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O NOME DA SAUDADE

Um dia, isso mesmo, um dia,

você talvez metido num jeans surrado,

camiseta velha, macia,

sai à rua de sandálias.

 

Você imagina não querer nada;

ou pelo menos não ter a consciência

dirigida para alguma coisa:

uma talha de melancia,

a bateria do celular,

a conta a pagar.

 

Você sai sem saber porque saiu.

 

E de repente,

algo estranho lhe acontece numa região insondável.

 

Está tudo certo contigo:

a carteira está no bolso repleta de identidades,

inclusive o cartão de crédito,

que significa o tamanho de seu passo no mundo,

puta identidade no rol complexo de relações sociais.

 

Você confere.

Está tudo certo.

 

Mas você considera algo estranho em si,

inusitado, inclusive.

E você não sabe o que é.

 

Não é triste, nem alegre,

não é doce, nem amargo,

não é estelar, nem telúrico.

 

Então você imagina pedir socorro,

mas não precisa.

 

Não há urgência irremediável,

não há uma questão-mundo.

 

Você está docemente espantada,

talvez seja esse o termo adequado 

para esse sentimento de inadequação.

 

E você continua a andar.

 

Um poste, os paralelepípedos,

rostos carcomidos pelo tempo, expostos à luz solar.

 

A cidade - você enxerga:

é um tonel de rostos apressados,

gente doida, tão diferente, tão igual...

Mercadorias de todas as cores e...

 

Um ceuzinho armado com nuvens esparsas,

razoavelmente isento do seu acontecimento interior.

 

É estranho!

 

Uma criancinha te olha.

Você até cogita de essa criança estar vendo em você

um fantasma trapalhão.

 

Você ri para essa criança.

Ela petrifica-se numa seriedade medrosa.

 

E você segue, segue em medir passos,

e sem ligar o GPS imemorável que lhe põe a perguntar:

- "Para onde vou?"

 

Você segue e encontra um amigo...

 

Então você descobre o nome:

- saudade!