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PARIS EM CHAMAS e NUMA TARDE MORNA

PARIS EM CHAMAS

Minha geração cresceu sob a influência francesa na cultura brasileira. Era menina bem pequena quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Morava em Parnaíba, no Piauí, onde havia um pequeno grupo de importadores e exportadores europeus, sobretudo ingleses, alemães e franceses, sendo alguns judeus. Lembro-me de que, à noite, eles se reuniam em torno de um potente aparelho de rádio para ouvir as últimas notícias da BBC de Londres. Na parede da casa dos nossos primos, Celso e Marie, havia um mapa onde alfinetes coloridos assinalavam a movimentação das tropas. E confiava-se na Linha Maginot, última trincheira contra o avanço alemão.

Certa noite, por volta das sete horas, eu estava brincando com coleguinhas na Praça da Graça, quando o alto-falante anunciou a queda de Paris para os nazistas. Impressionou-me o fato de que pessoas começaram a chorar diante de tal desastre, lamentável para o mundo civilizado.

Nesse meio tempo, nossa família transferiu-se para o Sul e fui interna em um colégio de freiras, no Rio de Janeiro. Era obrigatório o ensino de línguas - português, latim, inglês e francês, cuja professora sempre foi das mais exigentes. Na medida em que avançávamos nos estudos, além de gramática, vocabulário e textos didáticos, passamos a ler no original Victor Hugo, Daudet, Lamartine, Molière, Ronsard, Verlaine, Claudel e tantos mais.

Além dos aspectos literários, eram abordados os fundamentos da cultura francesa - um mundo que se nos descortinava como expressão máxima da civilização, território da liberdade e da racionalidade, nascedouro da nouvelle vague e da nouvelle histoire. Paralelamente, acompanhávamos as agruras da ocupação da França pelos nazistas, as façanhas da Resistência, o patriotismo do presidente Charles de Gaulle, a restauração – e, na sequência, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Marcuse, Albert Camus, Françoise Sagan, Charles Aznavour, Edith Piaf...

Creio que foi em 1948; eu era redatora de um jornalzinho estudantil, onde uma colega publicou a crônica intitulada: “Paris – subconsciente do mundo!”. Fascinada, eu sonhava em conhecer a Cidade Luz!  Somente vim a fazê-lo muitos anos depois. Emocionei-me ao pisar finalmente o solo da capital francesa, visitar alguns lugares “sagrados” tais como a Notre Dame, o Louvre, o Arco do Triunfo, os Invalides, a Torre Eiffel. Fui assistir o musical “Hair”, no Olympia, e não gostei; conheci o Moulin Rouge, que me pareceu muito aquém do que fantasiava minha imaginação borbulhante. Fiz compras nas Galleries La-Fayette e na Opéra Chic; assisti à missa em La Madeleine – emocionante! Visitei uma amiga no XVIème arrondissemente, tomamos café ao ar livre, saboreamos uma refeição deliciosa em um bistrot. Perambulamos pela Avenue des Champs Elisées; extasiei-me diante da beleza e do refinamento de Versailles – e me prometi logo retornar. A vida dá muitas voltas e querer nem sempre é poder. Nunca voltei a Paris, embora sempre a veja como uma espécie de pátria espiritual da humanidade – minha pessoa incluída é claro. Ao longo dos anos, trabalhei com franceses nas áreas de magistério superior e de patrimônio histórico, encantadores, ainda que plenamente conscientes de sua superioridade intelectual e humanística.

A alma dói-me, ao ler as notícias sobre os recentes atentados terroristas em Paris contra o jornal satírico Charlie-Hebdo. Multiculturais, tanto a capital como a França, em si mesma, vêm sendo alvo de maciça emigração muçulmana, de origem asiática e africana. De uma perspectiva histórica, será possível cogitar-se de nova invasão de bárbaros, no sentido de povos exógenos que se infiltram e pressionam uma civilização mais avançada – e dela querem, além de benesses econômicas e sociais, aceitação e respeito à sua própria cultura.

A tudo isso, some-se o traço de fanatismo próprio dos adeptos da Jihad, sua intolerância e seus métodos violentos. Paris está em chamas - o que virá agora? A reedição da velha guerra religiosa que, durante séculos, espalhou obscurantismo, ódio e violência entre o Oriente e o Ocidente? A crescente vinda de imigrantes despossuídos e prolíficos, gerando terrorismo e violência, irá minar e arruinar os fundamentos da civilização ocidental e cristã, a começar pela liberdade de pensamento e de expressão?

Há muito a temer e pouco a fazer, além de vigiar e precaver-se. Por enquanto, resta-me como única a certeza de que “Je suis Charlie”.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 013 de janeiro de 2015)

  

NUMA TARDE MORNA

        

Numa tarde morna, três amigas batiam papo na varanda. Estavam naquela idade imprecisa que vai dos 30 aos 40 anos; falavam sobre tudo e sobre nada. Sem pressa, a conversa centrou-se na visita da rainha Elisabeth II, e no recente casamento de Jacqueline Kennedy e o milionário grego, Aristóteles Onassis.

- Achei horrível o vestido da rainha no Itamaraty – sentenciou uma das amigas.

- Você foi à recepção? – quis saber a outra.

- Estive no sereno, vi os convidados chegarem.

A gordinha do grupo esnobou:

- Eu, hein? Exibição de vaidade não é comigo.

- Pois eu gostei, confessou a primeira. Tirando Sua Majestade, como sempre fora de moda, a turma estava elegante, linda de morrer.

- Mas a rainha foi muito aplaudida.

- E o príncipe Philip?

- Até eu bati palmas! Ele é bonitão e usava uma farda ma-ra-vi-lho-sa.

- Estava fardado e foi aplaudido?! Então não havia estudantes por perto... As amigas riram-se, à lembrança dos infindáveis protestos juvenis contra os militares no poder.

Uma delas abaixou a voz para comentar:

- Dizem que o príncipe Philip é um chato e pergunta demais. Comete cada gafe! 

  Em tom de inconfidência, prosseguiu:

- Parece que ele ignora o regime político em que vivemos. Na Bahia, perguntou ao prefeito se tinha sido eleito pelo voto ou nomeado pelo presidente. Fez igual pergunta ao governador do Distrito Federal.

Ao que a dona da casa especulou:

- E se ele perguntar também ao presidente da República?

- Gente, isso é o de menos! – ressalvou a caçula do grupo. E acrescentou: Gafe monumental foi a do presidente Costa e Silva. Como não sabe falar inglês, na recepção oficial ele se confundiu e achou que era aniversário da rainha; com toda a pompa, levantou-se e ergueu a taça para brindar o “niver” de Sua Majestade...

Divertidas, as outras quiseram saber se os convidados tinham cantado os “parabéns”.

- Não.  A turma do Itamaraty acudiu a tempo.

- E a rainha, entendeu o qüiproquó?

- Certamente. Afinal, ela é rainha há muitos anos! E tem classe, né?

Depois de breve intervalo, entre xícaras de chá e biscoitinhos, a anfitriã do grupo ponderou:

- Isso de classe é relativo. A Jacqueline Kennedy é plebéia como nós, mas quando foi primeira dama dos States parecia que nunca tinha sido outra coisa na vida.

  O diálogo adquiriu tons mais exaltados:

- Se a Jackie tinha classe, agora acabou.

- Se parecia rainha, virou escrava.

- Escrava? Como escrava?

- Escrava do Onassis, minha cara.

- Que exagero! Escrava, quando é esposa e milionária?

- Ela é escrava do dinheiro. O casamento deles foi na base do acordo financeiro. Ele transferiu para a Jackie cinco milhões de dólares, adiantados.

Fatalista, retrucou a anfitriã:

- Se é assim, nós também somos escravas. Só que não ganhamos cinco milhões de dólares de nossos maridinhos.

Ao que protestou a mais falante:

- Nem por dez milhões eu queria o Onassis, aquele velhote desfrutável.

- Tem velho feio que é fascinante.  Inteligente, bom de  conversa, amável, cavalheiro. Vai ver, o Onassis é assim.

- Cruz, credo! Você viu o retrato dele de calção?

- Vi, sim. Vi também a foto do iate “Cristina”.

Ignorando o ar pesado e o calor sufocante, as amigas calaram-se e, com os olhos da imaginação, acompanharam o majestoso barco a singrar o mar Egeu, banhado de sol.

  Entre mais refrescos gelados, a conversa prosseguiu:

- Será que os Kennedy romperam com a Jacqueline?

- Não acredito. Cabeça de milionário é diferente. E eles têm os meninos, a Carolina e o John-John...

- Tenho pra mim que o dinheiro do Onassis vai eleger o presidente dos Estados Unidos daqui a uns 30 anos, quando o John-John for candidato.

- Esse negócio de política é meio misterioso, muda todo dia. O que é que a gente pode prever para daqui a 30 anos?

A despeito do tom informal, as fisionomias estavam sérias. As amigas mediam, talvez, a distância entre sua própria geração e a que ficara para trás, analisando e conferindo mudanças na forma e no conteúdo da existência. Meio angustiada, uma delas perguntou:

- O que será do mundo, quando John-John for adulto, e o príncipe Charles reinar sobre a Commonwealth?

(Crônica escrita por ocasião da visita da Rainha Elisabeth II ao Brasil, em novembro de 1968. John-John Kennedy não ingressou na política e faleceu tragicamente, em 1999; o Príncipe Charles continua como herdeiro do trono inglês. E o mundo segue.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 20 de janeiro de 2015)