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TEMPO DE NATAL

Dezembro chegou e com ele o tempo de Natal. Desde novembro, ruas, praças e shoppings começaram a enfeitar-se para lembrar que está chegando a hora de comprar, gastar e comer. Como vozes algo anacrônicas, também se ouvem pregadores nas igrejas convocando os fiéis para a grande festa da cristandade, quando é reverenciado o mistério de Deus feito Homem, na fragilidade e doçura do Menino Jesus.

Há intensa comercialização da data, exacerbada com artifícios de propaganda e marketing, que apelam para ícones e cenários inteiramente diversos da nossa realidade de país tropical. A começar pelo Papai Noel, vermelho e rotundo, usando roupas de frio e correndo num trenó puxado por exóticas renas... Em que lugar e em que momento tais figuras se identificariam com a paisagem e a cultura brasileira?

Nem sempre foi assim. Lembro-me de quando era criança, na fazenda de meus avós. É época de chuvas, as árvores estão verdes, os jasmins florescem e perfumam a capelinha onde a família se reúne. A chama do gás de carbureto espalha uma luz suave; nos candelabros tremulam velas, o altar está enfeitado de flores recém colhidas no jardim.

Nos dias que antecediam a novena de Natal, tia Teté cuidava de preparar com esmero o recinto: primeiro, sacudia-se o velho tapete persa, que algum antepassado trouxera de uma peregrinação ao Oriente; depois, limpava-se o lustre, uma lâmpada vermelha de Murano, engastada em suportes de cobre. Passava-se para a faxina dos altares – e eu via, fascinada, serem retirados de insondáveis profundezas os paramentos litúrgicos, os castiçais de prata, o cálice e a patena usados nas celebrações da santa missa.

O ponto alto era enfeitar a gruta de Belém, coberta com uma redoma e pousada sobre um altar lateral sob uma redoma de cristal – uma jóia de biscuit, com falsas pedras recobertas de limo, onde pousavam aladas libélulas e borboletas de seda. Ali ficava a manjedoura vazia, até o dia de Natal, quando o Menino Jesus era levado para o seu berço rústico. Vinha nuzinho, sobre uma almofada de rendas; depois da meia-noite, seria vestido com uma camisa de cambraia.

Seriam dez horas da noite quando o sino da varanda convocava para a reza de Natal. Nós, crianças, já sonolentas acompanhávamos minha avó, meus pais, tias e tios, primos e empregados da fazenda que se irmanavam conosco na singela celebração. Cantavam-se hinos a capela; e eu jamais esquecerei a sensação de arrebatamento e beleza que me trazia o “Gloria in excelsis Deo...”

Quase sempre chovia. Chuva mansa sobre as telhas vãs da velha casa, amenizando o calor, as bicas de água fazendo contraponto à cadência das orações. Findas as rezas, todos se cumprimentavam e abraçavam, expressando votos de feliz Natal, com as bênçãos do Menino Jesus.

Meus irmãos e eu éramos chamados para dormir antes dos adultos, porque os presentes de Natal seriam colocados em nossos sapatos quando ferrássemos no sono. Para merecê-los – aos presentes – devíamos ser obedientes e bem comportados, pois quem os enviava era o Menino Jesus, amigo dos meninos bonzinhos. Antes, porém, tomávamos leite com bolo e rabanadas – manjar dos céus!

A ceia dos adultos estava arrumada e seria servida depois da meia-noite. Sobre a mesa comprida, uma toalha de linho branco, a melhor porcelana da casa e copos finos. De uma parreira arredia, cultivada em frente à varanda do jantar, vinham pequenos cachos de uvas – com função mais decorativa do que gustativa, pois eram azedas de doer...

Eu sempre pedia para ficar mais um pouco, não queria ir dormir. Sonhava com o dia em que, crescida, participaria da ceia, cujas iguarias me apuravam o olfato e a gula: peru recheado, leitoa com farofa, delicados vienenses encimados por uvas passas, bolo de rolo com goiabada, às vezes ovos nevados, às vezes leite-creme... Mas o sono sempre nos vencia e só no dia seguinte – na manhã de 25 de dezembro - abríamos finalmente os esperados presentes. Nada ostentoso, nem caro: uma roupa nova, um brinquedo – um quebra-cabeça, uma boneca – e, sempre, um livro de histórias, que depois trocávamos entre nós. Além da certeza tranqüila do amor da família, com o lugar de cada um definido segundo os desígnios de Deus.

Tantos anos passados, das pessoas que me cercavam nos Natais da minha infância nenhuma está viva, à feliz exceção de dois de meus irmãos – porque uma já se foi, tão saudosa e tão querida.Ficou-me para sempre a lembrança daquelas noites especiais de fé singela e harmonia familiar, que procuro transmitir aos meus filhos e netos, mesmo sem ter a certeza de que o consiga inteiramente.

(publicado no jornal "Diário da Manhã de Goiânia em 9 de dezembro de 2014)