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CARNAVAL, CARNAVAIS

O assunto é obrigatório: nessa época do ano o carnaval predomina nos noticiários e comentários de jornais, rádios, canais de televisão e redes sociais.  E hajam batucadas, bebedeiras e nudismo como sendo inerentes à alegria do povo brasileiro.

Expressão máxima desse estado de espírito seria o desfile das escolas de samba, com destaque para o Sambódromo do Rio de Janeiro. De ano para ano, ali se repete o que é quase um ritual, em verdade um mega show com regras draconianas para o que deveria ser espontâneo. Milhares de foliões (?) submetem-se a uma disciplina férrea, na sequência das alegorias, na duração cronometrada do desfile, na composição das alas e assim por diante. Para tudo há normas burocráticas, desde as comissões de frente até os (as) passistas e porta-bandeiras.

O monumental desfile vem sendo copiado e replicado em pontos diversos do país, como atração turística e meio de vida de muita gente. Surgiu até um profissional da área: o carnavalesco, misto de coreógrafo, dançarino e figurinista, que comanda o espetáculo nas maiores agremiações do gênero. Alguns se tornam figuras consagradas, como Joãozinho Trinta, responsável por momentos inesquecíveis como a incrível alegoria de mendigos e urubus, da Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis.

Na medida em que o Carnaval se oficializa e encarece, exigindo financiamentos milionários (quase sempre inconfessáveis), vai perdendo a espontaneidade de festa popular que subverte a realidade. Em verdade, o Carnaval evoca ritos pagãos que lembravam a ressurreição da natureza, com a chegada da primavera depois de longos meses hibernais. De outra parte, a expressão “Carne vale!” - “Adeus à carne” – convida à exaltação dos sentidos, liberação da libido e permissividade sexual antes que cheguem as mortificações e penitências da Quaresma.

De Portugal veio-nos o entrudo, de gosto chulo e popularesco, com as brincadeiras de molhar as pessoas com limões de cheiro ou outros líquidos menos perfumados. Os foliões também compareciam a bailes onde máscaras ocultavam as identidades e consagravam a promiscuidade.  Nada santo ou inocente, que a natureza humana sempre tendeu à esbórnia, como diria o velho Eça. Mas revestido de certo recato (ou dissimulação), sobretudo no que dizia respeito às mulheres “de família”.  

Originária que sou da classe média dita retrógrada e antiquada, minhas lembranças momescas remontam à infância. Nos meus primeiros carnavais, as brincadeiras se faziam à base de polvilho, águas de cheiro (e outras nem tanto), além de correrias e gritos dos meus tios e primos, jovens e bagunceiros. A vitrola de corda tocava músicas que pareciam animadíssimas. Uma delas fazia alusão à cantoria que me era familiar nas madrugadas da fazenda:  “Cocoricó...cocoricó.../ estes galos fazem falta/ no Scala de Milão!” Perguntei a alguém o que seria esse Scala; foi-me dito ser um famoso teatro italiano, que somente vim a conhecer muitas décadas depois.

Em outro momento, eu teria uns oito ou nove anos e residia em Parnaíba, no Piauí. Morávamos na Rua Grande, em uma esquina que fazia X com o Clube 24 de Janeiro, onde havia matinês dançantes para crianças. Minha mãe e algumas amigas resolveram formar um bloco carnavalesco com os filhos.  Devidamente fantasiados, lá fomos nós, meus irmãos, eu, alguns primos e colegas: vestíamos calça verde, à altura dos joelhos, com aplicações de corações feitos de feltro vermelho; a camisa era igualmente vermelha e o chapeuzinho, do tipo tirolês, também trazia alguns rubros enfeites. Levávamos saquinhos de confetes e pacotes de serpentinas; mas não nos foi permitido o uso de lança-perfumes. Brincamos tudo a que tínhamos direito – intercalando a animação com idas ao bufê onde havia pastéis, biscoitos e guaraná, algo raro e caro.

Outros carnavais aconteceram no Rio de Janeiro. Com três filhas adolescentes, às quais se acrescentavam primas e amigas, minha mãe nos acompanhava ao tríduo momesco do Clube Militar, onde dançávamos e pulávamos até o dia raiar. Coitada! Devia ser um sacrifício para ela ficar acordada a noite inteira, com o barulho sem fim da orquestra... Revezava-se com a prima, D. Beatriz, que nos atemorizava um pouco com sua vigilância a que nada escapava. Nessa época de pós-guerra e divulgação do existencialismo, bombou a marchinha “Chiquita Bacana” -  e formamos um grupo de alegres Martinicas, usando vestidos meio longos em tecido de algodão colorido, babados no decote e na barra da saia.  Um sucesso!

Já morando em Goiânia, meus carnavais passavam-se no Jóquei Clube, com a  orquestra tocando antigos e novos sucessos. Os foliões davam-se as mãos e formavam cordões que evoluíam pelo salão, cantando  e sambando.  De vez em quando, casais de namorados escapavam para dançar alguns compassos sozinhos; mas a turma não dava refresco e os puxava de volta, e  até os mais velhos caíam na folia.

Finda a festa, voltávamos a pé para casa, pois pouquíssimas pessoas tinham carro próprio nos anos 50. Tudo era perto, ninguém receava assaltos, que não os havia. E seguiam pelas ruas os grupos de moças e rapazes, ainda cantando marchinhas pelas madrugadas que davam lugar às luminosas manhãs de verão.

Entretanto, “O mundo roda e a Lusitana gira”, como dizia o velho anúncio de outrora. O carnaval mudou e nós mudamos também. A título de consolo, lembremos que a despeito da mercantilização e pasteurização do carnaval, seu espírito subsiste na irreverência daqueles que optam por celebrar o reinado de Momo satirizando os poderosos e os eventos que protagonizaram.

Neste ano da graça de 2015, noticia-se que as máscaras mais em voga no Saara – região de comércio popular no Rio de Janeiro – são as de Nestor Cerveró e Graça Foster, celebridades ligadas ao escândalo do petrolão. O que pode ser entendido como a maneira de os cariocas se vingarem dessas estranhas (e feíssimas)  personagens. É como se dissessem: “Fomos ludibriados, mas vocês não são mais os donos de seus próprios rostos; nós nos apoderamos deles e os levamos para as ruas, onde são  motivo de riso das multidões.”

(Publicada no Diário da Manhã de Goiânia, em 10/02/2014).