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Esta faltando um

 

Assim como milhões de brasileiros, acompanhei pela televisão a posse da presidente Dilma Rousseff e seu estafe governamental. Desta vez, São Pedro foi camarada e não choveu; embora muito quente, a tarde estava bonita, uma que outra nuvem enfeitando o horizonte azul.

Vinda do Palácio da Alvorada, Sua Excelência chegou com pequeno atraso à Catedral de Brasília; desceu do carro e passou para o Rolls Royce presidencial que a aguardava. O que me pareceu estranho: por que essa mudança de automóvel? Será que o luxuoso conversível – da década de 1950 – está tão velho que não conseguiria fazer todo o percurso até o Congresso Nacional? Não o creio, até porque consta que recebe manutenção rigorosa, é retirado da garagem ao menos uma vez por semana e funciona às mil maravilhas.

Causou espécie também o fato de que ninguém – nem o motorista, nem um segurança, nem a filha da presidente que estava com a ela, nem a oficial que as acompanhava - lembrou-se de oferecer a mão a D. Dilma, seja para descer do primeiro carro, seja para entrar no outro. Cortesia obrigatória, quando se trata de uma senhora quase septuagenária e detentora do mais alto cargo da República; mas que teve de virar-se sozinha, no inusitado transbordo feito à margem da pista.

Na sequência, a presidente optou por desfilar de pé, em carro aberto, o que parece ser de praxe, embora não deixe de ser um risco. Talvez por conta disso, seguranças se esfalfaram, correndo ao lado do Rolls Royce. De ternos e óculos escuros, paletós esvoaçando sob o sol tórrido do planalto – o que pretenderiam aqueles homens (havia uma única mulher) em carreira desabalada? Como James Bond, procurariam eventuais assassinos entre os pedestres, de um e do outro lado da avenida? Se um franco atirador (que Deus nos livre!) quisesse alvejar a presidente, os esforçados maratonistas teriam como impedi-lo?

A grande surpresa da tarde – ao menos para esta escriba provinciana –  seria o discurso de D. Dilma. Parecendo falar de improviso, ela conseguia dizer frases que tinham começo, meio e fim, ainda que eivadas de inverdades, como soe acontecer em peças de oratória petista. A desilusão veio depois: Sua Excelência é mesmo craque na leitura do teleprompter!

Capítulo à parte – sobretudo para nós, mulheres – foram as toaletes femininas exibidas na ocasião. A começar pela própria presidente, que escolheu um romântico traje de rendas na cor “nude”, algo entre o beije e o branco. Em duas peças, o vestido não caiu bem na silhueta de D. Dilma. Sem demora, correu na Internet o aviso: “Sumiu a capa do meu botijão de gás” – com a fotografia do dito cujo, igualmente enfeitado de rendas e rufos. Nada, porém, que ofuscasse o eriçado modelito amarelo, tipo Garibaldo, exibido por D. Marisa Lula da Silva, em 2007.  

Quanto à jovem Paula – a bonita filha da presidente – optou ela por um vestido colante na cor vermelho-PT. Justo, decotado e rebuscado, não parecia ser a melhor escolha para desfilar sob o sol escaldante de Brasília. De igual modo, a  segunda-dama da República – que fez sucesso, em 2010, com tranças à Rapunzel -, apresentou-se desta vez como se fora uma “jeune fille” em baile de debutantes. Juvenil, vaporoso, delicado, com laço na cintura, a roupa usada pela senhora Marcela acentuava a diferença de idade entre ela e o marido, o formalíssimo vice-presidente, Michel Temer.

No atual Ministério, são sete as mulheres, despontando como vedete a senadora Kátia Abreu. Agropecuarista tocantinense, de ferrenha opositora e crítica do PT, ela passou a integrar a base governista e aproximou-se da presidente Dilma, de quem se tornou amiga de infância. Primeira mulher a ocupar a pasta da Agricultura, D. Kátia – que é psicóloga - vestiu-se a caráter em homenagem às nossas matas. Mas deu-se mal: o verde-pamonha escolhido não foi bem com a tonalidade de sua tez; as mangas bufantes aumentaram-lhe o tórax; a saia curta e rodada emprestou-lhe ares de bailarina aposentada.

Das outras senhoras ministras, muito haveria a dizer no tópico elegância – mas o espaço não permite maiores digressões. À guisa de conclusão, lembremos a velha marchinha de Paulinho Soledade e Fernando Lobo: “Zum...zum...zum / Está faltando um!” De fato: no valoroso segundo escalão do novo mandato dilmista - que se estenderá por mais longos 1.456 dias - está faltando o Ministério da Elegância Feminina. Seria o 40º! Além de gerar empregos, atenderia aos reclamos de bom gosto do eleitorado feminino, assim contribuindo para o reconhecimento do Brasil como país culturalmente desenvolvido. Afinal, moda é cultura, como proclama a chiquérrima senadora Marta Suplicy.

(Publicado no jornal "Diario da Manhã" de Goiânia em 06 de Janeiro de 2015)