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NOVOS TEMPOS

Na última terça-feira, membros do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás foram recebidos pela ilustre Secretaria da Educação, Cultura e Esporte, Professora Dra. Raquel Teixeira. Com a cordialidade que lhe é própria ela acolheu os visitantes, que a parabenizaram pela investidura e lhe formularam votos de feliz gestão à frente da pasta, tão importante quanto complexa. Assuntos diversos foram tratados, sendo alguns pertinentes à área da cultura, na qual o IHGG se destaca como a mais antiga instituição do gênero no Estado de Goiás.

À oportunidade, pedi permissão para lembrar que, nas cidades do mundo ocidental, três instituições públicas são obrigatórias em nível de excelência: biblioteca, teatro/auditório e museu. Isso porque é exatamente nelas que se coloca ao alcance dos cidadãos – do poderoso  ao humilde – os mais valiosos bens da cultura universal. Assim sendo e em benefício de todos, faz-se necessário que biblioteca, teatro e museu disponham de espaços, acervos, equipamentos e serviços adequados para bem desempenhar funções de entretenimento, de conhecimento e de fruição estética, colocando à disposição dos visitantes e usuários o que de melhor produziu o espírito humano.

Goiânia, nossa bela capital que se aproxima de um milhão e meio de habitantes, dos quais cerca de 80 mil universitários, não dispõe de tais equipamentos urbanos, ou os tem insatisfatórios. Por exemplo: mesmo com a inauguração do Centro Cultural Oscar Niemeyer - ainda incompleto – os goianienses continuam sem salas adequadas para a exibição de orquestras ou de peças teatrais que exijam recursos cênicos mais sofisticados. O histórico Teatro Goiânia tem prestado bons serviços e há salas particulares que também o fazem. Mas está mais do que na hora de a capital goiana – que abriga algumas respeitadas escolas de música e grupos cênicos de reconhecido valor –construir seu Teatro Municipal, de nível internacional.

No que diz respeito a museus, assim como a bibliotecas, constata-se idêntica ou maior indigência. A propósito: nessa seara, o que temos nós para mostrar a eventuais turistas e visitantes interessados na história e na cultura de Goiás? Com o detalhe de que as precárias instituições existentes vivem sempre à míngua de recursos, a despeito de disporem de servidores dedicados, que se esforçam por salvá-las da deterioração, quando não da extinção.

Entretanto, dinheiro não falta para mega shows milionários custeados com recursos públicos. Multidões comparecem para ver e ouvir astros e estrelas midiáticos – os quais, certamente, não precisam de patrocínio público para garantir audiência. Temos uma política cultural (?) feita de eventos popularescos, sendo excluídos sumariamente os programas ditos “clássicos” ou “eruditos”, os quais o grande público não chega sequer a conhecer. Preconceituosamente rotulam-se as grandes criações artísticas e literárias, universalmente consagradas, como sendo “arte de elite”, que espelharia o gosto ultrapassado da execrada burguesia – pelo que não são contempladas na programação de eventos financiados com verbas governamentais. Isso quando em todo o mundo, inclusive na Inglaterra e nos Estados Unidos, campeões do entretenimento de massa, proliferam teatros e casas de espetáculo de altíssimo nível, com a exibição de espetáculos tradicionais e consagrados que contam com apoio oficial.

É preciso reformular o que está aí, colocando ao alcance das pessoas menos favorecidas a possibilidade de ao menos entrar em contato com os gigantes da arte internacional, nacional e regional. Orientação que deve começar nas escolas, com a educação artística a ser complementada com apresentações musicais e teatrais, além de visitas a museus e bibliotecas. Se não o fizermos, nós, brasileiros, estaremos fadados a continuar como repetidores e imitadores do que fazem europeus e norte-americanos.

Por último, mas não de menor importância: completando o quadro das instituições públicas indispensáveis, lembre-se o Arquivo Público, repositório da documentação essencial para a elaboração/revisão/atualização da História, em todos os seus níveis. Faz-se urgente que tais documentos – cujo suporte, o papel, é dos mais frágeis – sejam reunidos, organizados e colocados à disposição de pesquisadores, historiadores e professores, em instalações próprias e com a presença de equipes capacitadas para fazê-lo.

Nas universidades formam-se artistas, arquivistas, museólogos, historiadores, bibliotecários etc. É hora de o poder público dar início a novos tempos, valorizando-os e instituindo carreiras que selecionem os melhores para atuar a serviço da cultura goiana.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 24 de fevereiro de 2015)