como a demonização da riqueza e de sua expressão maior, a pronta disponibilidade de recursos financeiros, valores conversíveis em bens e serviços dos quais poderá dispor de imediato o portador. Mas haverá sinceridade nisso?

Essa expressão pejorativa talvez tenha origem na condenação bíblica ao dinheiro e, em especial, na proibição da cobrança de juros ao povo eleito, já que em relação aos não eleitos tudo era possível. A (aparente) ojeriza foi reforçada com a condenação a Judas e seus 30 dinheiros, recebidos por entregar o Mestre às autoridades religiosas, assim dando ensejo à crucificação e morte do Senhor. A avareza estaria na raiz de tão inaudita traição; ou, de acordo com alguns exegetas da Bíblia, Satanás a inspirou diretamente.

Entretanto, foram exatamente os judeus que, ao longo de milênios, tornaram-se grandes financistas e banqueiros, emprestando fortunas a impérios e seus governantes, viabilizando empreendimentos e custeando guerras, amealhando metais e pedras preciosas, mas também patrocinando as artes e os requintes da civilização. Circunstâncias históricas – perseguições e êxodos forçados – como que os impeliram a essa opção. De tal sorte que as grandes fortunas, as maiores do mundo ocidental estão hoje em dia concentradas nas mãos de judeus e árabes, povos de origem semita que – paradoxalmente – têm nos respectivos livros sangrados contundentes condenações à usura e procedimentos similares.

Parece evidente que tal repulsa ao “vil metal” ficou para trás, ou subsiste meramente como figura de retórica. Até porque, nos dias de hoje, corre no mundo (e no Brasil, em particular) um frisson de riqueza e ostentação que derroga valores morais, anula virtudes, exalta o supérfluo e provoca turbulências, com quase toda a gente correndo atrás do dinheiro – da grana, da bufunfa, dos caraminguás.

Culpa da laicização da vida? Do hedonismo pagão? Do consumismo? Também aqui existem gradações e nuances. Há o ladrãozinho pé de chinelo que rouba a bolsa da madame distraída – e sente-se rico quando janta numa churrascaria, com picanha e cerveja à vontade. Há também o executivo da estatal multimilionária, que começou como funcionário, entrou na engrenagem de facilidades e propinas e, de repente, passou a consumir vinhos Romanée Conti, usar lençóis de algodão egípcio e voar em jatinho próprio, que ninguém é de ferro.

Em um jornal, leio a relação de objetos de luxo, apreendidos pela Polícia Federal na espetacular cobertura de um dos protagonistas da Operação Lava-Jato, alguém que recebia um percentual ínfimo das propinas “de rotina”, pagas no esquema da Petrobras. No primeiro plano, vê-se uma foto do belíssimo apartamento e, de relance, uma arca chinesa entalhada; mais além, uma escadaria ladeada por espetaculares vasos de porcelana; no alto, lustres de cristal em cascata. Sobre uma mesa baixa – de laca? – uma coleção de relógios masculinos, muitos deles com pulseiras que parecem ser de ouro flexível.

O requintado proprietário de tais luxos modestamente explicava ao repórter que o entrevistava: “Meu fraco são os relógios; o pessoal do escritório ficava de olho, invejava, comentava. Eu tenho 21, a maior parte da Suíça; dá para usar um a cada dia durante três semanas...”

O problema é justamente esse. Como nos restaurantes que servem por quilo, há um limite para a ingestão de comida e também para a fruição/exibição de riqueza. Não adianta querer ir além! Ser desonesto, privilegiar a posse do “vil metal”, roubar e enriquecer a qualquer custo esbarram na própria finitude da natureza humana. Até porque aqueles que se fazem enterrar com suas preciosidades arriscam-se a facilitar a vida dos violadores de túmulos – eles também em busca de riqueza fácil e ostentação.

 

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 18 de novembro de 2014)