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REFLETINDO

A tarde foi de chuva. Ainda encoberto o céu deixa entrever rasgos de um azul muito límpido, como se as águas de há pouco o tivessem lavado. Brilham gotículas nas folhas; azaléias e manacás parecem saciados. Os pássaros recolheram-se e ainda não voltaram, nesse crepúsculo silencioso de final do verão.

Durante todo o dia, acompanhei as notícias sobre as manifestações populares de hoje. Correu tudo bem, mas sinto-me inquieta, até porque os tempos são de insegurança e imprevisibilidade.

E eis-me a conjecturar sobre a estranha sensação que me afeta, de que algo está por acontecer; uma espécie de pulsão que nos deixa a todos em estado de alerta. Na minha idade, é claro que melhor seria se – ao contrário – vivêssemos em paz e segurança. Depois de mais de 40 anos de trabalho, aposentada, com filhos e netos criados, parece justo desejar tranqüilidade. Não somente em casa, que graças a Deus a tenho – mas também no país e nas ruas.

Não tenho conta do número de eleições em que votei. A primeira foi em 1949, quando a propaganda eleitoral era feita em jornais, rádios e comícios. Às vezes, havia críticas bem humoradas aos candidatos – como a Getúlio Vargas, parodiado por um estudante baixinho que acenava solenemente para o povo. Ao lado, outro gaiato representava o guarda- costas, Gregório Fortunato: alto, armado, de terno escuro e olhar tenebroso, o onipresente “Anjo Negro” não desgrudava do “Gegê”, cuidando do charuto e do chapéu.

Vargas elegeu-se democraticamente para a presidência da República. Entretanto, a ganância dos áulicos do poder resultou no chamado “mar de lama”, que se formou nos porões do Palácio do Catete. Lembro-me do clima de indignação que se respirava, com manchetes e editoriais denunciando favorecimentos e corrupção, o círculo de acusados ampliando-se a cada dia e alcançando familiares do presidente. No Congresso, a oposição não dava tréguas. Era quase palpável a tensão em suspenso no ar; metaforicamente, acender um fósforo poderia provocar um incêndio gigantesco e incontrolável.  

Veio o anti-clímax: confrontado com revelações de falcatruas e bandalheiras, sentindo-se politicamente atraiçoado e pessoalmente humilhado, Vargas suicidou-se.

Hoje, sinto-me aflita e ansiosa. Entretanto, não são somente as notícias de corrupção e de geral incompetência que me ensombram a claridade dessa tarde luminosa. Preocupam-me, sobretudo, a revolta quase palpável, o ódio e a indignação que pairam no ar e se espraiam a cada dia.

Desde as eleições de outubro de 2014, acentua-se a clivagem que nos divide, a nós brasileiros. De um lado, os governantes e dirigentes, ocupando cargos de direção com acesso a recursos públicos, benesses e  oportunidades – e  deles se apoderando em benefício próprio.  A estes, somam-se seus sócios, beneficiários  e apaniguados, além de uma enorme massa de manobra, contemplada com “bolsas” que deveriam erradicar a miséria, mas que a estão perpetuando.

Do outro lado, assalariados, trabalhadores, pequenos, médios e grandes empreendedores, gente que dá duro, paga altíssimos impostos e pouco ou nada recebe em troca. O despreparo e a ineficiência estão em tudo: nos transportes ruins; na péssima escola pública; no calamitoso atendimento à saúde; na segurança inexistente; na inflação que corrói salários e rendimentos etc.

A insatisfação e a revolta vêm num crescendo, que tende a desaguar na descrença das instituições e na rejeição ao sistema político e seus titulares. Ficou patente que era mentiroso o discurso marqueteiro que levou à vitória eleitoral da candidata Dilma Rousseff – de onde o desengano dos próprios petistas não comprometidos com tais desmandos.

Vivemos a esdrúxula situação de um governo que começou ontem e já parece esgotado. O ininteligível discurso da presidente contribui para que se reforce a sensação de que estamos em uma nau sem rumo, desgovernada, ao sabor de ventos e marés. O que é agravado pelo desvendamento do gigantesco esquema de corrupção que exauriu a Petrobrás.    

A crise econômica entrelaça-se à crise política e à crise moral, tudo contribuindo para o clima de revolta e de indignação popular que aflora por toda a parte: nas conversas, na mídia, nas redes sociais, na avaliação péssima do governo e na incapacidade deste de tomar as rédeas e tirar o país do atoleiro.

Hoje, 15 de março de 2015, manifestações encheram as ruas das capitais e das principais cidades brasileiras. O recado é um só: “Fora Dilma e leva o PT junto”. Mais o refrão: “Se gritar pega ladrão/ Não sobra um, meu irmão”.

Qual será o próximo passo? O que virá depois? Que Deus continue a ser brasileiro e nenhuma tragédia nos alcance.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 17 de março de 2015)