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CAMISOLA VERMELHA

Quanto tempo... A camisola vermelha estava guardada na gaveta. Naquele dia, resolvi usá-la. Ela é linda, decotada, longa, tem renda e cetim. (Foi um presente dado por uma grande amiga aindaem São Paulo.)

 

Pintei as unhas também de vermelho, cortei e arrumei meus cabelos. Corri e comprei aquele lençol 200% algodão.. Na mesa. Foram colocados queijos, vinho, taças e rosas vermelhas. Há tempos queria fazer tudo isso e não tinha motivação.

 

Eu sentia que você estava chegando a qualquer hora. Visualizei esse momento secreto. Deixei quente o seu lado em minha cama.

 

Sei que eu não estava delirando ou fugindo da realidade. Somente te desejando. Aquele era o nosso segredo!

 

A camisola vermelha... Ora, o vermelho é a cor da intensidade, proporciona uma atmosfera onde a sensualidade fica exacerbada. Ele nos deixa dominada pela paixão, com emoções que transbordam. Essa cor remete também ao perfil de personalidade já comentado por Hipócrates (460 –377 a.C.), ou seja, o da beleza sangüínea, que é luminosa, vibrante, dinâmica, festiva e destemida. Esses componentes algumas vezes ficam no nosso inconsciente e todos eles foram considerados no meu preparo que houve para aquele ritual. Na verdade ocorreu em mim toda uma met(amor)fose que foi se instalando aos poucos, através do autoconhecimento, estruturado a cada dia durante anos de busca e entendimento destes conteúdos latentes.

 

Esta conversa esta ficando “caliente”.  É que estamos lidando com o fogo, que é um elemento de transformação. Quase tudo pronto... O desejo de ser desejada pelo outro parece que cresce. "O que o ser humano mais deseja é ser desejado por outro ser humano." (Jacques Lacan). Porém, o foco ainda é agradar o outro. Portanto, se ocorrem desencontros, a camisola volta para a gaveta. O mecanismo usado, neste momento, é o da sublimação. Viva o trabalho! Projetos, mil projetos, inovações, muitas ações. Criatividadeem ação. Sucessoe reconhecimento... Mas ainda há um vazio, uma “ausência que me atormenta” (Camille Claudel).

 

Nova pausa. Muitos reikis, novas elaborações. Parece que mente e alma estão prontas, mas o corpo está adoecido, esquecido  ou até mesmo abandonado.... Rotinas médicas, constatações... É preciso mudar. Arrumar um tempo para cuidar de mim mesma.

 

Sempre inventava muitas desculpas para esta demora na tomada de decisão, muitas justificativas.

 

Então, numa sexta-feira, numa conversa com a “médica das mulheres”, escuto sua voz firme e direta esclarecendo no sentido de que não existiria mais saída se eu não cuidasse do meu corpo com uma alimentação saudável e com um condicionamento físico adequado.  Segundo ela, sem esses cuidados, minha vida estaria em risco. Mesmo assim, ainda adiei a decisão por mais alguns meses.

 

Hoje, porém, mais consciente de tudo isso, assumo de fato que para dar continuidade aos meus sonhos, preciso ter uma verdadeira harmonia com o meu corpo, com a minha mente e a minha alma, pois, assim, tudo flui de uma forma mágica, embora isso envolva muito mais transpiração que somente inspiração.

 

Após apenas seis meses de tratamento do corpo, somados aos anos de trabalho com a mente, eliminei 11 quilos, e vejo os resultados que isso tem trazido para a minha vida. Que alegria! Decidi, então, retirar novamente a camisola vermelha da gaveta. Também quis lançar mão do meu óleo preferido que estava guardado no armário, e usá-lo não somente em função do desejo e espera do outro e sim por que quero estar bem comigo mesma. Assim, resgatando minha auto-imagem juntamente com a autoconfiança, percebo que não existe mais o impossível. Agora me vejo por inteira.

 

Em seguida, tratei de arrumar as outras gavetas, caixas e bolsas, fazendo uma limpeza e deixando apenas o que é necessário para viver neste momento.

 

Quando estamos voltadas apenas para nós mesmos, ficamos muito apegadas a coisas que nem sempre são as mais importantes. Portanto, é necessário  separar apenas aquelas que nos trazem boas lembranças.

 

Sempre lutei muito. Deus ofertou esta oportunidade neste momento... Acho que ele está observando esta guerreira há muito tempo. Ele sabe que sou importante para ajudar tantas outras pessoas, e que precisava apenas de um amor verdadeira por mim mesma para ter mais coragem e força emocional. Durante muitos anos de trabalho e de relacionamentos, sempre me vi doando demais o meu amor, o meu afeto e a minha dedicação para os outros, seja na família, no trabalho ou na vida amorosa. Não posso dizer que isso não tenha valido a pena. Foi bom para mim e para as pessoas, pois criei muitos vínculos nesse tempo. E, assim, realizei muitas coisas, fiz muitas histórias que estão por aí registradas, alimentando muitas pessoas e constituindo aquilo que sou hoje. Mas agora chego à conclusão de que tudo é mais autêntico quando se consegue aplicar o mandamento bíblico que diz: “Amai ao próximo como a ti mesmo”. Esta sentença, por consistir em uma comparação estabelecida pela preposição “como”, nem sempre é bem compreendida pelas pessoas.  Portanto, acho necessário esclarecer que o “como a ti mesmo” pressupõe que o “ti mesmo” antecede, na idéia da frase, o “próximo”, e não o contrário, como se poderia supor tomando-se apenas a disposição física das palavras.

 

Assim agora vou fazer minha meditação, logo depois minha oração. Caminhar no parque, sentir o vento e o canto dos pássaros entrarem com tranqüilidade no meu coração.

 

Silêncio!Sinto uma sensação de um beijo misterioso ma minha nuca. Volto logo para casa e vejo a camisola no varal, pronta para ser novamente usada... Como escreve Pablo Neruda, em um poema dos Cem sonetos de Amor, “Meu amor tem duas vidas para amar-te...”

 

A nossa vida é assim remexida, revirada do avesso por muitos, resta-nos abrirmos o nosso coração, e sabermos que somente nós temos esta chave.