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Crônica pelos 20 anos da ATLECA

Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes é uma entidade cultural de nossa cidade, sobrevivente a tantos vendavais que varrem cotidianamente o cenário das instituições que trabalham o belo e o imperecível, num país onde cultura é lixo, infelizmente. Uma sobrevivente sim, pelo sonho e idealismo dos que sabem amá-la e protegê-la.

 

 Nascida de meu sonho e de minha inspiração, na época, com 20 anos de idade, em 1990, ela para mim é filha mais velha, dileta e muito amada. Depois de um tempo de preparação e de contatos com os escritores ligados à cidade de Trindade por nascimento, sangue ou afetividade, foi nossa entidade cultural fundada em 20 de agosto de 1990, fundamentando-se na construção de um alvissareiro futuro para a cul­tura de nossa admirável Trindade - ci­dade símbolo da fé e da Tradição do nosso Estado de Goiás:

 

A Academia Trindadense de Le­tras, Ciências e Artes é, até hoje, a demonstração cabal do quanto pode a força de vontade aliada à persistên­cia, ao idealismo de um pugilo de in­telectuais cônscios de seus deveres e que lutam e também concorrem com suas capacidades, quer nas letras, quer nas artes, para que a entidade se eleve no cenário cultural de Goiás e se firme em sua meta que é projetar, divulgar e tornar conhecido em todo rincão do Anhanguera e alhures, a versatilidade do intelecto do homem goiano, expressa em suas belas obras de arte, em suas músicas dolentes, em seus suaves versos, em seus profun­dos e convincentes artigos e em suas arrebatadas ficções, projetando o va­lor de nossa gente, além-fronteiras.

 

Façamos, então, um breve retros­pecto do passado. Mesmo sendo um passado recente, lembramo-nos do escrito valioso de Madame Leandro Duprè em Éramos Seis: "Feliz dessa geração que não conhece o significa­do da palavra saudade". Esse sentimento é duplamente doloroso. Poucos, muito poucos, hoje têm lembranças. Há um sentimento de esvaziamento, enfim, vácuo, nesses novos tempos de hoje, certamente mais felizes.

 

 E sob o sig­no de recordações pungentes, lembramo-nos que em 1989 quando nos dispusemos em fundar em nossa cidade - coração católico do Centro­ Oeste Brasileiro- uma entidade de credenciada e comprovada importân­cia, tivemos o respaldo sincero de duas criaturas admiráveis: Luzia de Araújo (1942-1992) nossa inesquecível mãe e Anita Jayme (1900-1999) nossa admirável avó, que conosco o palpitaram sob o jugo emocional de sugestões antigas, reve­renciando o passado na procura de nomes de escol para formar o quadro o quadro social da entidade.

 

Os três primeiros nomes apontados: Rosarita Fleury, Célia Coutinho Seixo de Britto e Amália Hermano Teixeira, todas hoje, para nosso profundo ­pesar, já falecidas.

 

 Essas figu­ras iluminadas, criaturas divinais são, hoje, presenças etéreas em nosso meio; luzes que clareiam nossos ca­minhos. Mulheres cujas vidas foram sóis infinitos de amor ao próximo, à natureza, à história e a Goiás.

 

Foram elas arrimo e esteio de nossa Academia e que utilizando o grau elevado de seus intelectos, auxi­liaram a arregimentar outros nomes que, acalentadoramente, passaram a fazer parte de nossa mais lídima afeti­vidade: Nelly Alves de Almeida, Ni­ce Monteiro Daher, Sônia Maria Fer­reira, Terezy Fleuri de Godoi, Maril­da de Godoy Carvalho, Genezy de Castro e Silva, Çollemar Natal e Sil­va, Antonio Geraldo Ramos Jubé, Augusta Faro Fleury de Mello, EdIa Pacheco Saad, Eli Brasiliense Ribei­ro, Geraldo Coelho Vaz, Goiandira do Couto, José Mendonça Telles, Lygia de Moura Rassi, Maria Eliza­beth Fleury Teixeira, Maria Emídio Evangelista, Maria Mendanha, Nar­cisa de Abreu Cordeiro, Modesto Go­mes da Silva, Osvaldo Rodrigues e Bariane Ortêncio, num total de 31 acadêmicos.

 

Escolhida a Diretoria provisória em 20 de Agosto de 1990, composta pelos Acadêmicos Bento Alves Araú­jo Jayme Fleury Curado (Presidente), Sônia Maria Ferreira (Vice­ Presidente), Maria Elizabeth Fleury Teixeira (Secretária), Augusta Faro Fleury de Mello (2ª Secretária), Nar­cisa de Abreu Cordeiro (1ª Tesourei­ra), e Célia Coutinho Seixo de Britto (2ª Secretária), a partir daí, foram es­colhidos outros nomes para compo­rem o quadro social da entidade: Lin­domar Castilho, Enéas Silva, Cici Pi­nheiro, Márcia Lisboa Milagre, Oste­crino de Oliveira Lacerda, Reginaldo Saddi, Cleuza Maria Marques Silva, Célia Câmara, Elza de Freitas, Félix Henrique Reinish, Gilcélia Martins de Carvalho, José Fernandes, Maria Augusta Callado de Salloma Rodri­gues, Omar Souto, Reynaldo Rocha que formaram, então, o quadro efetivo da Academia com 40 Membros Titu­lares das Cadeiras.

 

Queremos ressaltar e agradecer o empenho da Diretoria provisória na pessoa da Acadêmica Sônia Maria Ferreira que demonstrou, desde o iní­cio, dedicação e força de vontade pa­ra auxiliar no crescimento da entida­de; às acadêmicas Maria Emídio Evangelista, Maria Elizabeth Fleury Teixeira, Nice Monteiro Daher, Au­gusta Faro Fleury de Mello, Narcisa Cordeiro e Cleuza Maria Marques pelas Atas da Academia; à Acadêmi­ca Maria Mendanha pelo apoio em ofertar a sede da Delegacia Regional de Educação de Trindade para as pri­meiras reuniões acadêmicas; ao Aca­dêmico Omar Souto pela doação de um belíssimo quadro para nossa enti­dade; ao escritor José Mendonça Tel­les por ofertar a sede da Academia Goiana de Letras para as reuniões ini­ciais da Academia; ao professor Co­lemar Natal e Silva por ofertar a sede do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás para nossas reuniões; ao Aca­dêmico Reynaldo Rocha por divul­gar, através do jornal O Popular, os eventos promovidos pela Academia; à Acadêmica Maria Elizabeth Fleury Teixeira pela doação do acervo de Rosarita Fleury para a Biblioteca To­ninho Camargo de nossa Academia; e ainda às saudosas senhoras Leolina Ferreira Gonzaga, Eunice Duarte de Abreu Camargo e Emília Perillo Ar­genta, que auxiliaram a Academia no seu nascimento.

 

Os Membros efetivos da Acade­mia Trindadense de Letras, Ciências Artes foram devidamente empossados em sessão solene realizada na Delegacia Regional de Educação de Trindade (hoje Subsecretaria Regional) em 02 de maio de 1991, oportunidade em que reverenciamos a saudosa memória de Amália Hermano Teixeira e também de Otavinho Arantes, então falecidos recentemente.

 

Os acadêmicos assinaram os termos de posse em outra sessão solene realizada no Clube CCS de Trindade, onde foram homenageadas o Desembargador Sebastião Herculano Fleury Curado, o folclorista Joaquim Luiz Ferreira e a escritora Mariana Augusta Fleury Curado; com lançamento de livro de Augusta Faro Fleury de Mello.

 

Nas diversas atividades culturais e ­acadêmicas, conseguimos levar até a juventude trindadense o labor intelec­tual goiano, provando que Academia não carece ser voltada apenas a uma determinada elite, mas ela é patrimônio de toda a população de Trindade.

 

Na história de nossa Academia estarão imortalizados os feitos desses homens e dessas mulheres notáveis do passado. Foram eles alavanca do tempo, batalhadores do bem comum, imortais no edificante serviço presta­do ao Estado na sustentação de nossa base cultural.

 

 Mesmo que alguns de­les não tiveram direta ligação com Trindade, sabemos, foram construto­res de laborioso serviço que, de for­ma indireta, acabou nos fazendo cres­cer. Também, no quadro efetivo dos Acadêmicos Titulares, possuímos bom número de Acadêmicos de Goiâ­nia, razão pela qual, em alguns casos, tivemos reuniões pouco numerosas.

 

 Mesmo alvo de crítica, acredito que tal iniciativa gerou resultado, pois aju­dou a fortalecer a entidade, e, na sua formação, mesmo trindadenses de destaque declinaram ao convite de participar conosco como Otavinho Aran­tes, Gerson de Castro Costa e Jôna­thas Silva.

 

Não só de êxitos, infelizmente, viveu a nossa Academia. Tivemos momentos difíceis com perdas de va­lores inestimáveis de nosso meio; fi­guras carismáticas que foram luzes em nossa caminhada: Luzia de Araujo, uma das inspiradoras da entidade, que, em grande sofrimento, faleceu em 27 de fevereiro de 1992, Rosarita Fleury, ocupante da Cadeira nº37 de nossa entidade, mulher admirável, orgulho de Goiás, romancista laurea­da pela Academia Brasileira de Letras com seu romance Elos da mesma corrente, faleceu em 14 de março de 1993, deixando uma lacuna im­preenchível no coração dos admiradores e amigos.

 

Logo, nossa tão amada Célia Coutinho Seixo de Britto ini­ciaria sua pertinaz enfermidade que se prolongaria até 28 de janeiro de 1994, culminando com o seu sentido falecimento. Foram lacunas e perdas irremediáveis, pois, as três, foram fi­guras admiráveis, mulheres de força, determinação e coragem que transfor­maram suas vidas em amor e luz. Seguiram-se as perdas de Elza de Freitas, Enéas Silva, Cici Pinheiro, Edla Pacheco Saad, Nelly Alves de Almeida, Genezy de Castro e Silva, Colemar Natal e Silva, Lygia de Moura Rassi, Modesto Gomes da Silva, Antonio Geraldo Ramos Jubé, Lucio Batista Arantes, Ediberto Marcolino Vieira, confrades de grande nome e de grande valor para a história de Goiás.

 

Difícil no meio cultural é a falta de compromisso de muitos Acadêmi­cos, para com as entidades em que se filiam. Mesmo outras entidades con­gêneres como Academia Goiana de Letras, Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás; acompanhamos o árduo esforço de Hélio Moreira, Heloísa Helena de Campos Borges, no sentido de arregimentar elementos para a formação de reu­niões condizentes com o elevado grau da entidade, o que nem sempre ocorre.

 

 Com isso as Academias se arrastam com dificuldades inco­mensuráveis, trilhando vagarosamen­te o caminho, evitando a pressa exa­gerada que causa o cansaço prematu­ro. Muitos imortais que, somente in­teressados nos títulos, concorrem às vagas e ocupam o lugar sem nenhuma contribuição efetiva para o soergui­mento da cultura; deveria haver en­tão, uma cláusula que pusesse fora tais elementos que, na verdade, se constituem em estorvo para as Acade­mias, mesmo que para muitos, tal ati­tude seja considerada punitiva e anti­democrática.

 

A Academia Trindadense de Le­tras, Ciências e Artes, augusta casa de letras de nossa terra manteve acesa nesses 20 anos a chama do labor e do saber.

 

Seguiu os velhos preceitos judiciosos, com calma, serenidade e altivez, firmando-se no cenário cultu­ral de Goiás, conquistando o respeito e a credibilidade dos vultos de escol que regem os destinos da cultura e da intelectualidade goiana. Sabemos também que por excesso de zelo, muitas e muitas vezes erramos, mas sempre estivemos dispostos para en­frentar os embates da luta, sem esmo­recimentos, e, com humildade, não nos abstemos ao sorriso primaveril das esperanças e dos ideais que emba­lamos e da alegria do conví­vio que nos foi florindo o caminho, no desdobramento contínuo de nossas múltiplas atividades.

 

Nossa Academia Trindadense de Letras, Ciências e Artes nasceu para a eternidade. Ela será o retrato con­junto de nossos sonhos, de nossos an­seios e de nossas conquistas. Ela se firmará na história de Trindade como um farol no nevoeiro, como um raiar libertário onde as forças latentes nos diversos campos da ação intelectual se firmarão buscando ao alvissareiro futuro.

 

Assim ocorreu com os presidentes admiráveis que honraram essa Casa de Letras como Félix Henrique Reinisch, Maria Benta do Carmo Queiroz, Iraci Borges, Maria Emídio Evangelista e Doris da Silva Pereira. Também, cabe aqui a homenagem ao Prefeito que mais nos auxiliou, Pedro Pereira da Silva; que nos amparou no prédio do Sobradinho e forneceu todos os meios para que nossa instituição se fortalecesse. Que Deus o ampare e ilumine na pátria maior.

 

Nessa efêmera caminha­da que é a vida, devemos trilhar nossa estrada sabendo que tudo terá fim, que somos passageiros a caminho do infinito. Assim agradecemos a todos os amigos admiráveis que souberam honrar nossa entidade e que nos auxiliaram de todas as maneiras, especialmente ao distinto casal Dr. Antonio Alves de Carvalho e Maria Geralda de Carvalho que cederam o casarão de sua propriedade, para, em regime de comodato, ser instalada nossa academia, atendendo como hoje o público de uma maneira geral. A tudo isso se deve a idéia feliz da Sócia Benemérita Lizenor Meirelles Lewergger e da dedicação à causa, da incansável Iraci Borges para que a sede da Academia fosse uma realidade.

 

Também de forma muito especial, o carinho, desvelo, dedicação e esmero do admirável casal Lena Castello Branco e Floriano Freitas Filho pelas incansáveis demonstrações de amor e idealismo por nossa Academia. Que Deus possa fazê-los sempre felizes no santuário ecológico da aprazível Chácara Santa Cruz.

 

Nessa recordação, cumpre-nos salientar que, na somató­ria de nossos erros e acertos haverá, como certeza, o resultado de nosso trabalho. Muitos outros esforços vi­rão de Acadêmicos igualmente capa­zes, nas novas turmas que empossaram; que nos ajudarão a cuidar com ze­lo e amor da árvore da vida intelec­tual para que esta fique mais frondosa e se multiplique em frutos.

 

.Fica a certeza de que estaremos eterni­zados no legado de dignidade, de honra, de cultura e de humanidade que deixaremos à posteridade. É como se permanentemente ouvisse uma modinha dolente, nas vozes maviosas de Maria Ludovico, Ana Rita Ludovico e Goiana Vieira, a embalar meus sonhos.

 

Novos tempos aqui estão. Novos sonhos, novos ideais, tudo novo. Nessas linhas, o registro de quem viveu, pelo coração e pela alma, a gênese de nossa agremiação, da minha filha, hoje adulta e emancipada, entregue às descobertas de um tempo que se chama futuro. Não existe adeus, apenas tudo que passou como tudo passa e passará.

 

 E mi­rando os exemplos de minha admirá­vel mãe, de minha saudosa avó, de Célia Coutinho, Amália Hermano e Rosarita Fleury, saberei guiar meus passos, até que venha a mim o poente dos sonhos, pejado de cintilações outonais.