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NA NOITE PAULISTANA

Saímos cedo, para chegar a tempo ao Teatro Municipal de São Paulo. Há meses, Floriano adquiriu ingressos para uma récita imperdível: em um mesmo programa, a “Cavalleria Rusticana” e “I Pagliacci”, jóias do repertório lírico.

Mesmo em horário de pico, funcionou o WhatsApp, com seus aplicativos de taxi seguro, coisa de primeiro mundo. O motorista avisa que terá de fazer um caminho mais longo, para evitar engarrafamentos e atrasos. E haja conversa. Há poucos dias acontecera o segundo turno da eleição; rapidamente, os dois paulistanos - meu marido e o taxista - identificaram-se na ojeriza aos petistas e à candidata vitoriosa. Confesso que também dei uma força.

O clima está agradável, um friozinho camarada. No centro da cidade, avançamos por estreitas ruazinhas, com prédios sujos, grafitados, decadentes, alguns abandonados. Enfim, chegamos. O Municipal, reformado, recuperou sua glória e esplendor, esbanjando mármores, lustres, bronzes e vitrais.

Falta mais de meia hora para começar o espetáculo. Nossos ingressos foram comprados em Goiânia, via Internet; é preciso retirá-los no guichê. Tudo funciona: uma bonita funcionária digita os números, senhas e códigos necessários – não sem antes olhar com olhos de estranheza para o idoso casal, vindo do planeta Goiás para um programa operístico no Municipal! Algo improvável, quando não inacreditável!

Há tempo para uma breve refeição. Perguntamos a um guarda se o restaurante do Teatro está aberto e ele responde monossilabicamente que não. Saímos por ali, meio desalentados, vendo as pessoas chegarem: predominam senhoras e senhores em roupas formais; mas há também muita gente jovem, ao que parece estudantes de música, usando jeans e camisetas, conversando animadamente sobre os cantores que se alternam durante a temporada.

Muitos espectadores dirigem-se para além do pórtico; seguimos na mesma direção. Atrás de algumas colunas de mármore, há mesinhas, cadeiras, balcões de frios e salgados, café e chá, além de mini-adegas onde é possível degustar vinhos. O restaurante efetivamente não está funcionando – mas por que o funcionário consultado não nos indicou a simpática cafeteria?  Idiossincrasia de burocrata? Má vontade? Ou simples burrice?

Tomamos nossos lugares no “foyer”, com excelente visão e acústica privilegiada. A encenação da “Cavalleria” é linda: cenário, vestimentas, iluminação, orquestra, tudo perfeito. Os cantores são excelentes, os corais, maravilhosos.  “Santuza” tem uma voz belíssima e transmite toda a carga de paixão arrebatadora que permeia a história de rústicos camponeses, inaugurando o chamado “verismo” da ópera italiana. Já “I Pagliacci” foi deslocada para o século XX, o que não pareceu uma boa idéia. Com a modernosa utilização da televisão e outros áudio visuais, a encenação perdeu em dramaticidade e o espetáculo empobreceu. Nem mesmo “Vesti la Giubba” arrebatou a platéia, uma pena.

Findo o duplo espetáculo, é hora de recorrer ao WhatsApp. Baixado o aplicativo, a resposta vem da vizinha cidade de Campinas. Floriano tenta a capital, mas não consegue. Está ficando impaciente, resmungando contra a geringonça eletrônica.  Sugiro pedir ajuda ao bombeiro, aqui ao lado – que foi super atencioso, mas também não conseguiu localizar nenhum serviço de taxi paulistano.

O tempo passava, o “hall” esvaziava-se, cerraram-se as portas do Municipal. Nas calçadas em frente, debaixo das marquises de edifícios comerciais, no outro lado da rua, amontoavam-se dezenas de indivíduos, homens e mulheres visivelmente drogados, alguns barbudos e maltrapilhos.  Uma cena deprimente, que sugeria a pergunta: onde estariam os tão incensados serviços sociais da Prefeitura petista?

Do lado de cá, Floriano, eu, o policial e o bombeiro. Nossos guardiões conseguiram entrar em contato com um motorista local, que não sabia o endereço do badalado Teatro Municipal de São Paulo. Informado de que fica na Praça Ramos de Azevedo, no Centro, queria o número do prédio! A custo, prometeu vir rapidamente; passaram-se cinco, dez minutos e nada! Eis que chega outra mensagem, dizendo que ele estava na Praça da República e que fôssemos encontrá-lo! Imaginem! Meia noite, dois velhinhos morrendo de medo, caminhando no centro de São Paulo! 

Do nada, parou um taxi em frente à escadaria; desceu o motorista, um senhor cinqüentão, e ofereceu-se para nos levar. Lembrei-me de um antigo filme de Capra, em que um anjo da guarda vem do céu para salvar o mocinho.

Parecia bom demais e dava para desconfiar. O policial interveio, conversou com o homem/anjo, anotou a placa do carro e demais referências e nos aconselhou que fôssemos para casa com o providencial chofer. E o bom sujeito nem cobrou a mais! Milagres acontecem.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 25 de novembro de 2014)