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SOBRE A DOR

É de todos conhecida a explicação bíblica para a origem da dor, como castigo pela desobediência de Adão e Eva ao provarem o fruto do bem e do mal. Expulsos do paraíso terrestre, ele foi condenado a ganhar o pão com o suor do seu rosto; e ela, a ter os filhos na dor e no sofrimento.

A dócil aceitação feminina de gravidezes sucessivas – e  dores do parto - contribuiu para que se disseminasse a convicção de que as mulheres seriam mais resistentes ao sofrimento do que os homens. Durante séculos, a resignação à dor permeou a vida social e individual como virtude e meio de purificação dos espíritos.  Quando muito, recorria-se a benzeduras e rezas, havendo também santos protetores especializados: nas doenças dos olhos, Santa Luzia; nas afecções da garganta e ouvidos, São Braz; na lepra, São Lázaro; na gravidez e no parto, Nossa Senhora do Bom Sucesso e do Parto e assim por diante. Registre-se que, em muitos casos, orações dirigidas a referidos santos resultaram e ainda resultam em curas racionalmente inexplicáveis e até miraculosas.

A duração da vida era reduzida: ainda ontem, em meados do século passado, a expectativa dos brasileiros não passava de 43 anos; atualmente, alcança a média de 74,9 anos. O que decorre tanto dos progressos da medicina, como da melhoria das condições de vida e da assistência médica.

Em que pesem tais fatos, intriga-me o elevado número de pessoas que se aglomeram em qualquer ante-sala de clínicas médicas e consultórios: há filas, cadeiras ocupadas, corredores entupidos, secretárias estressadas. Já não se marcam consultas com intervalos de horas ou meias-horas – mas de exíguos 20 minutos.

E toda gente se queixa de dor. Eu, inclusive.

Há meses, uma artrose me maltrata. Com repouso, analgésicos e antiinflamatórios, o tratamento acrescenta indisposição geral ao sofrimento que não dá tréguas. Uma bengala entrou no meu dia-a-dia; caminho mancando, o joelho inchado, o humor rabugento. Por mais que me esforce, não consigo ver beleza, nem amenidades no cotidiano que me esmaga.

Sinto-me infeliz, mal humorada, desagradável. Mas como ignorar a dor que não cede, que é onipresente e avassaladora? Tomo os remédios, permaneço sentada ou deitada a maior parte do tempo, rezo para meus santos de devoção, que nunca me faltaram – mas que desta vez não me atendem. Procuro me informar qual é o protetor dos sofredores que não conseguem se locomover sozinhos – e descubro certa Santa Alphaïs du Cudot, pequena aldeia na Borgonha francesa.

Nascida em 1157, de família pobre, Alphaïs (Alpaíde, em português) ainda menina adoeceu com feridas e manchas pelo corpo, possivelmente lepra. Gradativamente, perdeu os movimentos dos braços, das mãos e das pernas. Confinada ao leito e afastada do convívio social e da própria família – que temia o contágio - desenvolveu em grau máximo as virtudes da paciência, devoção e humildade. Durante anos, alimentou-se somente da hóstia na comunhão, que lhe era levada aos domingos.

Consta que curava os doentes com bênçãos e orações. Era tal sua aura de santidade, que Alpaíde tornou-se conselheira espiritual da Rainha Adèle, esposa do rei Luis VII de França. Diz a tradição que, algum tempo antes de sua morte (em 1211), ela foi curada por Nossa Senhora que a protegia. Seu túmulo tornou-se local de peregrinação e milagres lhe foram atribuídos. Seis séculos depois, em 1874, veio a ser canonizada pelo Papa Pio XIX; o culto à santa sofredora e resignada subsistiu, ao longo do tempo, sendo sua festa celebrada em 3 de novembro, com a presença de romeiros de toda a França e do exterior.

É protetora dos deficientes físicos, dos aleijados e dos fisioterapeutas.  Curiosamente, também dos astronautas, pois que, em uma de suas visões místicas, a terra lhe apareceu como uma bola “suspensa no meio do mar azul”.       

Tantos séculos depois, vejo-me a conjecturar sobre os sofrimentos de Santa Alpaíde – e, igualmente, sobre a persistência da fé e da esperança na cura das enfermidades que nos castigam a nós, descendentes de Adão e Eva. Na ante-sala da clínica, olho ao redor: gente sofredora, em busca de melhoras; enfermeiras e médicos que se dedicam à procura de soluções para vencê-los.

Dr. Edmundo, o competente ortopedista que me atende, vem com uma injeção que irá aliviar (curar?) minha renitente artrose. O pavor faz enorme a agulha, infla o líquido que será injetado, traz-me calafrios ao corpo. Faço-me de forte e que Santa Alpaíde me proteja! Passado o pânico, concluído o procedimento, finalmente sinto-me melhor. Renovam-se as cores do mundo e o sol volta a brilhar. Sem dor, tudo revive ao meu redor...

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 04 demarço de 2015)