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POEIRA DO TEMPO

Natal é festa das famílias que tradicionalmente se reúnem para rezar juntas, louvando o mistério de Deus feito Homem, personificado no Menino Jesus. Entre cânticos e saudações, renovam-se laços afetivos, reencontram-se parentes que a vida separou, aviva-se a fé com a suave poesia do presépio.

É também o dia em que reinam as crianças, com sua espontaneidade e alegria. Em verdade, são elas as donas da festa, barulhentas e excitadas na expectativa dos presentes – e aí surge a figura do Papai Noel, importado dos países nórdicos, mas incorporado ao Natal brasileiro.

Aqui em casa, houve um tempo em que havia muitas crianças a alegrar o Natal. Filhos e filhas traziam os netos e netas, olhinhos acesos mesmo quando o sono insistia em fechá-los.

Tempo bom aquele. Hoje, adultos, os meninos e meninas de ontem começam a constituir suas próprias famílias, segundo a inexorável lei da perpetuação da espécie humana. O que acena com a promessa de que, em breve, mais crianças virão povoar nossa velhice, já agora como bisavós.

Ante tão promissora expectativa, fui buscar velhos guardados e retirei do baú um precioso livro que versa sobre a família de minha saudosa mãe – os Castello Branco.

Elaborado por seis autores, parentes entre si, profissionais liberais que viviam no Rio de Janeiro, foi editado em 1926, sob os auspícios do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Intitula-se: “Appontamentos genealógicos de Dom Francisco da Cunha Castello Branco (seus ascendentes e descendentes)”. A edição ficou restrita a 300 exemplares, numerados e rubricados por um dos autores.

Raridade bibliográfica, o exemplar que veio ter às minhas mãos tem o número 286 e foi dedicado a minha tia-avó, Anna Lina Rodrigues. Dela, passou para minha tia e madrinha, Victoria, que o deu a minha mãe, Maria, de quem o recebi.

Trata-se de estudo genealógico que se debruça sobre a ascendência e a descendência do capitão do exército português, Dom Francisco da Cunha Castello Branco e sua mulher, Dona Maria Eugênia de Mesquita. Ele veio do Reino para combater invasores franceses e holandeses no norte do Brasil, por volta de 1690. Militar de carreira, Dom Francisco era irmão do conde de Pombeiro, Dom Antônio da Cunha Castello Branco, o primogênito, que herdara dos pais o morgadio e o título nobiliárquico.

Como segundo filho, Dom Francisco seguiu a carreira das armas; combateu os mouros na África e exerceu a função de Tesoureiro Real na corte de Dom João II, o Pacífico. Mandado servir no Brasil,residiu algum tempo em Pernambuco e depois seguiu para o Maranhão, levando a família. Ao aportar na Baía de São Marcos, o navio em que viajavam naufragou, morrendo Dona Maria Eugênia e salvando-se o chefe da família e as filhas Clara, Ana e Maria do Monte Serrate.

Já avançado em anos, Dom Francisco passou-se para o Piauí, vindo a estabelecer-se com fazendas de criação de gado no local aonde viria a erguer-se a freguesia de Santo Antônio do Seroby, depois vila e cidade de Campo Maior.

Casaram-se as três filhas com homens de prol e sua numerosíssima descendência constitui-se na família Castello Branco, que se espraiou por todo o Brasil. Da vinda de Dom Francisco à atualidade contam-se 324 anos, ou seja, 13 gerações que se entrelaçaram com outros clãs. Entre seus descendentes, contam-se proprietários rurais, profissionais liberais e militares, muitos dos quais participaram de conflitos armados. Dentre estes, refira-se o marechal (depois presidente da República) Humberto de Alencar Castello Branco, que integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, como oficial do Estado Maior.

Fico a ler a sucessão de nomes, casamentos, nascimentos e mortes, referidos até a geração de minha mãe, numa cadeia que remete a séculos passados. Somos todos elos da mesma corrente – na feliz expressão da escritora Rosarita Fleury.

No ramo da árvore genealógica a que pertenço, a memória recua até meus trisavós maternos: de um lado, o fazendeiro e comerciante Domingos José Gonçalves e sua mulher, Torquata da Cunha e Silva Castello Branco; de outro, o fazendeiro e tenente-coronel Pacífico da Silva Castello Branco e sua esposa, Torquata Gonçalves Castello Branco, cujas histórias pessoais remontam ao início e estendem-se até o final do século XIX.

Deles, além da tradição oral e da memória familiar, restam daguerreótipos e retratos, inventários e testamentos, cartas, manuais de orações e de receitas culinárias, e, surpreendentemente, a primeira edição de “Urania”, da autoria de Gonçalves de Magalhães, precursor do romantismo no Brasil. Pertenceu a minha trisavó Torquata Gonçalves, indicando que era versada nas letras e gostava de poesia.

Fico a pensar: dentro de três ou quatro gerações, eu e minha família seremos vagos nomes indistintos na árvore que continua a esgalhar-se. Como o são os ascendentes do capitão Dom Francisco, cuja linhagem remonta ao tempo dos visigodos, invasores da Península Ibérica no século VI da era cristã. Sucedem-se chefes bárbaros da Espanha, a partir de Teodorico e Alarico, bem como incertas damas de nomes estranhos: Urraca, Aldonça e outras mais.

Um tanto melancolicamente, concluo que a lembrança familiar persiste enquanto a lembrança afetiva é cultivada nos descendentes. Três gerações depois de agora, nada mais seremos do que grãos de poeira na infinitude do tempo.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 23 de dezembro de 2014)