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NA NOITE SILENCIOSA

Era noite e o silêncio pairava sobre a casa. Silêncio feito dos rumores da fazenda: o tranqüilo sussurrar das folhas nas árvores, um cachorro que ladra ao longe e outro que responde; passos no pátio distante. No quarto, a candeia de azeite era um ponto de luz na escuridão; da sombra emergia a silhueta branca da rede que oscilava nos armadores de ferro.

Sentada na rede, a velhinha rezava. Era uma doce e mansa avozinha, para quem o presente não contava mais e o passado, de há muito, povoara-se de sombras queridas. Sem pressa, ela rezava pelos seres amados que tinham partido – e os lembrava com afeto, na medida em que desfiava as Ave-Marias. De mistura com o cheiro de jasmim que entrava pela janela aberta, pairava no ar um perfume de saudade.

Ao balanço da rede, a velhinha, vestida na camisola antiquada, com os cabelos brancos soltos e os olhos fechados, rezava e recordava pessoas, lugares e fatos. Abstraída de tudo, como que flutuando entre a realidade e o sonho, era como se estivesse dividida entre o ontem e o hoje, o próximo e o distante, os vivos e os mortos.

De repente, sentiu que alguma coisa acontecera. Nada, nem sequer um ruído perturbara a tranqüilidade em redor. Todavia, intuindo algo estranho, ela abriu os olhos. À sua frente, no canto oposto à rede, vislumbrou um vulto meio difuso. A velha senhora esforçou-se, tentou enxergar melhor na semi-obscuridade, mas um véu como que lhe turvava a visão e tudo parecia esfumado e distante.

– Decerto estou sonhando - pensou. Insistiu em afastar a névoa que a perturbava e aplicou a vista. À frente, divisou o mesmo vulto, agora não mais rarefeito, mas bem definido em seus contornos.  Era um homem baixo, magro e encurvado, cujo rosto envelhecido como que refulgia numa luz vacilante. Sem dificuldade, ela reconheceu no porte e nas feições certo Tio José, cujo nome se esquecera de incluir em suas orações cotidianas.

Agora desperta, a velhinha devota nem sequer estranhou a insólita visita. Tio José fora um bom homem, temente a Deus. Por que assustar-se ao vê-lo? Seria um fantasma... Mas que mal fazem os fantasmas quando provêm daqueles a quem amamos em vida?

- Está querendo reza – ela concluiu tranquilamente e concentrou-se na prece. Lá fora, o vento soprava nas copas das mangueiras. Ave Maria... Ave Maria... Mistérios e Pais-Nossos sucediam-se, enquanto a avozinha recitava o rosário, pedindo paz e descanso eterno para a alma do falecido. 

O carrilhão da varanda bateu as horas: doze pancadas que soaram pesadamente e fenderam a noite silenciosa como golpes do destino. Destino de vida e de morte; destino de felicidade e de sofrimento; destino de fé e de descrença. Destino que preside à existência dos homens, para a alegria ou para a tristeza, para o amor ou para morte. Destino imprevisível e inexorável.

Com um sinal da cruz, deu por findas as orações, depois de recitar o De Profundis: Das profundezas clamo a vós, Senhor, / Senhor, ouvi as minhas preces!/ Se observardes, Senhor, as nossas iniqüidades, quem, Senhor, poderá subsistir?” Voltou os olhos para o canto do quarto, à sua frente. Lá estava, ainda, o Tio José – de pé, com as mãos acenando em despedida, seu vulto incorpóreo esvaindo-se como a tênue fumaça de uma vela que alguém apagou.

- Vai com Deus – ela pensou.

Deitou-se, então. Sentiu um pouco de frio, cobriu-se com o lençol. E tranqüilamente adormeceu.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 17 de fevereiro de 2015)