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DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Em 8 de março celebra-se o Dia Internacional da Mulher, instituído há 40 anos pela ONU - Organização das Nações Unidas. Como todos nós sabemos, essa data reporta-se ao dramático episódio da greve deflagrada por operárias de uma fábrica têxtil, em Nova York, em 08 de março de 1857. Tinham elas por objetivo: a redução da jornada de trabalho; a isonomia no pagamento de salários; o tratamento digno no ambiente de trabalho. As grevistas morreram, vítimas do incêndio criminoso ateado ao local em que se refugiaram.

Em que pesem os avanços conseguidos até os dias de hoje, essas ainda são algumas das reivindicações presentes na agenda de quantos lutam pela melhoria da condição feminina.

Em verdade, a mulher proletária sempre trabalhou em casa e fora dela. Ao longo de pesquisa que vimos desenvolvendo sobre a história das mulheres em Goiás – em parceria com o amigo e escritor Bento Fleury Curado - temos encontrado rica documentação sobre o tema. Fica evidente que, desde sempre, couberam às mulheres os trabalhos menos qualificados e de pior remuneração. Além da dupla jornada de trabalho a que se submetiam, era inexistente o reconhecimento social das atividades de lavadeiras, engomadeiras, domésticas, fazedeiras de velas e de sabão, matadeiras de porcos e assim por diante.

Dúvidas e questionamentos sobre o trabalho da mulher fora de casa somente adquiriram ressonância quando jovens e senhoras das classes média e alta começaram a ingressar no mercado de trabalho. Verdade que, anteriormente, algumas delas, provenientes de estratos tradicionais da sociedade já acrescentavam ganhos à renda familiar, com atividades exercidas no próprio recinto do lar: doceiras, quitandeiras, costureiras, modistas, floristas etc.

A grande mudança de enfoque em relação às atividades femininas remuneradas deu-se quando surgiram as primeiras professoras e funcionárias públicas, que trabalhavam fora de casa como, por exemplo, nos Correios e Telégrafos. Mulheres de classe média e alta começaram a ter acesso à educação formal e passaram a escrever para jornais e reivindicar direitos políticos e civis, além de espaço para atuação profissional. Em Goiás, a Federação Goiana Para o Progresso Feminino – versão local da homônima Federação Nacional, fundada por Berta Lutz – provocou debates sobre o novo papel que se desenhava para as mulheres.

Na medida em que surgem os primeiros cursos de nível médio e superior no Estado, formam-se normalistas, bacharelas em direito, farmacêuticas, ondontólogas, contabilistas. Em Goiânia, são criados o curso de Enfermagem e as licenciaturas/bacharelados da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. De outra parte, a antiga tradição musical da Cidade de Goiás levou à busca de formação superior teórico-musical e pianística nos grandes centros do País, com a conseqüente introdução do ensino da música instrumental, em nível acadêmico.

Certo é que as mulheres goianas começavam a ampliar sua área de atuação, deixar o casulo e firmar-se como força de trabalho, ombreando com esposos, irmãos e filhos em carreiras de sucesso e socialmente prestigiadas. Tais mudanças não se deram sem problemas, angústias e sentimentos de culpa – resultando em que mulheres passaram a assumir dupla e até tripla jornada de trabalho.

Com efeito: paralelamente à atuação profissional, fazia-se (e faz-se) mister atender à vida doméstica e social, dedicar-se ao marido e cuidar dos filhos, assegurar clima propício à harmonia conjugal e familiar.

Hoje, a AFLAG - Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás - reúne-se em sessão festiva, para celebrar o Dia Internacional da Mulher e, igualmente, ouvir depoimentos de mulheres que foram e são expoentes em suas áreas de atuação: a médica Dra. Dilair de Faria Vasconcelos; a professora Dra. Raquel Figueiredo Alessandri Teixeira, educadora e Secretária de Educação do Estado de Goiás; a pianista, professora e maestrina Maria Lucy Veiga Teixeira, nossa querida D. Fifia.

São destacadas senhoras que viveram – e vivem – a transição entre a mulher confinada no lar e a mulher profissional, exercendo carreiras de alcance social e, igualmente, sendo boas esposas, mães de família e donas de casa. Solicitadas a falar sobre suas vidas e experiências, elas nos brindarão também com depoimentos pessoais sobre como se decidiram por suas carreiras e como conseguiram conciliá-las com os diferentes papéis femininos que tão bem desempenharam e continuam a desempenhar.

Com esse painel, a AFLEG pretende homenagear as ilustres convidadas, representativas do universo feminino como um todo; de igual modo, apontar caminhos e tracejar exemplos que poderão iluminar as mentalidades e as opções no tempo de hoje, tão diverso do de outrora, mas nem por isso destituído de humana essência e substância.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 10 de março de 2015)