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VAI ACABAR EM PIZZA

Circula na Internet uma charge maldosa: pilotado pelo Procurador Geral da República, um enorme furgão é identificado como “Pizzaria MPF” e “Disk pizza”. Na legenda, os dizeres: “Uma pizza de 10 bilhões em caminho do Planalto” – a sede do governo da República.

Não me proponho discutir a justeza da mensagem, qual seja a de que, nos altos escalões governamentais, tramam-se meios e modos de dar por encerrado o assim chamado “escândalo do petrolão”, com o menor dano possível para os protagonistas e as autoridades responsáveis - ou seriam irresponsáveis?

O que me aguça a curiosidade é o porquê da expressão “vai acabar em pizza”, empregada quando se menciona o acobertamento de atos ilícitos e a proteção àqueles que os praticam. Se pizzas são saborosas e universalmente apreciadas, por que associá-las a “malfeitos”, como diria Sua Excelência, a Presidente Dilma Rousseff?

Depois de alguma pesquisa, fico sabendo que tudo começou no mundo do futebol: certo radialista paulistano, apaixonado palmeirense, ao noticiar desavenças no clube, concluía que nos bastidores “tudo terminara em pizza”. Vale dizer: superados desentendimentos e rancores, as pessoas se entendiam e, juntas, celebravam a paz em redor de uma mesa, saboreando a boa gastronomia napolitana.

A expressão ganhou o Brasil em 1992, quando a secretária Sandra Fernandes de Oliveira desmontou a chamada “Operação Uruguai”, que justificaria a origem do dinheiro espúrio investigado pela CPI do PC Farias. “Se isso realmente acabar em pizza (...) acho que é o fim do País” – ela disse. Com os “caras pintadas” tomando as ruas, as revelações da depoente foram decisivas para que se chegasse ao impeachment do ex-presidente Collor.

À primeira vista, “acabar em pizza” lembra o gosto brasileiro por desfechos festivos e comemorações entre amigos. Nas entrelinhas, contudo, está embutida a critica ao vício nacional da acomodação e da impunidade, sempre que os embates políticos ameaçam atingir os poderosos.

No caso do “petrolão” – se tal vier a acontecer, será uma “pizza” gigantesca, seja pela quantidade de dinheiro roubado, seja pelo perfil dos personagens envolvidos: técnicos de alto nível que são dirigentes de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo; políticos do mais alto escalão governamental; financistas, empresários, doleiros “et caterva”.

Integrante que sou da classe média retrógrada que insiste em acreditar na honestidade como valor absoluto, confesso que me assusto com os números do “petrolão”. De começo, parecem absurdos os salários pagos: um diretor da Petrobrás, em 2007 (últimos dados disponíveis) ganhava a bagatela de 706.000,00 anuais. Acrescidos de 10%, a título de jetons pelo comparecimento às reuniões do Conselho Administrativo da empresa – que, em média, acontecem quatro vezes por ano!

Gente assim remunerada não tem como justificar (?) a opção pela roubalheira: são pessoas tecnicamente competentes que desempenham trabalho relevante; levam uma vida confortável, com direito a mordomias e benefícios sociais; gozam de elevado status e recebem diárias generosas quando viajam. Só mesmo a ambição desmedida e a presunção de impunidade terão levado a tais extremos – como aconteceu com o ínclito figurão do quarto escalão, pego em flagrante, que se propõe devolver aos cofres públicos a incrível quantia de 100 milhões de dólares!

Será que tudo vai mesmo “acabar em pizza”? É o que parece indicar o relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, composta de senadores e deputados: uma peça vergonhosa, que nada conclui nem indicia sequer os réus confessos! De outra parte, o afinco com que é defendida a atual diretoria da Petrobrás sugere acobertamento de crimes e blindagem de autoridades. Ao ponto de o próprio Ministro da Justiça ser levado a desmentir o Procurador Geral da República, quando este reconhece a existência de crimes e reafirma o empenho de investigá-los e puni-los.

Enquanto isso, nesses dias que antecedem o Natal, recebo dezenas de pedidos de auxílio a obras assistenciais – como a da distante Paróquia de Santa Filomena, a 900 km de Teresina, no Piauí. Ali há um Centro de Pastoral que mantém uma pequena escola de música; o pároco pede ajuda para comprar móveis, livros e equipamentos, além de alguns poucos instrumentos musicais – perfazendo a quantia de $21.953,00. Para o que sugere sejam feitas contribuições mensais de 20, 30 ou 50 reais!

É este o mesmo país do “petrolão”?

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 16 de dezembro de 2014)