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Discurso de posse dos novos membros em 2011

Em posses como esta geralmente se fala muito dos valores da confraria e das virtudes de uma academia. Exalta-se normalmente os talentos pelos quais os novos membros foram escolhidos e o que se espera da contribuição dos ingressantes.

            Nesta noite preferi trilhar um caminho discursivo diferente e iniciar minha jornada reflexiva pelo trajeto que nos conduz à imortalidade. Como já é de conhecimento geral, os membros efetivos de uma Academia são denominados “imortais”, tais como o foram Machado de Assis, Jorge Amado e tantos outros que atingiram a imortalidade na Academia Brasileira de Letras. A questão que proponho é a seguinte: os quesitos que os levaram à imortalidade são os mesmos que os nossos? Podemos nós, em uma simples Academia de nível municipal, considerarmo-nos imortais? Uma Academia que, diferente da Brasileira, agrega pessoas das artes e das ciências, para além da literatura, pode considerar seus membros imortais? Qual é o mérito dessa imortalidade? E, por fim, os que hoje adentram esta augusta casa, são dignos desse epíteto?

            Iniciemos, pois, nossa prédica da seguinte forma: o homem sempre buscou ser imortal. Isso está presente nos mitos cosmogônicos das primeiras civilizações, está presente na literatura egípcia, na grega, na mesopotâmica e até mesmo nas lendas subsaarianas e nas ameríndias. Os índios Karajás, por exemplo, acreditavam-se imortais e perderam a condição pela curiosidade humana. Foi, igualmente, a limitação do humano que expulsou o casal primitivo do Jardim do Éden, onde não conheciam a morte, segundo o mito que fundamenta a civilização judaico-cristã e, por extensão, a ocidental.

            Então o que nos parece é que a morte é que é o problema. Ou seja, o sonho que a humanidade sempre alimentou foi o de não morrer, de vencer tal fatalidade. E para isso, buscaram nos deuses, na magia e até na ciência um fio dessa possibilidade. Porém, como sabemos, a pedra filosofal nunca foi encontrada ou desenvolvida. A religião e a magia inventaram uma parte imaterial para homem a qual, mesmo depois da morte do corpo, permanece viva no Hades, no purgatório, no céu ou no inferno. E a ciência emprega todos seus recursos para prolongar a vida.

            Contudo, queiramos ou não, a imortalidade existe. Quando morremos nossos compostos químicos permanecem; para os místicos nossa alma vaga, retorna e outro corpo, ou vai para algum lugar etéreo; e, para os céticos, permanecemos somente na lembrança dos outros por aquilo que fomos e por aquilo que fizemos. Ou seja, de algum modo permanecemos e nos tornamos imortais.

            Não  morre aquele que deixa seu nome à posteridade. É uma afirmação que talvez nos auxilie a compreender o que seja exatamente o sentido desta câmara de notáveis. Notável pelo que escreveu, pelo que pintou ou esculpiu, pelo que cantou ou atuou no palco, pelo destaque nas ciências jurídicas, sociais, nas exatas ou na filosofia. Algo significativo deve ter realizado para ocupar uma cadeira e fazer parte deste grupo. E, por certo, os três novos nomes que nesta noite alcançam a condição de membros efetivos, fizeram o suficiente – cada um em seu distinto campo de atuação -  para afirmarem: alcancei a imortalidade.

            Porém, é bom refletir que entre o mundo dos mortais e o Hades havia um lago a ser atravessado com um pequeno barco; que Jacó viu uma escada entre o céu e a terra; que os índios cantam que seus mortos devem primeiro saltar uma grande serpente para atingir o paço de seus ancestrais e, por fim, na visão cristã, todos precisam sofrer a morte para depois viver eternamente.

            Travessia e escada representam esforço; serpente representa desafio, e morte representa abnegação. Não é fácil ser imortal e habitar entre os deuses. Alguém disse que era? Alguém veio achando que era fácil? Veio em busca de glória? Status? Destaque social? Privilégio ou qualquer condição que supere a do anonimato, a do esquecimento e a da morte de seu nome? Aos três que hoje iniciam essa travessia, é bom lembrar que a aprovação de seus nomes para a Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes – ATLECA, não significa a glória do panteão, mas o início da travessia, o primeiro degrau da escada e a luta contra morte. Na convivência entre os confrades e na luta por produzir algo digno, terão que pular a serpente que os atacará, saltando com elegância e desenvoltura todo e qualquer ataque que venham a sofrer de qualquer um que seja; terão que empreender muito esforço para subir tantos degraus da visão de Jacó. Ele mesmo lembrou de relatar que as figuras que via se tratava de anjos. Acho que vão precisar das asas da imaginação, da leveza do espírito e do sentimento dos seres angelicais para subirem. E esperamos que deixem morrer em seus sentimentos a hipocrisia, a mesquinhez, a perfídia, a desonestidade e tudo aquilo que a “carne” (no sentido cristão) representa. A alma, não apenas no sentido cristão, mas no sentido clássico (Greco-romano) representa o fôlego, o anima ou athma daquilo que produzirão e apresentarão aos seus pares. E vamos aguardar ansiosamente o produto desse trabalho, para que, conosco, possam dar mais vida a essa árdua travessia. Nós também estamos atravessando, saltando e lutando contra a morte. Queremos a imortalidade e a desejamos em nossa arte. Depende de nós atingi-la ou não.

            Hélio Pinheiro de Andrade será lembrado porque viveu, aprontou, namorou, amou sua família e estudou até seu mestrado e vendeu suas aulas - como sempre afirmou - atuando profissionalmente. Cristiano José da Silva será lembrado porque lutou até concluir seu doutorado na USP, antes de "gritar" as aulas -como se referiu, creio que jocosamente, a sua atuação docente -, será lembrado também pelo interesse na filosofia, pela chegada à Trindade para dar aula na Faculdade União de Goyazes e por sua radiante alegria. Roseli Vieira Pires será lembrada por ter sido atuante no ensino, na administração pública e porque com muita luta conseguiu defender sua tese de doutorado. Mas a Academia espera mais do que isso. Espera que sejam lembrados, ou melhor, imortalizados pela grandeza de alma, pela nobreza do pensamento e pela altivez de sua contribuição intelectual.  Se não fosse assim, todos seriam imortais (no sentido acadêmico do termo), mas não são. Imortais são aqueles que deixam seu legado não apenas à família, aos amigos ou aos descendentes, mas aqueles que deixam seu legado à humanidade.

 

            É esta nossa tarefa enquanto acadêmicos da ATLECA: deixar um legado, seja na arte, na ciência ou nas letras, que orgulhe nossos filhos, nossos amigos, nossos confrades e nossos concidadãos. Sintam-se em casa se tiverem imbuídos desse propósito e desfrutem da melhor maneira possível, doravante, a imortalidade.