Publicações

CONTRASTES

Duas notícias incomuns chamam-me a atenção. A primeira diz respeito à Noruega, com suas lindas paisagens hibernais, infelizmente inviáveis para esta escriba piauiense.

Assim é que nesse país vão ser fechados presídios devido à falta de detentos, ou seja, de criminosos apenados sob a custódia do Estado.  O total de sentenciados que atualmente cumprem pena na Noruega é de 4.852 indivíduos, número que vem diminuindo desde 2004. O que resulta de bem sucedidos programas de prevenção, reeducação e reabilitação de presidiários, levando à liberação de vagas no sistema carcerário. Dois dos quatro presídios já desativados serão vendidos a particulares; os demais continuarão fechados, enquanto se avalia o resultado das medidas ora tomadas.

A segunda das notícias diz respeito à manchete: “Suécia sofre com falta de lixo” (sic). Meio desconfiada, reli a frase para ter certeza de que a entendera corretamente. Mas é verdade: o lixo está sumindo e fazendo falta nesse igualmente belo e gélido país escandinavo.

Ocorre que, desde algumas décadas, ali se desenvolve um programa educacional que objetiva capacitar os cidadãos para o correto tratamento dos resíduos. Postos em prática os ensinamentos, tornou-se possível, mediante a simples incineração do lixo, disponibilizar aquecimento para 800 mil residências, bem como fornecer energia elétrica para 250 mil famílias. Entrementes, diminuiu gradativamente a produção de resíduos – pelo que estão ameaçados esses benefícios de interesse econômico e social. Motivo pelo qual será preciso importar lixo!

Tão insólitas notícias parecem vindas de outro mundo que não o nosso, onde a realidade é de aterros sanitários monumentais; praias, rios e córregos poluídos; calçadas cheias de entulhos; bueiros entupidos e assim por diante.

Do que foi dito e comentado, conclui-se que tanto a diminuição do número de presidiários (na Noruega), como a escassez/falta de lixo (na Noruega) resultaram de programas educacionais bem sucedidos. Diante da tendência nacional de copiar acriticamente tudo o que é feito nos países desenvolvidos, permito-me indagar: seria compensador desenvolver programas similares em municípios brasileiros? 

Como ponto de partida, consultemos algumas estatísticas: na Noruega não há analfabetos, exceção feita entre as minorias de imigrantes, provenientes do Oriente Médio e do Leste Europeu. Em sendo assim, tudo indica que os sentenciados aos quais se dirigem referidos programas sociais sejam pessoas que tiveram acesso a boa educação de nível fundamental. Capazes, portanto, de avaliá-los e decidir pela adesão ou não adesão aos mesmos.

No Brasil, segundo dados do PNAD (Programa Nacional de Amostras a Domicílio/ IBGE), entre 2011 e 2013 a taxa de analfabetismo aumentou de 8,3% para 8,6% da população – chegando a algo em torno de 17 milhões de indivíduos, mais do que a soma das populações da Suécia e da Noruega. A estes, somem-se outros milhões de analfabetos funcionais, adultos que freqüentaram algum tipo de escola durante curto período, mas não conseguem entender aquilo que lêem.

Sabe-se que o maior número de presidiários brasileiros é composto de homens analfabetos, com menos de quatro anos de escolaridade. Sendo assim, fica evidente que a simples freqüência a uma escola, durante algum tempo, atua como fator preventivo contra o crime, igualmente viabilizando a reeducação e reabilitação de detentos, quando for o caso.

Raciocínio similar é possível, em relação aos programas de educação ambiental que contribuiriam para, pelo menos, diminuir o impacto negativo da produção e acumulação de lixões por todo o país. A universalização da escola fundamental seria o primeiro passo no combate ao crime, ao desleixo e à permanência no erro - mas como pensar nisso se, ao invés de continuar em queda, está crescendo o número de analfabetos no Brasil?!

Entretanto, eis que uma luz surge no fim do túnel, como sugere o slogan lançado pela presidente da República: “Brasil: Pátria educadora”! Com salutar otimismo, é possível pensar-se que chegou a hora de a educação brasileira contribuir para reverter o quadro de criminalidade e violência crescentes no país.

Diziam os antigos: “O tempo é o senhor da razão”. Esperemos, portanto. Enquanto isso, busquemos caminhos que possibilitem a exportação de nossos detentos para a Noruega e do nosso lixo para a Suécia. Este, a preços que permitam alcançar o equilíbrio de nossas contas externas, ora em vermelho, neste alvorecer do segundo governo dilmista.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 27 de janeiro de 2015)