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DE CHEIQUES E AIATOL$Aacute;S

Frequentei a escola primária em minha cidade natal, Parnaíba (PI). Localizada no primeiro andar de um sobrado de esquina, na Praça da Graça, nela havia poucos equipamentos e nenhum enfeite. As carteiras eram duplas; de madeira, tinham a tampa móvel sobre um compartimento onde se guardavam livros, cadernos e o mais que fosse necessário: régua, compasso, transferidor, lápis de cor. No meio da tampa, havia um buraco para um vidro de tinta azul, pois que se escrevia com caneta de pena de aço e usava-se  mata-borrão. Ao lado, em uma pequena concavidade, ficavam o lápis preto, o apontador e a borracha: um só, nada dessa profusão de objetos que iniciam as crianças no consumismo.

Atrás da mesa da professora, havia um cavalete com gravuras coloridas, que serviam de tema  para as redações; em outro, viam-se fotografias de espécimes botânicos e minerais; em um terceiro, desenhos do corpo humano. No quadro negro - preto mesmo – escrevia-se com giz branco, usado com parcimônia, até o fim. Mapas cobriam as paredes; sobre uma coluna, um globo terrestre que girava em um pé de metal – e eu os via e sonhava com paisagens e pessoas diferentes.

O currículo incluía o básico: língua portuguesa, aritmética, ciências, geografia e história, além de trabalhos manuais. As aulas ocupavam toda a manhã, com breve intervalo para o recreio, que desfrutávamos na praça em frente. Íamos para casa almoçar, voltando à tarde para fazer tarefas de rotina ou participar de programas diversos, como a comemoração de datas cívicas.

Os trabalhos escolares eram corrigidos, assinalando-se os erros com tinta vermelha e comentando-os com o aluno. Explicava-se o porquê da correção; o exercício seria refeito, de tal sorte que não ocorresse a repetição e conseqüente memorização de erros, como se acertos fossem. 

A escola, multisseriada, recebia alunos da 1ª. à 4ª. série primária; o número de matrículas não se alterava de ano para ano, com duas professoras lecionando para todos e atendendo individualmente cada discente, por sua vez. Dividia minha carteira com um(a) colega de igual adiantamento - e assim aprendi a compartilhar o espaço e a aceitar as diferenças. Não me lembro de episódios de rebeldia ou de enfrentamento entre alunos e professoras: a disciplina era severa, não se passava a mão na cabeça de ninguém, exigia-se pontualidade, responsabilidade e dedicação. Somando-se à disponibilidade das mestras, isso nos fazia intuir um objetivo comum: o de nos abrir janelas para o mundo e desvendar-nos os caminhos do conhecimento.

Éramos estimulados a ler, a partir de seletas em prosa e verso, com excertos de obras de autores consagrados.  Como programação extra-curricular, minha irmã e eu tínhamos aulas com D. Yette, uma normalista francesa que se casara com um parente de minha mãe. Eu estaria talvez na 4ª. série quando ela me presenteou  com o livro “O homem que calculava”, de Malba Tahan, que depois soube ser o pseudônimo do matemático Júlio César de Melo e Souza.

Matemática nunca foi o meu forte – mas adorei o livro, que me acenou com um mundo de cheiques, vizires, palácios, caravançarás, bazares, beduínos e oásis no deserto... Tudo muito diferente e fascinante – inclusive o Alcorão, Alá e Maomé. A partir de então, apaixonei-me pelos árabes e seus avanços nas ciências, na astrologia, na astronomia, e principalmente na álgebra e na medicina.

Muitos anos passaram-se. Aquele Oriente Médio idealizado submergiu em guerras ditadas pelas disputas do petróleo e, em tempos mais recentes, pela intolerância e terrorismo, sob a liderança de aiatolás dogmáticos, quando não fanáticos.  Nesse meio tempo, mudou e massificou-se a escola brasileira, diluíram-se seus conteúdos, sem que se cuidasse verdadeiramente de ensinar e educar – a despeito de teorias sem conta. O “politicamente correto” passou a dominar e restringir as manifestações de pensamento, na contramão de pregações utópicas (talvez insinceras) de paz e amor entre os povos.

Vendo na Internet as caricaturas e artigos de opinião sobre o chamado “perigo muçulmano” que estaria a ameaçar o ocidente cristão – e as sangrentas ações de muçulmanos fanáticos, que incluem ataques suicidas e assassinatos  - pergunto-me se voltarão os dias despreocupados, quando ninguém se sentia ameaçado ao cantar a marchinha carnavalesca: “Alá-la-ô, ô, ô, ô, ô/ Mas que calor, ô, ô, ô, ô! / Atravessamos o deserto do Saara/ o sol estava quente que queimou a nossa cara/ Alá-la-ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô....” Finalizando com um pedido bastante válido nos dias  atuais: “Viemos do Egito/ e muitas vezes nós tivemos que rezar/ “Alá! Alá! Alá, meu bom senhor/ manda água pro ioiô/ manda água pra iaiá...”

Maktub!

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 31 de março de 2015)