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AO MESTRE QUE PARTIU

Costuma-se dizer-se que a morte de alguém deixa mais pobre o mundo em que viveu. O que é claramente perceptível no círculo imediato de familiares e amigos do falecido - até que o tempo ameniza a ausência, a dor da perda arrefece, e fica a saudade algo idealizada de quem se foi.

De algumas pessoas, contudo, a ausência se faz sentir em círculos mais amplos, tendo em vista sua atuação e personalidade incomum. Estou a referir-me ao Dr. Joffre Marcondes de Rezende, há pouco falecido, médico exemplar, professor, cientista, pesquisador, filólogo, escritor e humanista no mais amplo e generoso sentido da palavra.

Conheci Dr. Joffre há mais de 40 anos, quando integrávamos o Conselho Universitário da UFG. Eram tempos difíceis; diretrizes e ordens emanadas de Brasília deviam ser cumpridas, sem discussão. Havia uma enorme pressão do MEC para que fosse aumentado o número de vagas ofertadas pelos cursos de medicina, então, como hoje, os mais disputados.

Em âmbito local, a Faculdade de Medicina resistia à ampliação, tendo em vista que o curso da UFG - criado há poucos anos – mesmo com alunado reduzido, enfrentava dificuldades para funcionar, sobretudo pela insuficiência de leitos no Hospital das Clínicas.

O affaire levara ao afastamento do diretor-fundador daquela unidade, o Dr. Francisco Ludovico de Almeida Neto, cuja aposentadoria compulsória provocara geral indignação. A nova diretoria – composta pelos professores Luiz Rassi e Joffre Marcondes de Rezende - empenhava-se em manter o nível do ensino ministrado, para o que lutava por melhorar as condições físicas e docentes da Faculdade.

Foi uma queda de braço que se decidiria no Conselho Universitário, onde me incluí entre os que apoiavam as posições defendidas pelos dirigentes da Faculdade de Medicina. Isso sob a ameaça de corte de verbas da UFG - além de problemas que surgiam a cada dia, numa época em que até espirrar alto podia ser apontado como ato “subversivo”.

Diretor e vice-diretor da FM faziam uma dobradinha afinada; quando o primeiro (Dr. Luiz) não podia comparecer às reuniões do Conselho Universitário, ali estava seu substituto legal (Dr. Joffre), sempre lúcido e objetivo, argumentando de forma convincente contra tentativas de politizar a questão. Certo é que foi assegurada a manutenção da qualidade do ensino na Faculdade de Medicina; o aumento do número de vagas efetivou-se de forma gradual e sem prejudicá-la.

Voltei a reencontrar Dr. Joffre durante o reitorado do Professor José Cruciano de Araújo, quando dirigia a Editora da UFG, com larga visão e eficiência. Passados alguns anos, fui surpreendida com o convite de um grupo de médicos –  que incluía o Dr. Joffre e o então reitor, Dr. Ary Monteiro do Espírito Santo - para coordenar a elaboração de um livro sobre a História da Faculdade de Medicina da UFG, depois ampliado para História da Medicina em Goiás.

Na ocasião, eu morava em Brasília e trabalhava no gabinete do ministro da Cultura, Celso Furtado. Aceitei o honroso chamado e, tendo a colaboração de uma notável equipe interdisciplinar de pesquisadores vinculados à UFG, conseguimos levar a bom termo a publicação do livro “Saúde e doenças em Goiás: a medicina possível”.

Foi quando tomei conhecimento da existência do curso de História da Medicina, oferecido aos alunos de graduação nessa área. Convidada pelo Dr. Joffre a ministrar uma aula nesse curso, vim a Goiânia, onde ele me aguardava. No decorrer da exposição, seria preciso usar um retroprojetor; o aparelho estava à disposição, mas faltava uma extensão para conectá-lo à rede elétrica. Com bom humor e pragmatismo, Dr. Joffre retirou-a de uma mochila (que levara), assim como um transformador...

Passei a interessar-me pela História da Saúde, área de pesquisa que, nos últimos anos, vem ganhando adeptos na Faculdade de História da UFG. De 1995 - quando foi defendida a primeira - à atualidade, foram aprovadas 10 dissertações de mestrado e duas teses de doutorado que versam sobre temas vinculados à medicina, lato sensu.  

Dr. Joffre incentivou-me a participar de congressos de História da Medicina e teve a bondade de ler e apresentar sugestões para aperfeiçoamento dos papers produzidos. Com idêntica generosidade, indicou-me para sócia fundadora da Sociedade Brasileira de História da Medicina. A partir de documento pertencente ao meu acervo familiar, publicamos um artigo em co-autoria: “A cirurgia no final do século XIX, segundo o testemunho do Dr. Malaquias Antônio Gonçalves” .

O próximo número da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás incluirá o artigo “Patologia médica na literatura regional goiana”. Pena que não o tenha visto impresso o seu ilustre autor, Dr. Joffre Marcondes de Rezende, Sócio Honorário do IHGG!

Muito mais haveria a dizer sobre ele, sua personalidade incomum de cientista e humanista, profissional íntegro e ético, a par de sua maneira de ser ao mesmo tempo retraída e bondosa. Do ponto de vista pessoal, não esquecerei jamais o carinho com que examinou minha netinha, em momento de tensão e expectativa de toda a nossa família.

A ele, minha sincera e comovida homenagem.   

(Publicado em 03.02.2015, no Diário da Manhã, de Goiânia).