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A Arte de Contar

            Em algumas situações tive a mesma sensação de ontem, dia 23/11/2014, quando, ao terminar de ler um livro, num misto de tristeza e de alegria, arrebatado pelo espírito do texto, doce e ácido, a vontade era seguir lendo depois da última página. Desta feita, o o livro aludido é o VIVER PARA CONTAR, autobiografia de Gabriel Garcia Marquez, publicado pela Editora Record (2003).

            Quando o ganhei de presente de um amigo, sabedor de meu gosto em contar causos e de inventá-los, no momento de pegar o presente fui despertado por dois interesses: conhecer as minúncias da história de vida do velho Gabo; e compreender com mais propriedade “a técnica de romancear”.

            O introito do livro, na primeira página, assinado por GGM, acendeu o chamamento para as páginas posteriores, no total de 474. Como uma espécie de síntese antecipada – ou de aviso de viagem ao leitor, ou mesmo de um princípio lítero-filosófico, com simplicidade encontra-se sublinhado: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la (MARQUEZ, 2003, pag 6)”.

Mais a frente, quase no final do livro, esse introito se mostrou veraz. A vida de GGM atravessou o século XX no corpo flácido e tempestuoso de uma América Latina pobre. Entre assassinatos vistos, reportados, golpes militares, luta contra pobreza,   sonhos, frustrações, tentativa de harmonizar os afetos na família, decepção com o curso de Direito, paixão pela música, pela poesia, flanagem nas ruas e nos cabarés, paixões declaradas, escondidas e, especialmente amizade com gente de literatura,  GGM construiu um caminho, em que a palavra escrita, e a  arte de narrar foi tornando obsessão, modo de vida, matéria essencial e sentido estrito do seu viver.

Muito jovem ao desenvolver a luta pela sobrevivência e ativar o seu gosto pela palavra escrita, como jornalista, GGB dava os primeiros passos para criar um estilo de comunicar observando os fatos e compreendendo que, atrás de um crime passional, por exemplo, existem histórias apaixonantes. A arte de contá-las é parte de seu conteúdo. Por isso, a sua inclinação literária forçou a compor uma narrativa aceitando a nupcia complexa entre realidade e ficção.

            A ficcionalização da vida ou a realidade cruel – e crucial – posta na boca de um sujeito que diz, ou na caneta de um sujeito que escreve, dimensiona, sem dúvida, um realismo fantástico. Mais que um estilo, realismo fantástico são os episódios reais da vasta latinidade, dos fatos e dos dizeres. Aliás, o mesmo realismo o qual, ainda criança e sem se alfabetizar, fê-lo receber a laurea de escritor embora ainda não soubesse ler e escrever, pois mostrou-se hábil para contar uma história.

            Uma viagem de dois dias com a mãe; a observação do rastro de um assassinato tal como o exercido pelo seu avô ou outro – “o que mais me interessava não era o crime em si, mas o tema literário de interesse coletivo (375)”; o modo como via a luta pela vida de moças pobres ao venderem o seu corpo – “a pobreza dá para notar nos olhos (137)”; o escrutínio de relações de um bordel – “um bordel é o melhor domicílio para um escritor (323)”; as táticas de poder do pai; a força retórica de um professor; o estilo conciso, preciso, matemático de um texto jornalístico ou o legado ilusório de uma entrevista, assim como o sentido de uma guerra, de uma chacina; a morte do avô tirando a alma da casa – ou qualquer outro episódio de densidade maior ou menor – mostram o encanto humano, a sua misteriosa procura. Contudo, não sem influência. Sobre a sua personalidade:

“Acho, que na verdade, eu devo a essência da minha maneira de ser e de pensar às mulheres da família e às muitas das empregadas que pastoriaram a minha infância. Era de gênio forte e de coração terno, e me tratavam com a naturalidade do paraíso terrenal (68)”.

            As influências também são geográficas (Marquez, 66):

“A província tinha a autonomia de um mundo próprio e uma unidade cultural compacta e antiga, num vale fecundo entre a Serra Nevada de Santa Marta e a Serra do Perijá, no Caribe colombiano. Sua comunicação era mais fácil com o mundo que com o resto do país, pois sua vida cotidiana se identificava melhor com as Antilhas por causa do tráfico fácil com a Jamaica ou o Curaçao, e quase se confundia com a da Venezuela por uma fronteira de portas abertas que não diferenciava cores ou situações.”

            As marcas espaciais envolvendo o mundo do trabalho, a dimensão cultural e a vida pessoal ajudam a traçar a singularidade do escritor. Também ressoam em seu psiquismo, nos seus medos, nos seus traumas, em pequenos detalhes fluentes do ser humano: “nunca superei o medo do escuro (82)”. Junta-se a isso a realidade circundante: “as minhas primeiras fontes de inspiração foram as conversas dos adultos (83)”. E então, a escrita vai ganhando corpo vital: “Cada coisa, só de olhar, me suscitava uma ansiedade irresistível de escrever para não morrer (97)”.

            São conteúdo do seu espírito narrativo as vivências mínimas, os dessabores, as diversas moradias, as viagens “Cada viagem deixava lições de vida que nos vinculavam de um modo efêmero mais inesquecível aos povoados do caminho, onde muitos de nós se enredaram para sempre com o próprio destino (175).”

            A aprendizagem com os amigos:

“Consistia em economizar espaço através da eliminação não apenas das palavras inúteis mas também de fatos supérfluos, até deixa-los em sua pura essência, sem afetar seu poder de convicção. Quer dizer, apagava tudo que pudesse sobrar num gênero drástico no qual cada palavra deveria responder por toda a estrutura. Este foi um exercício dos mais úteis em minhas investigações enviesadas para aprender a técnica de contar um conto (361).”

                Das várias lições ensinadas por Gabo, para além da dimensão técnica, há a dimensão político-existencial do ato de escrever. Por isso, a escrita como saúde mental. E devemos saber: “a política – se não meter na política, a política vai meter em si”. E o mais importante “é descobrir o pais em si”, ou “um escritor não pode ser desatento ao país (348)”. Contudo, “- até a realidade se engana quando a literatura é ruim ( 394)”.

         A lição peremptória é: “a própria vida me ensinou  que um dos segredos mais úteis para escrever é aprender a ler os hieróglifos da realidade (396)”.

Tempos indicados para sonhar

            Sem uma preocupação excessiva com verossimilhança, porém sem abandonar o compromisso histórico com a verdade do país, do continente e das pessoas, GGM, pode compreender, na observação literária das pessoas com os quais conviveu - crianças, mendigos, pai, mãe, irmãs, amigos - que não há vida humana pobre. Assim, todos os seres humanos, de alguma maneira, são personagens reais fadados à intervenção da arte de contar, pois “a ineficácia da escrita é o desconhecimento do coração humano (244).

            Contudo, há pessoas, entregues ao encantamento do dizer, tornam-se “prestigitador de maravilha (390)”. Isso não pode conduzir a sensibilidade literário a esquecer o mundo. Convém entender: “um personagem não pode ser inventado do zero (363)”.

         A ligação da técnica com o encanto, o ato de brincar com as situações reais ou extrair delas um viés literário, o fez a  desenvolver um manual para assassinatos perfeitos (358). Ou: “nos tempos mais duros cheguei a ler tratados de cirurgia e manuais de  contabilidade, sem pensar que haveriam de me servir no oficio de escritor (405)”. Tudo serve ao ofício de escritor, se, de fato, a alma não é pequena.

            Quando GGM olha o seu tempo de vida e conecta-o ao seu empreendimento, a arte de contar, apregoando – “aqueles tempos eram indicados para sonhar” – o desfecho de sua observação possui um requisito filosófico e literário: o escritor não foge de seu tempo; a ficção não é uma mentira, ou a extravagância de uma imaginação prodigiosa, mas um modo de captar as minúcias históricas como documento – e também como utopia, sonho.

            Com efeito, a miséria humana da América Latina, o legado encantador de sua gente, “os podres poderes”, a desigualdade social – e outras condições típicas de um continente colonizado – dá à literatura o sentido de sonhar. A arte de contar é uma espécie de sonho gráfico. Documento amoroso.

             

Referência bibliográfica

 

MARQUEZ, G. Garcia. Viver para Contar, tradução Eric Nepomuceno, São Paulo: Editora Record, 2003.